Dias Comuns (Diário) 3 – José Gomes Ferreira

 

 

27 de Junho de 1968

 

A derrota da Esquerda nas eleições francesas trouxe à baila o voto das mulheres. Pequenina discussão mansa com lábios de caricatura:

 

–  Sempre fui contra o voto feminino!… — clamava o Abelaira. – É a grande arma da Reacção.

 

–  Apoiado!… – aplaudia o Carlos.

 

–  Liberdade, para as mulheres, só na cama… – resumi eu.

(Reservo-me sempre a melhor frase. Ai não!)

 

*

 

Neste momento exacto em que estou a ouvir na Rádio o Requiem de Dvorak, a Maria entrou, insólita, com um cara­pau num prato:

 

– Ó Sr. Doutor, quer ver a frescura deste carapau?

 

Olhei.

 

Que lindo cadáver!

 

Missa de Requiem.

 

*

 

Carapau… Carapaus…

 

Há três ou quatro anos, o Alexandre, em Albarraque, quando viu no prato carapaus fritos, desatou a chorar. Mas a chorar mesmo. Pelos carapaus!

 

– Coitadinhos dos carapaus! Tão pequeninos e tiveram coragem de matá-los. Que covardes!

 

E, ante o pasmo geral, chorava, chorava a valer, aos gritos. Sem comédia. (Depois, percebi que estava a chorar por ele.)

 

 

*

 

Dia de calor. No tanque do Largo da Igreja vários miúdos nus nadam com ligeireza árdua.

 

Perto, o homem da Carris olha-os benevolente, feliz por não ser polícia.

 

Sorrimos um para o outro. Durante alguns instantes liga-nos a mesma alegria de haver crianças e sol a chapinha­rem no lago.

 

Deviam encher Lisboa, não de piscinas pinocas, mas de tanques assim, de água corrente, onde as crianças mergu­lhassem quando lhes desse na gana.

 

Até para muitas delas descobrirem que nem só as lágri­mas são água.

 

(in José Gomes Ferreira, Dias Comuns, V – Continuação do Sol, Publicações Dom Quixote)

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