O MAR DO ALGARVE – por Clara Castilho

Foto da autora

 

Não consigo dispensar o mar do Algarve nas minhas férias, senti-lo no meu corpo, olhar a sua cor na linha do horizonte, ouvir o seu murmúrio deitada à noite na cama e as gaivotas ao amanhecer. E acabo sempre por rumar a estas bandas, pelo menos por alguns dias, com prejuízo de outros projectos.

 

A culpa é da Maria e do Chico Keil. A minha primeira memória é uma viagem  com eles, aí com uns seis anos, num “dois cavalos” antiquíssimo, ainda sem estofos e com assentos tipo cadeiras de praia. O traumatismo do meu traseiro, assente na divisória nunca desapareceu da minha memória…E depois, foi a paixão que a própria Maria tinha pela sua terra natal, a construção da sua casa perto da capelinha da Srª da Rocha e os dias aí passados em vários verões.Casa construída de raíz pelo próprio arquitecto (Francisco Keil do Amaral) que me deixa de boca aberta tal era a sua originalidade, simplicidade e enquadramento na natureza, respeitando-a (percebo-o eu hoje).

 

 

 

Hoje banhei-me com um cardume de peixes azuis à minha volta, numa perfeita harmonia que me enche de paz e simultaneamente carrega as energias para o ano que se avizinha. E levo bocados para casa, na forma de pedras de vários feitios que enfeitam os meus tapetes, de flores secas apanhadas no alto de um monte com vista para o mar, num momento em que me vi sem ninguém à volta, a ouvir Mahler vindo do rádio do carro…

 

 

 

Aqui onde estou não posso esquecer Sophia de Melo Breyner que tanto amou estas praias. Com ela me junto.

 

 

O mar azul e branco e as luzidias

Pedras – O arfado espaço

Onde o que está lavado se relava

Para o rito do espanto e do começo

Onde sou a mim mesma devolvida

Em sal espuma e concha regressada

À praia inicial da minha vida

 

(Inicial, em Dual, 1972)

 

 

 

Penso que neste país, nas suas dificuldades, nos desafios prementes, com pouca esperança de mudanças efectivas que me agradem. E penso nas belezas, nas potencialidades… Prefiro olhar para o chadrezado translúcido, reflexo do ondular do mar, num vai e vem calmante, para as conchas que vislumbro no chão, admirando a transperência da água que me permite ver até ao ínfimo pormenor. E lembro o poema da Fiama:

 

 

Na Beira-Mar

Nunca o mar foi tão ávido

quanto a minha boca. Era eu

quem o bebia. Quando o mar

no horizonte desaparecia e a areia férvida

não tinha fim sob as passadas,

e o caos se harmonizava enfim

com a ordem, eu

havia convulsamente

e tão serena bebido o mar.

(Fiama Hasse Pais Brandão, in “Três Rostos – Ecos”)

 

 

Leave a Reply