(Conclusão)
d) O Euro pode sobreviver?
Trata-se de uma pergunta que é “politicamente pouco correcta” dado que vai contra os dogmas repetidos religiosamente nas instâncias europeias: o euro vai bem, sem ele a situação seria bem pior , é necessário por conseguinte defendê-lo, mantê-lo!
É ainda necessário guardá-lo bem também porque 2012 é um ano importante nos calendários eleitorais de vários países: é necessário por conseguinte que os dirigentes políticos se apresentem de novo ao eleitorado sem estarem a carregar com um notório falhanço político, o falhanço evidente do euro. Inventa‑se pois o que se pode fazer passar por ser uma solução mas que na verdade não é nenhuma solução : a solidariedade financeira Europeia no que diz respeito à Europa do Sul. Por outras palavras, o esquema proposto estaria que os elos supostos “fortes” da zona euro (a Alemanha, a França, a Holanda) propõem uma assistência financeira, que poderia apenas prolongar-se aos elos mais fracos e reconhecidos como tal que são a Grécia, Portugal, a Irlanda, a Espanha. Neste esquema, cuja aplicação visaria preservar os credores da reestruturação das dívidas [1] e a salvaguardar além disso a UEM, os países em dificuldade são transformados em países assistidos, condenados à mendigar anualmente [2] o montante que os elos “fortes” lhes queiram atribuir .
É necessário sublinhar que tal dispositivo não poderá certamente durar muito tempo: os Estados europeus credores têm eles mesmos dificuldades; o apoio renovado aos elos fracos viria inconvenientemente sobrecarregar e de modo bem pesado as suas próprias finanças públicas, obrigando-os, por seu lado, a endividarem-se também eles ainda um pouco mais no que diz respeito a credores estrangeiros (nomeadamente à China); não será difícil acreditar que os eleitores dos países contribuintes reprovariam fortemente os governos que se lançariam de modo douradoiro em tais políticas como o mostram já as eleições recentes nos Países Baixos, na Finlândia, na Alemanha.
A UEM, que foi constituída com base em países extremamente diferentes uns dos outros e sem união política destes, aparece como um conjunto de países ainda adiado, enquanto conjunto , devido aos desequilíbrios comerciais enormes que existentes no seu seio, reflexos desta heterogeneidade de base.
e) Um pouco de esperança: para a União Europeia e para o seu ambiente do Mediterrâneo .
O fim do euro não seria necessariamente o fim da União Europeia: seria simplesmente necessário que os seus dirigentes tenham em conta o que é possível e o que não o é. Seria necessário sobretudo que retomem o que constituiu “os fundamentais” da Europa do Tratado de Roma: livre circulação interna, protecção – mas sim, PROTECÇÃO! – face ao exterior… Uma vez mais, não se trata “de regressar ao proteccionismo” [3]como o pretendem os cínicos defensores da OMC, pessoas que têm bem frequentemente uma cultura, muito singular em economia, de muito fraca espessura e que está à medida da espessura das suas “crenças europeias”; trata-se muito simplesmente, de se proteger , através de um proteccionismo defensivo, da agressão económica que nos inflige o proteccionismo ofensivo da China que assenta sobre uma taxa de câmbio manipulada.
Seria portanto necessário contratar, de novo, funcionários de Alfãndega que são colocados nas fronteiras da Europa e com a função de taxar pesadamente os produtos provenientes da China (em derrogação dos compromissos irresponsáveis tomados no âmbito da OMC). Pode-se acrescentar a esta função uma missão que seria atribuída ao BCE tanto quanto o euro existe : fazer descer o valor do euro contra as principais moedas convertíveis (o que fá-lo-ia também reduzir de valor contra o yuan) a fim de melhorar a competitividade dos países da União.
É unicamente através de uma política “realista” de restabelecimento do comércio externo que os diferentes países da União poderão resolver os seus problemas de finanças públicas e reencontrar, por fim, um crescimento são e robusto. Os países da União serão então, de novo, um ponto de apoio essencial para o crescimento económico dos países do Sul e do leste do Mar Mediterrâneo, transformando-se assim a Europa para estes países numa verdadeira esperança.
[1] Estamos aqui num esquema à americana, com os Estados a virem em socorro dos credores detentores de má dívidas, como o Estado americano socorreu os bancos e as “agências”.
[2] Devemos sublinhar que mesmo que se perdoasse completamente as dívidas da Grécia,de Portugal ou da Espanha, uma tal operação não tornaria, por si mesma, os países mais competitivos. Estes continuariam a terem défices externos muito volumosos o que acabaria necessariamente por levar à reconsrituição do endividamento público.
[3] O desequilíbrio actual do comércio mundial é, no essencial, o resultado do “proteccionismo cambial” da China: é um facto, o mundo actual vive nio proteccionismo, o da China! O problema para o mundo é pois o de se proteger dos efeitos nefastos deste proteccionismo.
