OPINIÃO DE SAINT-EXUPÉRY SOBRE LISBOA (Saint-Exupéry- Carta a um Refém) – por Clara Castilho

 

A primeira vez que ouvi falar da passagem de Saint-Exupéry por Lisboa foi a José Jorge Letria. Autor que publicou um livro “António e o Principezinho” onde lhe presta homenagem, dedicando-o aos amigos da sua idade e de todas as idades, que foram capazes de sonhar com o Principezinho.

 

 Anos depois, leituras passadas, encontrei esta passagem:

 

“Quando em Dezembro de 1940 atravessei Portugal para ir aos Estados Unidos, Lisboa surgiu-me como uma espécie de paraíso claro e triste. Falava-se então muito de invasão iminente e Portugal agarrava-se à ilusão da sua felicidade.

 

Lisboa, que organizara a mais bela exposição do mundo, sorria com um sorriso um tanto pálido, como o das mães que não têm quaisquer notícias do filho ausente na guerra e se esforçam por salvá-lo a poder ter confiança: «O meu filho continua vivo porque eu sorrio…» «Vejam como estou feliz», dizia assim Lisboa: «Como estou feliz, tranquila e bem iluminada…» O continente inteiro pesava contra Portugal como se fosse uma montanha selvagem, carregada de tribos predatórias; Lisboa em festa desafiava a Europa: «Haverá alguém capaz de me tomar por alvo se nem tento esconder-me? Se sou tão vulnerável!…

 

À noite as cidades da minha terra eram cor de cinza. Nelas eu perdera o hábito de toda a claridade e esta capital radiosa causava-me um incómodo vago. Se é escura a vizinhança, os diamantes da montra muito iluminada atraem os que ali vagueiam. Sentimo-los circular. Contra Lisboa sentia eu pesar a noite da Europa habitada por grupos errantes de bombardeiros, como se ao longe tivessem farejado aquele tesouro”.

 

Outros também foram sensíveis a esta cidade. Também Alain Tanner eternizou a luz de Lisboa em “Dans la ville blanche” (1983), o que em muito se deve ao trabalho do português Acácio de Almeida, director de fotografia nesse filme. E em “Lisbon Story” (1994), Wim Wenders se lançou numa busca dos sons de Lisboa, cruzando-se com os Madredeus e com o realizador Manoel de Oliveira.

 

E nós, sabemos apreciá-la?

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