27 de Junho de 1968
A derrota da Esquerda nas eleições francesas trouxe à baila o voto das mulheres. Pequenina discussão mansa com lábios de caricatura:
– Sempre fui contra o voto feminino!… — clamava o Abelaira. – É a grande arma da Reacção.
– Apoiado!… – aplaudia o Carlos.
– Liberdade, para as mulheres, só na cama… – resumi eu.
(Reservo-me sempre a melhor frase. Ai não!)
*
Neste momento exacto em que estou a ouvir na Rádio o Requiem de Dvorak, a Maria entrou, insólita, com um carapau num prato:
– Ó Sr. Doutor, quer ver a frescura deste carapau?
Olhei.
Que lindo cadáver!
Missa de Requiem.
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Carapau… Carapaus…
Há três ou quatro anos, o Alexandre, em Albarraque, quando viu no prato carapaus fritos, desatou a chorar. Mas a chorar mesmo. Pelos carapaus!
– Coitadinhos dos carapaus! Tão pequeninos e tiveram coragem de matá-los. Que covardes!
E, ante o pasmo geral, chorava, chorava a valer, aos gritos. Sem comédia. (Depois, percebi que estava a chorar por ele.)
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Dia de calor. No tanque do Largo da Igreja vários miúdos nus nadam com ligeireza árdua.
Perto, o homem da Carris olha-os benevolente, feliz por não ser polícia.
Sorrimos um para o outro. Durante alguns instantes liga-nos a mesma alegria de haver crianças e sol a chapinharem no lago.
Deviam encher Lisboa, não de piscinas pinocas, mas de tanques assim, de água corrente, onde as crianças mergulhassem quando lhes desse na gana.
Até para muitas delas descobrirem que nem só as lágrimas são água.
(in José Gomes Ferreira, Dias Comuns, V – Continuação do Sol, Publicações Dom Quixote)

