Biografia de ALEXANDRE O’NEILL, Poeta: 1924 – 1986, por Fernando Correia da Silva

 

(Continuação)

 

 

PASSAPORTES

 

 

 

Durante o casamento do Correia da Silva, Alexandre O’Neill entre Aurélio Santos e Silas Cerqueira

 

Ainda em 53 decido casar e tu, é claro, és um dos convidados para a festa. Bem sabes que eu e a minha mulher acabámos de dar um giro pela Europa. Puxas-me de lado. Perguntas, surdina:

– Os vossos passaportes ainda estão válidos?

– Sim.

– Então pirem-se enquanto é tempo, que as coisas vão apertar por aqui.

Realmente pensamos pirar-nos para o Brasil, mas sei que a raiz da tua ansiedade é outra. Em 1949 Nora Mitrani, surrealista francesa, passa por Lisboa. Vocês conhecem-se, convivem, apaixonam-se, l’amour fou às vezes deflagra fora dos livros… Depois de regressar a Paris, Nora convida-te a ir ter com ela:

– Vens, ficas por cá, logo se vê…

Solicitas passaporte ao Governo Civil de Lisboa. Mas alguém da tua família antecipa-se, não quer que vás atrás da francesa e mete cunha, na PIDE, para que te seja negado passaporte. E o passaporte é-te negado. Que raio de país é este em que a polícia política até se dá ao luxo de contrariar amores?

Eis Um Adeus Português, o teu amor frustrado, a tua raiva:

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

(…)

tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

– Alexandre, bem entendo a tua preocupação com os nossos passaportes, gato escaldado de água fria tem medo, mas sossega, tem calma!

Não tiveste, intuíste que não devias tê-la: eu e a minha mulher ainda a gozarmos a lua de mel e tu a seres preso pela PIDE. Quando partimos para o Brasil continuavas na choça. Durante quarenta dias ficarás à sombra, a contemplar aquela pata ensanguentada que vacila

 

 

PUBLICIDADE

 

 

 

Em 1958, no Brasil, chega-me às mãos o teu livro No Reino da Dinamarca.  E em 1960 Abandono Vigiado. E em 1962 Poemas com Endereço. E em 1965 Feira Cabisbaixa. E em 1969 De Ombro na Ombreira. E em 1972 Entre a Cortina e a Vidraça. Tamanha produção e eu a perguntar-me:

– Mas este gajo ganha a vida a escrever poemas? Não acredito!

Eis que o Vasconcelos, velho amigo do Café Chiado, agora metido a turista, em 72 arriba a São Paulo, cidade aonde vivo. O grande abraço. Pergunto pelo O’Neill e ele esclarece:

– O poeta continua a escrever versos, mas do que ele vive é da publicidade. Está sempre a saltar de uma agência para outra, é disputado por todas. Ganha o que quer, rios de dinheiro.

– Ainda bem! Ao menos esse escapou da fomeca…

Estou a vê-lo: verbo fácil, não lhe custa inventar slogans. Alguns entram no ouvido, fazem furor. É o caso de BOSCH É BOM. Para gáudio de amigalhaços (poetas, publicitários e papalvos) é o próprio poeta quem faz o trocadilho obsceno: Boche é brom!

Divertido é também é um anúncio recusado pelo fabricante:

Num colchão de sumaúma,
Você dá duas que parecem uma…

Mas dos slogans a sério, um chega mesmo a converter-se em popular rifão de praia. É um alerta aos banhistas imprevidentes:

HÁ MAR E MAR,
HÁ IR E VOLTAR.

 

 

REQUIEM PARA NORA MITRANI

O’Neill escreve 6 poemas em memória de Nora Mitrani. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. 

 

 

– Sem passaporte, o poeta não tornou a ver Nora Mitrani. Sabias que a francesinha suicidou-se em Paris, em 1961?

– Sabia sim, Vasconcelos. Em 1962 li o requiem que o O’Neill escreveu:

Para ti o tempo já não urge,
Amiga.
Agora és morta.
(Suicida?)

Já Pierrot-vomitando-fogo
(sempre ao serviço dos amantes)
não entra no nosso jogo
como dantes.

Mas esse obscuro servidor,
que promovemos uma vez
(ainda eu não te dedicara

aquele adeus português…),

corre, lesto, como uma chama,
entre nós dois (o saltarim!)
e desafia-nos prá cama.
Esperas por mim?

* * *

Se eu pudesse dizer-te: – Senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,

ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar!
) cada arrepio
que aos viageiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém: – Vê se adivinhas…
Então um fértil jogo de amor seria.
Não este descerrar a mão vazia !
(…)

 

Leave a Reply