Como evitar uma longa letargia da economia? por Joseph Stiglitz, prémio Nobel da Economia, 2001. Selecção e tradução de Júlio Marques Mota.

 

Neste dilúvio de más notícias sobre a economia, o único pensamento reconfortante é o de que poderia ter sido bem pior: o conjunto das três agências de rating podiam ter degradado as notações dos Estados Unidos, os mercados de acções poderiam ter caído ainda mais baixo e os Estados Unidos poderiam ter declarado incumprimento sobre a sua dívida soberana.


A opinião geral é a que agora, neste novo episódio da Grande Recessão, há um alto risco de que as coisas se tornem piores, sem que os governos disponham de nenhuma ferramenta eficaz. O primeiro ponto é correcto, mas o segundo não é completamente verdade.


Durante a crise – e até antes – os economistas keynesianos tinham avançado uma interpretação coerente dos eventos. Antes da crise, a América e, em grande parte a economia global também, estava apoiada numa bolha. A explosão da bolha deixou um excedente de dívida e de bens imóveis. O consumo permanecerá baixo e, em ambos os lados do Atlântico, a austeridade garante que o Estado não vai preencher este vazio na procura agregada. Não é de surpreender que nestas circunstâncias as empresas – mesmo aquelas com acesso aos mercados de capitais – estejam relutantes em investir.


É claro que aqueles que estão preocupados com a falta de instrumentos de política estão parcialmente correctos. A má política monetária que nos tem mergulhado na confusão actual não está em posição de nos tirar desta situação de crise. Mesmo se conseguirmos acalmar os falcões da inflação do Federal Reserve (FED), um terceiro episódio de flexibilização quantitativa, um terceiro plano de quantitative easing, seria ainda menos eficaz do que o anterior. Este, provavelmente, ajudou a criar mais bolhas nos mercados emergentes, sem relançar nem os empréstimos nem os investimentos nos próprios Estados Unidos.


O anúncio feito pelo FED segundo o qual este vai manter a sua taxa directora a um nível próximo de zero nos próximos dois anos mostra claramente o seu desespero diante das dificuldades económicas. Mas, mesmo se esta medida conseguisse travar, pelo menos temporariamente, a queda nos preços das acções ela não lançaria as bases para a recuperação da economia: não são as altas taxas de juro que impedem a economia de arrancar.


As grandes empresas estão mesmo com muita liquidez, mas os bancos não concedem empréstimos às pequenas e médias empresas que, em qualquer economia, são a fonte da criação de emprego. O FED e o Tesouro falharam lamentavelmente em revigorar este tipo de empréstimos – que seriam, pelo seu lado, bem mais eficazes em restaurar o crescimento que a manutenção das baixas taxas de juro até 2015!


No entanto, a verdadeira resposta, pelo menos em relação aos países que, como os Estados Unidos, podem contrair empréstimos nos mercados de capitais a taxas baixas é muito simples: usar o dinheiro para fazer investimentos com alto rendimento. Isto simultaneamente estimularia o crescimento e geraria receitas fiscais, fazendo assim baixar o ratio da dívida relativamente ao PIB e melhorar assim a durabilidade da dívida.


Mesmo com a situação orçamental que conhecemos, redirecionar as despesas e os impostos para o crescimento – reduzindo os impostos sobre os salários e aumentando os impostos sobre os mais ricos, mas também reduzindo os impostos para as empresas que investem e aumentando-os para aquelas empresas que não investem – permitiria melhorar a sustentabilidade da dívida.


As políticas actuais, no entanto, recusam-se a considerar estas soluções. Os mercados sabem que a onda de baixa tributação e do fetichismo da dívida que está a atravessar todo o Atlântico Norte significa que não há nenhum instrumento disponível: a política monetária não irá funcionar, a política orçamental é limitada, o crescimento será mais lento e a melhoraria dos défices (resultante da austeridade) é decepcionante.


Mas, como mostra a degradação anunciada pela Standard & Poors (S&P), os mercados também têm também a sua agenda política. Nenhum economista seria simplesmente capaz de considerar num balanço apenas uma só das suas colunas, a coluna a débito. E contudo é o que faz a S&P. Ainda mais revelador é o facto de que os Estados Unidos liquidam as suas dívidas em dólares, e são eles que controlam a máquina de impressão de notas, de dólares. Não há risco de incumprimento, excepto na espécie de pantomima política com que a S&P acaba de nos presentear.


Os mercados estão muitas vezes errados mas os resultados das agências de notação não inspiram confiança – estes últimos não podem justificar em qualquer caso, certamente que não, que a opinião convergente de milhões de pessoas seja substituída pela opinião de um punhado de “técnicos” a trabalharem para uma empresa, cuja governança e motivações são problemáticas. Os dirigentes europeus estavam correctos ao pedir recentemente que se passe a atribuir agora menos valor às notas dessas agências.


Europa e América estão agora a confrontarem-se com dificuldades políticas excepcionais. Difícil é dizer qual das situações é pior: se a paralisia da América ou se a estrutura política instável da Europa. Os dirigentes europeus deram passos decisivos, mas os acontecimentos vão mais rápido do que a sua ratificação e a sua aplicação.


Na Europa, o ratio da dívida em relação ao PIB é mais baixo que nos Estados Unidos; se ela dispusesse igualmente de um quadro orçamental comum adequado, então a Europa estaria em melhor posição que os Estados Unidos.


O outro problema da Europa é que muitas pessoas neste continente pensam que a austeridade fiscal é a resposta certa. Lembremo-nos, no entanto, que antes da crise, a Espanha e a Irlanda registavam um excedente e uma relação dívida/PIB baixa. Aumentar a austeridade só pode ter como resultado o desacelerar do crescimento da Europa e o aumentar dos seus problemas orçamentais.


Os responsáveis europeus reconheceram recentemente que a Grécia e outros países atingidos pela crise tinham necessidade de crescimento – o que a austeridade não lhes trazia.


Tudo isto aumenta a probabilidade de, no Atlântico Norte, se passar a sofrer uma dupla recessão, uma recessão em forma de W, mas não há nada de mágico também com que o número seja zero. A taxa crítica de crescimento é aquela a partir da qual o défice de emprego deixa de estar a aumentar. O problema é que a actual taxa de crescimento da Europa e América, que é cerca de 1%, representa menos de metade do que seria necessário para aí chegar, para atingir esse valor crítico.


Desde o início da recessão, temos ouvido muitas boas palavras sobre o facto de que tínhamos aprendido bem com a Grande Depressão e com a longa letargia japonesa. Agora sabemos que não se aprendeu mesmo nada. O plano de relançamento dos EUA foi muito pequeno, muito curto e mal concebido.


Não se exigiu dos bancos que concedessem novamente empréstimos. Os nossos dirigentes políticos têm tentado encobrir as fraquezas da economia – talvez temendo que falar dela francamente pode destruir totalmente uma confiança já frágil. Mas agora a aposta está perdida.


Agora que o problema apareceu em plena luz, uma nova certeza emergiu: a certeza de que, independentemente das medidas tomadas, as coisas vão piorar. A letargia prolongada está a emergir como o cenário optimista.


Traduzido de Joseph Stiglitz, “Comment éviter une longue léthargie de l’économie?”, Le Monde, 16 de Agosto de 2011.

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