(Continuação)
PASSAPORTES |
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Durante o casamento do Correia da Silva, Alexandre O’Neill entre Aurélio Santos e Silas Cerqueira |
Ainda em 53 decido casar e tu, é claro, és um dos convidados para a festa. Bem sabes que eu e a minha mulher acabámos de dar um giro pela Europa. Puxas-me de lado. Perguntas, surdina: – Os vossos passaportes ainda estão válidos? – Sim. – Então pirem-se enquanto é tempo, que as coisas vão apertar por aqui. Realmente pensamos pirar-nos para o Brasil, mas sei que a raiz da tua ansiedade é outra. Em 1949 Nora Mitrani, surrealista francesa, passa por Lisboa. Vocês conhecem-se, convivem, apaixonam-se, l’amour fou às vezes deflagra fora dos livros… Depois de regressar a Paris, Nora convida-te a ir ter com ela: – Vens, ficas por cá, logo se vê… Solicitas passaporte ao Governo Civil de Lisboa. Mas alguém da tua família antecipa-se, não quer que vás atrás da francesa e mete cunha, na PIDE, para que te seja negado passaporte. E o passaporte é-te negado. Que raio de país é este em que a polícia política até se dá ao luxo de contrariar amores? Eis Um Adeus Português, o teu amor frustrado, a tua raiva: Não tu não podias ficar presa comigo (…) tu és da cidade onde vives por um fio Nesta curva tão terna e lancinante – Alexandre, bem entendo a tua preocupação com os nossos passaportes, gato escaldado de água fria tem medo, mas sossega, tem calma! Não tiveste, intuíste que não devias tê-la: eu e a minha mulher ainda a gozarmos a lua de mel e tu a seres preso pela PIDE. Quando partimos para o Brasil continuavas na choça. Durante quarenta dias ficarás à sombra, a contemplar aquela pata ensanguentada que vacila…
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Em 1958, no Brasil, chega-me às mãos o teu livro No Reino da Dinamarca. E em 1960 Abandono Vigiado. E em 1962 Poemas com Endereço. E em 1965 Feira Cabisbaixa. E em 1969 De Ombro na Ombreira. E em 1972 Entre a Cortina e a Vidraça. Tamanha produção e eu a perguntar-me: – Mas este gajo ganha a vida a escrever poemas? Não acredito! Eis que o Vasconcelos, velho amigo do Café Chiado, agora metido a turista, em 72 arriba a São Paulo, cidade aonde vivo. O grande abraço. Pergunto pelo O’Neill e ele esclarece: – O poeta continua a escrever versos, mas do que ele vive é da publicidade. Está sempre a saltar de uma agência para outra, é disputado por todas. Ganha o que quer, rios de dinheiro. – Ainda bem! Ao menos esse escapou da fomeca… Estou a vê-lo: verbo fácil, não lhe custa inventar slogans. Alguns entram no ouvido, fazem furor. É o caso de BOSCH É BOM. Para gáudio de amigalhaços (poetas, publicitários e papalvos) é o próprio poeta quem faz o trocadilho obsceno: Boche é brom! Divertido é também é um anúncio recusado pelo fabricante: Num colchão de sumaúma, Mas dos slogans a sério, um chega mesmo a converter-se em popular rifão de praia. É um alerta aos banhistas imprevidentes: HÁ MAR E MAR,
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REQUIEM PARA NORA MITRANI |
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O’Neill escreve 6 poemas em memória de Nora Mitrani. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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– Sem passaporte, o poeta não tornou a ver Nora Mitrani. Sabias que a francesinha suicidou-se em Paris, em 1961? – Sabia sim, Vasconcelos. Em 1962 li o requiem que o O’Neill escreveu: Para ti o tempo já não urge, Já Pierrot-vomitando-fogo Mas esse obscuro servidor, corre, lesto, como uma chama, * * * Se eu pudesse dizer-te: – Senta aqui |


