Os motins de Londres e o Triunfo do Neoliberalismo, por Branko Milanovic. Selecção e tradução de Júlio Marques Mota.

17 de Agosto de 2011

 

Para entender os distúrbios da semana passada na Inglaterra, temos que os colocar no seu contexto mais amplo. O contexto geográfico inclui os protestos que os jovens têm levado à prática em França, Grécia, Espanha, Portugal, Israel e, mais recentemente, no Chile. Os tumultos na Inglaterra são apenas o exemplo mais recente.


Para um outro contexto em sentido mais amplo, devemos ter em conta o sucesso inegável das reformas pro-mercado introduzidas durante os anos Thatcher-Reagan, e “subscritas” por economistas como Milton Friedman e Friedrich Hayek. A revolução do mercado passou por quase 30 anos de sucesso ininterrupto da ideologia neoliberal (1980 a 2008 pelo menos), dominando a formulação de políticas e dominando o discurso público e conquistando o apoio de uma grande parte do público, primeiro nos Estados Unidos e Europa, e depois de forma cada vez mais acentuada na China , Rússia, Índia e no resto do mundo. Foi uma revolução realizada através de duas vias: a privatização da maioria das funções que anteriormente pertenciam ao Estado e a promoção de uma visão do mundo, segundo a qual o sucesso económico é considerado como revelador do valor moral intrínseco. Os fracassos, os insucessos, passaram a ser vistos com resultado de um baixo mérito pessoal. Somente a última crise financeira abalou a confiança até intocável das elites neo-liberais.


Os protestos, certamente diferem nas suas particularidades, mas violentos ou não violentos, liderados por uma “minoria excluída” ou não, cada uma das manifestações tinha claras causas directas: aumento das propinas, rendas altas, altas taxas de desemprego — causas que eles claramente podiam amplamente assumir como sendo a marca do mal-estar geral dos jovens. Porque a bem-sucedida revolução neoliberal de alguma forma falhou em não conseguir colocá-los do seu lado — aqueles que, pela sua continuação, lhe seriam os mais importantes.


Como é que isto aconteceu? A causa tem como base a desigualdade de rendimentos e da riqueza que as reformas neoliberais geraram, combinada com a ênfase ideológica incessante do sucesso material e do consumo como os principais objectivos a alcançar na vida. Enquanto isso o matraquear da ideologia é, talvez, indispensável para estimular o consumo e o crescimento, mas os seus efeitos sobre aqueles que não podem pagar todos os luxos que lhes fizeram desejar podem ser considerado doentio. De facto, os jovens também “compram” a ideologia de que a riqueza é igual a superioridade ética, mas estes encontraram-se no lado errado desta equação. As vias e os locais que os poderiam levar a alcançar a riqueza, esses, estavam-lhes fechados — pelo aumento da taxa de desemprego, pelos cortes nos serviços sociais, pelos custos mais elevados no ensino, pelas rendas de casa elevadas e pela não menos importante corrupção e imoralidade das elites e bem à vista de toda a gente.


Edward Gibbon, o historiador bem conhecido pela sua obra Rise and Fall of the Roman Empire, escreveu sobre os soldados “enervados”, quando confrontados com muitos luxos da vida corrente e comum dos políticos. Da mesma forma, para os jovens de hoje, cujas possibilidades de sucesso foram decaindo, a riqueza da civilização de consumo à sua volta também ela esteve a gerar-lhes este “enervamento”. Os jovens reagiram como os soldados romanos. O que eles sabiam que não poderiam obter por meios normais, decidiram obtê-los por meios extraordinários.


Dois factores fizeram piorar a situação dos jovens, seja na Puerta del Sol em Madrid ou em Tottenham, em Londres. Em primeiro lugar o seu desespero pelo facto de reconhecerem que o trabalho duro e a ambição não são suficientes para as conseguir obter, não são suficientes para obter todas as coisas boas que as gerações mais velhas ou que aqueles que nasceram com mais sorte podem desfrutar. Eles vêem as economias assentes no Estado Providência a desaparecerem enquanto os políticos, os empresários e as estrelas da música, cinicamente a apropriarem-se das riquezas da sociedade. Em segundo lugar, eles não têm um projecto social alternativo. Se eles realmente acreditassem que um outro mundo é possível, organizar-se-iam em grupos políticos, não em histerias colectivas. Mas eles não acreditam, e, aparentemente, também hoje em dia ninguém acredita. Após dois meses de protestos, o movimento M-15 na Espanha só com muita dificuldade conseguiu chegar a uma lista tímida e impraticável de uma dúzia de propostas de mudança na vida económica e política. Aqui está um exemplo de uma verdadeira falta de imaginação.


A vitória da revolução económica neo-liberal foi completa: quase todos aceitaram o seu sistema de valores (e também aqueles que se revoltaram em Londres na semana passada). Nesse sentido, produziu-se, como alguém profetizou, o “fim da história”: a percepção de que esta é a melhor política e o melhor sistema económico que a humanidade criou, e que nada melhor existe para além do horizonte.


O problema é que a revolução neoliberal não foi capaz de explicar o que fazer com aqueles que não prosperam no novo sistema e ainda adoptam os seus valores. Os homens e mulheres jovens que roubaram nas lojas não são, como alguns acreditam, um exemplo do fracasso das reformas de mercado liberal. Pelo contrário, eles exemplificam o sucesso esmagador das reformas neoliberais. Mas, infelizmente, os manifestantes também revelam, afinal, o “calcanhar de Aquiles” das reformas neoliberais: pessoas que, como os manifestantes espanhóis o declaram, se consideram sem futuro, sem a ideia de possibilidade de um mundo novo e melhor e ainda sem medo, também.

O desafio — se o quisermos aceitar — é procurar compreender e modificar esta realidade e será o de descobrirmos uma forma de envolver uma geração que parece não querer ser envolvida nesse processo. Ideias, são bem-vindas.

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