Hoje falei com o Sérgio Godinho – por Manuela Degerine

(Publicado no Estrolabio em 23-10-2010)

 

Não pertenci à categoria de adolescentes que cobria as paredes do quarto com imagens dos ídolos. Eu naquela época escrevia poemas-de-álvaro-de-campos ao quilómetro e à compita com a Ana Rodrigues; uma amiga. Reuníamo-nos para ler uma à outra as respectivas obras que achávamos quase tão geniais como as do Poeta. (Anos mais tarde, os textos pareceram-me insuportáveis e, talvez por revelarem, de maneira ingénua e sincera, facetas que preferia ignorar, deitei-os no lixo – o que agora lamento.)

 

Naquele tempo tão distante que sinto tentações de empregar o latim, in illo tempore cheguei a ter na mão uma fotografia de Fernando Pessoa porém, em vez de a pregar na madeira da estante, o primeiro impulso – arrumei-a numa gaveta. É que, então, para mim, o poeta futurista não se podia confundir com aquele bisavô de chapéu. O Álvaro de Campos continuava a ter constipações e dúvidas metafísicas, era meu contemporâneo e, compreendo agora, por me falar de mim, não podia ter rosto.

 

Descobri na mesma época as canções de Sérgio Godinho. Perguntará o leitor: qual a relação?… Pois: tal como o Álvaro de Campos, o Sérgio Godinho emprestou-me palavras para a conquista de mim. As suas canções dizem a poesia, a revolta, o amor, a liberdade… Traçam um percurso que, não raras vezes, se cruzou com o meu.

 

Ouvir uma canção, ler um poema ou um romance, é entrar em colisão com a singularidade de um autor, por isso todos vivemos grandes paixões com os nossos autores preferidos. Durante a adolescência o meu coração balançou muito entre o Álvaro de Campos e o Sérgio Godinho; comparados com eles, os colegas do liceu diziam-me frases bem triviais…

 

Cresci. Não tanto como pode parecer; mas passei a distinguir a poesia da interacção com os outros. Alguns rapazes começaram a aguentar o peso as comparações, aprendi que ninguém, nem o Álvaro de Campos, poeta futurista e tudo, detém o monopólio do génio, vi-me a aprender o peso ou o sentido da vida, por vezes, nas revelações de homens e mulheres iletrados.

 

Fui viver para França, os anos sucederam-se; continuei a ouvir o Sérgio Godinho. Nunca assisti a espectáculos pois, sempre que havia algum, não me encontrava em Lisboa. Até que, no princípio do mês de Junho de 2010, um dia, estava a lavar a loiça – e, quando estou na cozinha, costumo ouvir rádio. De súbito entrevistam a Inês Pedrosa, oiço-a expor o programa comemorativo do nascimento de Fernando Pessoa, 10 de Junho; e anunciar um espectáculo de Sérgio Godinho.

 

Vim, claro. Encontro-me de pé. Desligaram a iluminação na rua Coelho da Rocha e produzem os habituais cenários de luz colorida. Aos quais se juntam aqui, de vez em quando, os pássaros luminosos que, com luzes azuis e vermelhas, piscam acima do palco antes de se poisarem nas pistas do aeroporto. Nunca mais fixarei os aviões com o olhar de antigamente… Depois de me dar palavras de força e rebeldia, o cantor oferece-me esta beleza escondida no quotidiano. (A realidade é o modo como olhamos para a realidade; e um artista verdadeiro, pintor, escritor, cantor, revela-nos de maneira nova o que já pensávamos conhecer.)

 

Os outros espectadores cantam as canções com Sérgio Godinho. Eu sinto-me demasiado comovida para poder cantar. Se cantar, chorarei – e será ridículo. Tenho os olhos e as orelhas do tamanho dos pássaros que voam por cima do palco. Para além do autor e intérprete que conheço, este cantor tem 40 anos de profissionalismo e de cumplicidade com o público: é na verdade um grande espectáculo.

 

Nunca desejei aproximar-me das pessoas que os cantores ou autores também são. Aliás o encontro casual com alguns tem-me confirmado o que sei: põem o melhor de si no trabalho publicado. E, como vivemos numa sociedade que difunde – às vezes – estas obras, se as encontro, compro-as, leio-as, oiço-as… Não preciso de mais nada. No tempo em que ainda ia à praia, isto é, há muitos anos, estive numa a poucos metros de distância de Sérgio Godinho; evidentemente: não o importunei com a minha admiração.

 

E hoje… Eu saía do MNAA e tinha ido buscar a bicicleta que, enquanto eu participava numa visita guiada das tapeçarias de Pastrana, ficara presa a um poste, por o museu não dispor de espaço ad hoc, depois subi a pé a Rua das Janelas Verdes para voltar à ciclovia na beira do Tejo. Vi chegar em sentido contrário dois peões que, naquela rua, costumam ser turistas; e, como é natural, por ocupar muito espaço com a bicicleta ao meu lado, quando passavam por mim, colei-me à parede:

 

 – Faz favor…

 

– Deixe estar!

 

Era o Sérgio Godinho.

 

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Manuela Degerine nasceu em Lisboa, licenciou-se em Filologia Românica na Universidade Clássica deLisboa. Foi professora em Queluz e em Macau; actualmente ensina português num liceu de Paris. A sua obra literária consiste quase exclusivamente na criação ficcional, tendo merecido, por parte da críitica literária, um excelente acolhimento.

 

Os romances por ela publicados são: A curva do O , Lisboa, 1991, Jardins de Queluz, Lisboa, 1994; A Dúvida e o Riso, Lisboa, Uma Gota de Orvalho, Lisboa, Difel, O Peixe Sol, Lisboa, 2002.

 

 

 

 

 

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