Oportunidade perdida? – Joaquim Magalhães dos Santos

 

(Texto escrito em 19 de Abril de 2011)

 

Não sei – infelizmente, muito infelizmente! – onde guardei, se é que o guardei… – um magnífico emílio em que se anunciava que este ano ia ser um ano… e peras!

 

Não um ano de revolução! As revoluções dão uma volta e voltam ao ponto de partida. Não adiantam nem atrasam! Ou adiantam para os que sempre estiveram adiantados no bem-estar, e atrasam para os que sempre estiveram atrasados no mal-estar.

 

Mas um ano de transformação! Transformação sensível! De que daremos conta! Que vai sacrificar coisas e gente, talvez fazer sangue, ou no sentido real ou em linguagem figurada.

 

Muitos são os sintomas de que tal está aí a chegar.

 

Há, em Portugal, alguns movimentos que prenunciam uma alteração profunda na Sociedade. Aquela coisa da Geração à Rasca, por exemplo. Não parece que tenham um denominador político comum. Político no sentido de partidário. Não devem faltar partidos que queiram capitalizar o seu descontentamento, que queiram dizer “se Vós quereis transformar a sociedade, juntai-vos a nós, inscrevei-vos nas nossas fileiras. Servi os nossos interesses e nós serviremos os vossos interesses!”

 

Oxalá a Geração à Rasca não ouça esse canto da sereia! Se não… vira o disco e toca o mesmo! Cuidado também com os que, dentro desse movimento, manifestem (mais escancaradamente ou mais discretamente) vontade mórbida de chegar ao topo, de comandar, de chefiar! “Quem quer mandar raras vezes manda bem!”

 

Pra desgosto e desilusão, bem basta o que me (-nos) foi proporcionado pelo Dr. Fernando Nobre! Até pelo gargalhar cínico dos porcos politiqueiros, a fazerem pouco da nossa ingenuidade… Imperdoável! Quinhentos e muitos mil que votaram nele – eu fui um desses -, a acreditarmos que ia chegar a limpeza, a frescura, a regeneração… e vai-se a ver… “Ou sou eleito presidente da Assembleia dos Carrapatos… ou não brinco aos deputados” Ora… Bolas” para não dizer, educadamente mas insuficientemente, caca!

 

Várias partes do Mundo dão sinais de descontentamento! O Norte de África, países árabes, Venezuela…

 

Só uma ressalva: Será que nos países árabes – Egito, Tunísia, Líbia, um dia (próximo ou cada vez menos longínquo) a Argélia, os países petrolíferos, a China (ai, quando o povo chinês acordar!) – será que nos países árabes, o poder sai das mãos em que esteve para passar para as mãos dos fundamentalistas islâmicos? De talibãs? De beatos muçulmanos? De gente que quer o recuo ao século VII, quando as tropas do profeta Maomé andaram a islamizar o mundo? Não viremos a ter saudades de Mubaraks & Cia.?

 

Será que o Mundo vai desperdiçar esta oportunidade de ser povoado por gente? Gente merecedora desse nome? Não por cães e gatos, não por ovelhas e lobos! Não por vigarizados e vigaristas! Não por vigarizados que só lamentam não terem as artes dos vigaristas! Porque não se lamentam de terem sido vigarizados, têm é pena de não saberem o suficiente para irem logo-loguinho vigarizar o vizinho, o evangélico “próximo”

 

O clima parece estar bom para alterar o (mau) estado a que as coisas há muito tempo chegaram. Vamos aproveitar a oportunidade? Vamos deitar-lhe a mão e não a largar?

 

Em velhos ou em jovens – como fazermos o teste da honestidade, do desapego, da competência?

 

O Escritor Ferreira de Castro viveu toda uma vida na esperança de uma alteração na vida do seu país. Solidário como era, certamente também na vida do Mundo. Ainda viu o 25 de Abril de 1974 (o único digno da minha saudade). Morreu em 29 de Junho desse ano. Tinha setenta e seis anos, ainda não tinha chegado, aos que se entusiasmaram com a (só aparente) reviravolta, a grande desilusão, a grande frustração, o grande nojo. Ainda a “democracia” era uma palavra recheada de Esperança, e não o vómito em que a transformaram. Ferreira de Castro ainda morreu na Esperança.

 

Eu estou – no dia em que escrevo estas linhas – com setenta e sete anos.

Poderão restar-me uns quantos dias, alguns meses, poucos, muito poucos anos de vida.

 

Vou morrer no desespero?

 

 

 

Joaquim José Magalhães dos Santos é natural de Vila Real (Trás-os-Montes), onde nasceu em 1933.

 

Casado, pai de três Filhos, avô de três netas.

 

Tem o Curso de Filologia das Línguas Românicas pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

 

Foi, de 1958 a 1964,  professor do Ensino Secundário de Português e de Francês.

 

De 1964 a 1993 foi empregado de escritório em grande empresa metalúrgica em S. João da Madeira (Aveiro). Terminou como chefe de serviço.

 

Tem vários livros publicados, entre os quais FALAR DE PALAVRASeditado pela Lello, em que reuniu artigos da rubrica semanal homónima que assinou durante perto de vinte anos no Jornal de Notícias -, COISAS DE/DO PORTUGUÊS, PRETEXTO (PROTESTO) + CONTEXTO (CONTESTO) = TEXTO /TESTO), SOBRE A AMIZADE, DIA DA MÃE.

 

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