A revolta das abelhas contra as vespas, por Jean-Louis Guigou. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.

Introdução


Deixamos ao visitante, deixamos ao leitor de  A viagem dos argonautas este pequeno texto da Autoridade sobre os mercados financeiros de França e deixemo-lo na língua de origem para não podermos ser acusados de manipulação na tradução. A cada um a sua leitura. Fazemos a nossa.


Comunicado da AMF


“L’Autorité des marchés financiers rappelle aux utilisateurs des forums de discussion consacrés aux sujets financiers et boursiers que l’émission d’avis sur des valeurs admises aux négociations sur un marché régulé par l’AMF est soumise à certaines exigences réglementaires

 

La Direction des enquêtes de l’Autorité des marchés financiers (AMF) a récemment réalisé plusieurs enquêtes qui ont montré que sur des forums de discussion consacrés aux sujets financiers et boursiers, voire sur des « blogs » personnels, de nombreux messages véhiculaient des avis et opinions sur des valeurs admises aux négociations sur un marché régulé par l’AMF, sans que les auteurs de ces avis ne mentionnent systématiquement leurs positions en titres.

 

Or, le fait pour toute personne de donner un avis sur une valeur, sans indiquer simultanément la position prise préalablement par elle sur cette même valeur, et de tirer profit de cette situation, est susceptible de constituer un manquement de diffusion de fausse information, conformément aux dispositions de l’article 632-1 alinéa 2 du règlement général de l’AMF.

 

Compte tenu du volume important de messages échangés sur les forums internet, dont beaucoup font état d’avis sur des valeurs cotées en bourse, l’AMF a ainsi souhaité rappeler la réglementation applicable.”


E do nosso ponto de vista este texto não se desvia da lógica das autoridades inglesas que face à revolta social querem a censura sobre a Internet. Nesta mesma lógica, o texto que se segue sobre as abelhas, se deixarmos que o sistema repressivo se implante, seria pois um texto proibido, o mesmo é dizer que se a nossa resignação continua a bloquear a nossa capacidade de sentir e de nos manifestarmos, nas ruas, nas escolas, nas fábricas, onde se vive e trabalha colectivamente, então garantidamente autores como o deste texto, deixarão de poder ser publicados e os divulgadores destes mesmos textos far-lhe-ão depois companhia na prisão. Pessimismo? Exagero? Talvez, mas então haja alguém que consiga, por exemplo, explicar o silêncio sobre o BPN, sobre os responsáveis do dinheiro que aí não existe,  sobre os beneficiários dos milhares   de milhões que todos nós teremos de pagar, até mesmo os desempregados?  Que nos expliquem então, a começar pelo actual Presidente da República, autoridade máxima no nosso país. O povo merece-o  embora  lamentavelmente não o exija.


Um texto sobre as abelhas e as vespas, um texto a ler, aqui vos deixamos.

 

 

Júlio Marques Mota

 

A revolta das abelhas contra as vespas


Jean-Louis Guigou


No mundo dos insectos, as abelhas trabalham e produzem mel, enquanto que as vespas, grandes predadores, lhes sugam  o mel e as destroem.


Em economia, desde o início dos tempos, os homens apenas encontraram duas maneiras de adquirir os recursos de que precisam: roubar, tal como o fazem as vespas, ou criar, como o fazem as abelhas. Na economia, as abelhas são quem produzem a riqueza e o valor acrescentado: agricultores, mundo industrial e da produção de serviços, mundo da finança dedicada aos investimentos produtivos. As vespas, por outro lado, são predadoras. Destas, as mais conhecidas são as beneficiárias de rendas, os rentiers, que exploram e especulam sobre os recursos naturais ou que beneficiam de monopólios pelas importações, construção, etc.


Nos países árabes e africanos, estes predadores são ainda muito numerosos. Mas adicionam-se, no Ocidente, os novos predadores, muito virulentos, que operam quer pela manipulação da informação quer ainda através da desregulamentação financeira.

 

A Sul, como a Norte, as vespas predadoras obtêm os seus rendimentos exorbitantes não pela produção-desenvolvimento-inovação, mas através da sua proximidade com os poderes políticos, pela corrupção, tirando directamente dos cofres do Estado, como muitos ditadores árabes e africanos.


Assim, a crise actual do grupo Murdoch expressa-nos de forma bem evidente a captura do Estado pelos grupos privados e o papel decisivo dos media  para desviar e distrair as pessoas dos seus problemas reais. Da mesma forma, a economia financeira que influenciou para a sua própria vantagem as regras do jogo, pela ganância assim como pela sua  lógica e comportamento de curto-prazo, mergulha o mundo ocidental numa profunda crise, na ruína e no declínio. Nos países emergentes prevalecem as abelhas. São elas as grandes ganhadoras com a globalização por causa do seu apetite pela indústria, enquanto o Ocidente desde há trinta anos, não faz outra coisa que não seja acumular riqueza virtual, que pode desfazer-se em fumo numa noite de pânico na Bolsa.


Dois exemplos: para os 1% dos ” bancos de abelhas ” que financiam ainda a actividade de produção de riqueza existem 99% de “bancos de vespas ” que capturam as políticas para desregularem as finanças e nos venderem os produtos derivados, completamente inúteis, logo, completamente desnecessários – milhares de milhões de produtos tóxicos – e nos impingirem também a especulação à vista. Outro exemplo, “o espírito de vespa” invade as nossas melhores Universidades, uma vez que mais de metade dos alunos da Polytechnique se destinam a alimentar  as profissões que preenchem o universo da finança.


Em todo o mundo, as abelhas trabalhadoras revoltam-se contra as vespas predadoras que as exploram. Existe uma relação muito forte de parentesco entre as Primaveras “árabes”, e os “indignados” de Madrid, os revoltados de Atenas, os rebeldes de Telavive e até mesmo com os manifestantes em cólera de Londres. Todos querem viver do seu trabalho e reencontrar a sua dignidade. Em todos os lugares no mundo, as abelhas, agricultores, artesãos, taxistas, jovens licenciados, artistas, empresários, trabalhadores, intelectuais, etc. ousam enfrentar nas ruas o mundo dos predadores que são as vespas: os ditadores, o mundo das finanças, o mundo dos que vivem das rendas, de todos os tipos, os rentiers,  os privilegiados, os ociosos, todos os que vivem comodamente sentados à espera que lhes cheguem os seus rendimentos de privilégios, os rendimentos dos seus “direitos de portagem” (“gate keeper business “), sentados  à espera que lhes cheguem os rendimentos enviados pelos subscritores de todos os tipos de serviços possíveis, que lhes cheguem afinal o preço da sua assinatura ou do acesso ao serviço.


Acabar com os ditadores dos países árabes, acabar com os políticos gregos corruptos, acabar com os especuladores imobiliárias espanhóis, pôr fim ao Governo israelita, que privilegia a guerra desnecessária, acabar com os predadores que se refugiam em Wall Street e na City,; por todo o lado e em todos os países, é a mesma luta: contra a ditadura política, a Sul, e contra a ditadura financeira, a Norte.


É o que a crise actual cruamente põe em evidência, é um sistema desviado, construído sobre o virtual, longe, muito longe mesmo das grandes inovações. Emerge um desejo de um novo modelo económico e social, com mais produção de bens, com mais engenheiros, com mais indústria, com mais agricultura, com mais visão de longo prazo, com mais trabalho para os jovens e para os menos jovens, também. É ainda tempo para a França e a Europa para corrigir em esta trajectória infernal do sistema actual.


Seria injusto pedir às abelhas que trabalhem ainda mais para repararem os danos causados pelas vespas do sistema financeiro que conseguiram impor a manutenção do sistema (produtos desregulados, agências financeiras imperiais, dívidas soberanas à sua disposição…) sobre as políticas, que se vergam perante estes novos monstros que devem ser constantemente “acalmados”. Mas quem se ocupa em acalmar os desempregados, os trabalhadores, os industriais? Uma solução: acabar com estas falsas profissões em que as vespas investiram, acabar com  todos os nichos próximos dos poderes políticos onde eles crescem, onde eles prosperam e taxar todos estes actores improdutivos. Mas também reagrupar todas as abelhas e juntarmo-nos à sua revolta contra as vespas.

 

Jean-Louis Guigou,economista, La révolte des abeilles contre les frelons, Le Monde, Agosto de 2011.

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