A crise, a Europa, e o Mediterrâneo . 5 – Jean-Paul Guichard (traduzido e enviado por Júlio Marques Mota)

(Continuação)

 

4)  A vassalagem  da  Europa?

 

Se a Europa não se decide pela protecção  aduaneira  a fim de equilibrar o seu comércio externo, sera  então  de modo  inexoravel levada a  ficar numa situação de pura   vassalagem  à China. A palavra é forte  e  um olhar  sobre a história do  século XIX e do início do  século XX talvez  possa ser útil. Perto de  nós, por exemplo, como é que  Marrocos foi levado a assinar   em 1912 um Tratado que institui “o protectorado” da França?  Não foi  o resultado de uma conquista militar; a presença francesa começou pela   via  económica, em especial  com o controlo do porto de Casablanca[1], a condição   indispensável à penetração económica que se ia seguir. O país estava a ficar sujeito a muita insegurança, mesmo a lutas armadas pelo conquista do poder: a Monarquia foi obrigada, nomeadamente para poder comprar  armas, a endividar-se cada vez mais junto de bancos franceses; chegou um momento em que  as dívidas eram tão  importantes que eram necessárias  garantias seguras como colateral; O Estado marroquino, muito fraco, não estava em condições de as poder disponibilizar: era necessário uma garantia bem mais forte; O Estado marroquino nesta situação de completa dependência no que diz respeito aos seus credores, teve de  aceitar ficar  sob tutela. Esta história foi   também, em grande parte,  a da China, do Egipto, da Tunísia,…

 

A penetração chinesa contemporânea na Europa é certamente multiforme: aquisição  ou obtenção de concessões de infra-estruturas de transportes, aquisições  de empresas, compras de títulos de dívida pública,  apoio à imigração cada vez mais consequente; no entanto, o controlo de infra‑estruturas de transporte e as compras de títulos de dívidas públicas devem reter mais particularmente a nossa atenção.

 

No que diz respeito às infra-estruturas, todos nós já ouvimos falar  da tomada de controlo sobre o Porto do Pireu. O que é muito menos conhecido, é que o primeiro porto francês, o do Havre, vai seguir – através da  intermediação  de sociedades ecrãs – o mesmo caminho; do mesmo modo, a plataforma aérea de Châteauroux (uma antiga base da NATO que está  dotada de uma pista de 4000 metros de comprimento) vai ser concedida a um consórcio de empresas chinesas para uma zona de actividades que deverá  acolher vários milhares de empregos: a articulação   com um aeroporto que pode acolher aviões de grande porte  indica bem  que  se  trata  de um ponto de entrada na Europa de produtos chineses cujo acondicionamento se  fará  na zona de actividades onde esta actividade será a sua  função essencial[2].

 

Estes são alguns exemplos e estes não esgotam o assunto: pode-se pensar que operações similares estão em cursos de preparação, igualmente na França (nomeadamente com o propósito da concessão de aeroportos ou de portos) como noutros países da União Europeia, mais particularmente nos países que conhecem actualmente grandes dificuldades como a Espanha, Portugal ou a Grécia.

 

Como se sabe, a aquisição de empresas  ou as tomadas de participação significativas, constituem  uma das vias de penetração económica na Europa pela China; a compra de Volvo por exemplo permite, evidentemente, organizar de maneira muito simples as transferências de tecnologias; mas o que dizer de tomadas de participações minoritárias em grandes empresas? Parece que a sociedade EDF (Electricidade da França) é detida em cerca de  5% pelo menos, talvez mais, por capitais chineses: trata-se de uma empresa que intervém na China, no domínio da energia nuclear civil, cujos eventuais contratos na China constituem uma potente alavanca para  que tomadas de participações sejam aceites[3] .

 

O elemento mais decisivo da situação de vassalagem  é o das finanças públicas.

 

Há  um dado que é pouco conhecido  mas que é muito importante porque dá uma medida da amplitude do fenómeno: 630 mil milhões de euros de títulos de dívidas públicas europeias são detidos pela China[4] ; a ordem de grandeza é a mesma  que se verifica  para os Estados Unidos.

 

(Continua)


[1] Face à China,este processo foi iniciado  pelas potências europeias  e pelos Estados Unidos, no século XIX, com o  controlo de portos ( Cantão, Ninghi, etc) a fim de  assegurarem a penetração dos produtos levados pelos negociantes destes países, em especial, o ópio

[2] Os produtos chineses importados, pela graça de acções de conclusão e de montagem tornar-se-ão então produtos “made in France”. São múltiplas as empresas chinesas de direito francês que estarão a operar nesta zona e que contratarão muito pessoal de origem  chinesa; outras despedirão o seu pessoal (chinês) ao fim de certo tempo: estes trabalhadores poderão então encontrar trabalho noutro lugar, na França; haverá assim, a criação de uma fileira de imigração “legal”.

 

[3] Em sentido oposto, como é que uma empresa que intervem na China no âmbito de novos contratos com um accionista minoritário poderia recusar à este o acesso às suas tecnologias mais elaboradas? É frequentemente o caso, apesar das declarações em sentido contrário pelos  dirigentes  destas empresas.

 

[4] É necessário recordar aqui que, na  Primavera de 2011, as reservas da China, (“reservas” e fundos soberanos, da China e Hong-Kong) estavam  consideradas como sendo  4. 400 mil milhões de dólares. As aplicações em títulos públicos europeus , que representam cerca de 900 mil  milhões de dólares, constituem cerca de  20% destas reservas.

 

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