Haroldo de Campos nasceu em19 de Agosto de 1929

Haroldo Eurico Browne de Campos,  nasceu em São Paulo no dia 19 de Agosto de 1929. Faleceu na mesma cidade em 16 de Agosto de 2003. Poeta, uma das maioes figuras do concretismo brasileiro, tradutor (a ele se deve uma tradução em português da Ilíada de Homero, foi um dos participantes no clube de Poesia de Décio Pignatari, sendo um dos fundadores do grupo Noigandres – as suas obras principais são: Xadrez  de Estrelas (1976); Signância:  Quase Céu (1979); Galáxias (1984); A     Educação dos Cinco Sentidos (1985); A Crisantempo (1998); A   Máquina do Mundo Repensada (2001). Mostramos um vídeo gravado durante um programa da TV Cultura.

 

 

 

laisser faire laisser passer

  1.
o
neoliberal

neolibera:
de tanto
neoliberar

o neoliberal
neolibera-se de
neoliberar

tudo aquilo que não seja neo
(leo)

libérrimo:
o livre quinhão do
leão

neolibera a corvéia da ovelha

   2.

o neoliberal
neolibera

o que neoliberar
para os
não-neoliberados:

o labéu?
o libelo?
a
libré do lacaio?

a argola do galé?
o
ventre-livre?

a bóia-rala?
o prato
raso?

a comunhão do atraso?
a ex-comunhão dos
ex-clusos?

o amanhã sem fé?
o café
requentado?

a queda em parafuso?
o pé de
chinelo?

o pé no chão?
o bicho de
pé?

a ração da ralé?

   3.
no céu
neon

do
neoliberal

anjos-yuppies
bochechas
cor-de-bife

privatizam
a rosácea do
paraíso

de dante
enquanto
lancham

fast-food
e
super

(visionários) visam
com olho
magnânimo

as bandas
(flutuantes)
do
câmbio:

enquanto o não

neoliberado

come pão
com
salame

(quando come)
ele
dorme

sonhando
com torneiras de ouro
e
a hidrobanheira cor

de âmbar
de sua
neo-

mansão em miami

     4.

o centro e a
direita

(des)conversam
sobre o
social

(questão de polícia):
o desemprego um
mal

conjuntural
(conjetural)
pois no
céu da estatís-

tica o futuro
se decide pela
lei

dos grandes números

   5.
o neoliberal
sonha um
mundo higiênico:

um ecúmeno de ecônomos
de
economistas e atuários

de jogadores na bolsa
de
gerentes

de supermercado
de capitães de
indústria

e latifundários de

banqueiros
– banquiplenos
ou

banquirrotos
(que importa?
dede que
circule

autoregulante
o
necessário

plusvalioso
numerário)
um
mundo executivo

de mega-empresários
duros e
puros

mós sem dó
mais atento ao
lucro

que ao salário
solitários (no
câncer)

antes que solidários:
um mundo onde
deus

não jogue dados
e onde tudo dure para
sempre

e sempremente nada mude
um
confortável

estável
confiável
mundo
contábil.

  
6.

(a
contramundo
o
mundo-não

-mundo cão-
dos
deserdados:

o anti-higiênico
gueto
dos

sem-saída
dos excluídos
pelo

deus-sistema
cana esmagada
pela
moenda

pela roda dentada
dos
enjeitados:

um mundo-pêsames
de
pequenos

cidadãos-menos
de
gente-gado

de civis
sub-servis

de
povo-ônus
que não tem lugar marcado

no campo do possível
da
economia de mercado

(onde mercúrio serve ao deus
mamonas)

   7.
o
neoliberal

sonha um admirável
mundo
fixo

de argentários e multinacionais
terratenentes
terrapotentes coronéis políticos

milenaristas (cooptados) do
perpétuo

status quo:
um mundo
privé

palácio de cristal
à prova de
balas:

bunker blau
durando para sempre – festa
estática

(ainda que sustente sobre
fictas

palafitas
e estas sobre uma
lata

de lixo)

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