OS HOMENS DO REI – por José Brandão – 4

Gonçalo Mendes da Maia – O Lidador (1075? -1170)

 

Conhecido como O Lidador, Gonçalo Mendes da Maia era filho de Mendo Soares e de Leodegunda Soares e irmão de Soeiro e D. Paio Mendes. Nascido por volta de 1075 foi uma verdadeira lenda viva de dedicação à pátria. A sua bravura e carácter forjaram grande afinidade espiritual com D. Afonso Henriques. Juntos, lutaram para formar um reino independente. Primeiro contra a mãe de D. Afonso Henriques, D. Teresa, próxima dos castelhanos, depois contra hegemonias religiosas, depois ainda contra os infiéis, ao sul do País. Braço-direito de D. Afonso Henriques na sua caminhada pela independência do Condado Portucalense, Gonçalo Mendes da Maia foi sempre um dos mais destacados guerreiros do exército afonsino. Foi alcunhado como O Lidador, tamanha a valentia e bravura que colocava nos seus combates com as tropas árabes.

 

Ficará para sempre na História de Portugal devido ao episódio em que, já nonagenário, enfrentou por duas vezes os mouros. Gonçalo Mendes da Maia foi o herói entre todos os heróis, passou a sua vida em lides constantes sempre como vencedor, nunca como vencido. Sendo fronteiro em Beja fazia razias frequentes em terras mouramas, ficando sempre vitorioso por mais desiguais que fossem as forças, acontecendo muitas vezes atacar e vencer tropas mouriscas dez vezes superiores em número aos efectivos portugueses. Em 4 de Abril de 1170 defrontou-se perto de Beja com o rei mouro Almoleimar, que tinha fama de ficar sempre vencedor em todos os combates. Os dois exércitos lutaram em afincada e difícil batalha, que durou muitas horas, até que a vitória se declarou pelos portugueses, ficando mortos em campo muitos mouros e entre eles o famoso rei, circunstância que enalteceu ainda mais a glória do vencedor.

 

O Lidador tem 95 anos de idade e 80 de luta. Ele e um pequeno grupo de cavaleiros lutam contra os mouros e ele é ferido. Em nova batalha contra os mouros, que receberam reforços, ele mata um dos líderes e morre; quando um dos cavaleiros mata o líder dos reforços, os mouros fogem. No mesmo agoirento dia, o célebre Lidador teve ainda de enfrentar as hostes do rei de Tânger, que ali acorreram em socorro de Almoleimar, quando soube dos apuros em que aquele se encontrava. O nosso famoso guerreiro, apesar de ferido, com a idade de 95 anos, teve ainda a coragem, vigor e ousadia para com eles pelejar. O destemido e corajoso Lidador, mais uma vez saiu vitorioso; porém, as inúmeras feridas que lhe cobriam o corpo, conduziram-no ao desfecho fatal, tendo sucumbido em pleno campo de batalha, morrendo como sempre vivera, lutando com afinco e tenacidade.

 

Exagero ou não, a morte do Lidador ficou como uma lenda viva de dedicação à pátria, sendo o episódio narrado e imortalizado por Alexandre Herculano. Nesse conto Alexandre Herculano desafia a verosimilhança: quase 1000 soldados mouros fogem de alquebrados 70 portugueses apenas porque seu líder morreu. Alexandre Herculano na sua obra Lendas e Narrativas, baseado no Nobiliárquico de D. Pedro (fonte algo falaciosa), no episódio intitulado: “ A morte do Lidador”, num estilo vivo e dilacerante, que lhe é tão peculiar, cheio de grandiosidade, com factores surrealistas, numa mistura de narrativa histórica e lenda, faz-nos um belíssimo relato dessa sangrenta batalha, e a determinado passo escreve: «Semelhante ao vento de Deus, Gonçalo Mendes da Maia passou por entre os cristãos e mouros: os dois contendores viram-se, e, como leão e o tigre, correram um para o outro. As espadas reluziram no ar; mas o golpe do Lidador era simulado, e o ferro, mudando de movimento no ar, foi bater de ponta no gorjal de Almoleimar, que cedeu à violenta estocada; e o sangue, saindo às golfadas, cortou a última maldição do agareno».

 

(A seguir: D. João Peculiar)

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