A crise, a Europa, e o Mediterrâneo . 10 – Jean-Paul Guichard (traduzido e enviado por Júlio Marques Mota)

(Conclusão)

 

d) O Euro pode sobreviver?

 

Trata-se de uma pergunta que é “politicamente pouco correcta” dado que vai contra os dogmas repetidos religiosamente  nas instâncias europeias: o euro vai bem, sem ele a situação seria bem pior , é necessário por conseguinte defendê-lo, mantê-lo!

 

É ainda necessário  guardá-lo bem  também porque  2012 é um ano importante nos calendários eleitorais de vários  países: é necessário por conseguinte que os dirigentes políticos se apresentem de novo ao   eleitorado  sem  estarem a carregar com um notório falhanço político, o falhanço evidente do euro. Inventa‑se pois o que se pode fazer passar por ser  uma solução mas que na verdade não é nenhuma solução : a solidariedade financeira Europeia no que diz respeito à Europa do Sul. Por outras palavras, o esquema proposto estaria que os elos  supostos “fortes” da zona euro (a Alemanha, a França, a Holanda) propõem uma assistência financeira, que poderia apenas prolongar-se aos elos mais  fracos e reconhecidos como tal que são a Grécia, Portugal, a Irlanda, a Espanha. Neste esquema, cuja aplicação visaria preservar os credores da reestruturação das dívidas [1] e a salvaguardar além disso a UEM, os países em dificuldade são transformados em países assistidos,  condenados à mendigar anualmente [2]  o montante que os elos  “fortes” lhes queiram atribuir .

 

É necessário sublinhar que tal dispositivo não poderá certamente durar muito tempo: os Estados europeus credores têm eles mesmos dificuldades; o apoio renovado aos elos  fracos viria inconvenientemente sobrecarregar  e de modo bem pesado  as suas próprias finanças públicas,  obrigando-os, por seu lado,   a endividarem-se também eles ainda um pouco mais no que diz respeito a credores estrangeiros (nomeadamente à  China);  não será difícil acreditar   que os eleitores dos países contribuintes reprovariam fortemente  os governos que se lançariam de modo douradoiro em tais políticas como o mostram já as eleições recentes nos Países Baixos, na Finlândia, na Alemanha.

 

A UEM, que foi constituída com base em países extremamente diferentes uns dos outros e sem união política destes, aparece como um conjunto de países  ainda adiado,  enquanto conjunto , devido aos desequilíbrios comerciais enormes que existentes no seu seio, reflexos desta heterogeneidade de  base.

 

 

e) Um pouco de esperança: para a União Europeia e para o seu ambiente do Mediterrâneo .

 

O fim do euro não seria necessariamente o fim da União Europeia: seria simplesmente necessário que os seus dirigentes tenham em conta o que é possível e o que não o é. Seria necessário sobretudo que retomem o que constituiu  “os fundamentais” da Europa do Tratado  de Roma: livre circulação interna,  protecção – mas  sim, PROTECÇÃO! – face  ao exterior… Uma vez mais, não se trata “de regressar  ao proteccionismo” [3]como o pretendem os cínicos defensores  da OMC, pessoas que têm bem frequentemente uma cultura, muito singular  em economia,  de muito fraca espessura e que  está à medida da espessura das suas “crenças europeias”; trata-se muito simplesmente, de se proteger , através de um proteccionismo defensivo, da agressão económica que nos  inflige   o proteccionismo ofensivo da China que assenta  sobre uma taxa de câmbio manipulada.

 

Seria portanto necessário  contratar, de novo, funcionários de Alfãndega  que são colocados nas  fronteiras da Europa e com a função  de  taxar pesadamente os produtos provenientes da China (em derrogação dos compromissos irresponsáveis tomados no âmbito da OMC). Pode-se acrescentar a esta função  uma  missão que seria atribuída ao BCE tanto quanto o euro existe  : fazer descer  o valor do  euro contra  as  principais moedas convertíveis (o que fá-lo-ia também reduzir de valor  contra o yuan) a fim de melhorar a competitividade dos países da União.

 

É unicamente através de  uma política “realista” de restabelecimento do comércio externo que os diferentes países da União poderão  resolver os seus problemas de finanças públicas e reencontrar, por fim,  um crescimento são e robusto. Os países da União serão então, de novo, um ponto de apoio essencial para o crescimento económico dos países do Sul e do leste do Mar Mediterrâneo, transformando-se assim  a Europa para estes países numa verdadeira esperança.

                                             


[1] Estamos aqui num esquema à americana, com os Estados a virem em socorro dos credores detentores de má dívidas, como o Estado americano socorreu os bancos e as “agências”.

 

[2] Devemos sublinhar que mesmo que se perdoasse completamente as dívidas da Grécia,de  Portugal ou da Espanha, uma tal operação não tornaria, por si mesma, os países mais competitivos. Estes continuariam a  terem défices externos muito volumosos o que acabaria necessariamente por levar à reconsrituição do endividamento público. 

[3]  O desequilíbrio actual do comércio mundial é, no essencial, o resultado  do “proteccionismo  cambial”  da China: é um facto, o mundo actual vive nio proteccionismo, o da China! O problema para o mundo é pois o de se proteger dos efeitos nefastos deste proteccionismo.

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