Dias Comuns (Diário) 2 – José Gomes Ferreira

16 de Junho de 1968

 

A minha vizinha do rés-do-chão, antiga violoncelista da Orquestra da Emissora, endoideceu e foi para a rua de bikini.

 

Mas ao contrário das loucas que tenho encontrado pela vida fora, esta antipatiza comigo. Há tempos insultou-me no autocarro diante do Abelaira e do Carlos de Oliveira, aos berros injustos:

 

–  Este maldito velho anda sempre a perseguir-me! Não olhe para mim, seu velho!

 

Tão diferente da Alda Coutinho que conheci em criança de cabelos insolentes caídos pelas costas.

 

Depois enrolou-se na vida. Casou, divorciou-se, frequen­tou clubes suspeitos, armou em artista de variedades (por essa altura deixou de me falar, com vergonha da criança morta de cabelos longos que existia entre nós), até que um dia, farta de labirintos, a pureza gelou-a e correu para mim aos gritos:

 

–  Ó Zeca! Ó Zeca! Ó Zequinha!

 

Sorri-lhe. Estava louca. O cadáver que havia entre nós ressuscitou. A desgraça tornou-se de súbito inocente.

 

–  Que me queres, Alda? – perguntei-lhe com ternura.

 

A pobre rapariga embrulhou-se em explicações de arame emaranhado:

 

–    Como sabes, tive um avô que foi vice-rei da índia. Dom Qualquer Coisa Coutinho, que me deixou várias minas de ouro… Mas a Rainha da Inglaterra roubou-mas.

 

–    O grande estupor!

 

–    Sim, uma cabra…

 

Como prova de pureza trazia agora uma flor no cabelo.

 

–  O pior – suspirou – é que não tenho cinco réis. Nem sei onde hei-de ir dormir.

 

E com uma faúlha de juízo repentino:

 

–  Emprestas-me 10 escudos?

 

Dei-lhos – a sentir-me culpado.

 

Então, pouco a pouco, a pobre Alda Coutinho foi-se afogando. Sempre de flor nos cabelos… Mas mais esguede-Ihada. E insultadora. Com silvas e picos agrestes na voz:

 

–  Vão berdamerda! Vão berdamerda!

 

Porém, mal me avistava, adoçava-se logo. E com a bai­larina da adolescência renascida nos gestos (e a flor a segui-la por toda a parte) voltava a chamar-me:

 

–  Ó Zéquinha! Ó Zéquinha!

 

E em tom secreto (- Ah! nem a miséria desiste da sedução!):

 

–  Emprestas-me 10 paus?

 

Que remédio!

 

Até que a levaram para a Mitra.

 

Que é isto? Estou cheio de saudades?

 

(in José Gomes Ferreira, Dias Comuns,V – Continuação do Sol, Publicações Dom Quixote)

 

 

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