As regras do jogo – por Carlos Loures

 

Em todas as esquinas da cidade

nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos

nas janelas dos autocarros

mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos

de rádio e detergentes…

 

 

É assim que começa «A Invenção do Amor», o belo poema de Daniel Filipe. E bem necessário seria que um anúncio solicitando uma verdadeira Esquerda fosse publicado “com carácter de urgência” em todos os jornais, gritado pela rádio, mostrado na televisão e invadisse a blogosfera.

 

Existem muitos milhares de cidadãos de esquerda que não se revêem em qualquer das organizações, existentes,que sentem cercados pela direita e alimentam a esperança de que um dia surja uma esquerda autêntica. Mas então não existem numerosos movimentos de esquerda, dentro e fora do Parlamento? Depende de como definimos o conceito de esquerda. Os partidos da esquerda parlamentar, embora as suas bases programáticas estejam preenchidas com respeitáveis princípios, logo que envolvidos nas questões práticas, depressa esquecem ou ultrapassam esses princípios em nome de um pragmatismo que visa objectivos de curto prazo. Objectivos de curto prazo que são o derrube do governo, o do PS ou o do PSD.

 

O clone do bloco central que está na oposição faz a sua guerra suja – desenterra ou inventa escândalos que envolvem o partido governamental. São as regras do «jogo democrático» Compreende-se a urgência de derrubar governos para uns e de conservar o poder para o outros. Em todo o caso é ridículo que militantes e sindicalistas que ajudam à queda de um governo, no dia em que o novo governo toma posse, começam a atacá-lo com os mesmos argumentos que usavam para o antecessor. Um trabalho de Sísifo. E ainda custa mais a compreender que haja acordos, explícitos ou tácitos, com partidos do tal bloco central para manter ou derrubar o governo.

 

Onde ficam então os tais bonitos princípios anunciados? Teoria e praxis têm de estar em consonância, sem o que ambas perdem a razão de ser. Dos partidos e movimentos da esquerda extra parlamentar dir-se-ia que, na sua maioria, são reminiscências do período revolucionário e ligados a doutrinários como Trotsky, Enver Hodja, Mao Tse Tung, etc.. Estão fora do contexto histórico, social e político em que vivemos. Não parece que passe por eles a saída do labirinto que nos aprisiona. Isto dito sem menosprezo pelos muitos cidadãos que honestamente militam nessas organizações.

 

Porquê? Por que motivo a prática dos partidos, marxistas ou socialistas, obedece a um pragmatismo que atropela princípios básicos daquilo que se entende por política de esquerda? Porque esses princípios muitas vezes não são compatíveis com a ânsia de obtenção de votos e constituem empecilho ao seu funcionamento. .E mais: começa para muitos a ser evidente (para outros sempre o foi) que esta esquerda faz parte integrante do sistema. De que viveriam políticos e sindicalistas de esquerda se não houvesse partidos «socialistas» e «social-democratas» a fornecer-lhe abundante matéria-prima para a sua actividade? A esquerda que temos respeita as regras do jogo.

 

Um jogo cuja regra de ouro é a de que a esquerda perde sempre.

 

Esquerda precisa-se – a que temos está boa para o Museu da Madame Tussaud.

 

Para muita gente constituirá um mistério por que motivo, pessoas como eu, com idade para ter juízo, ainda perdem tempo a lutar com moinhos de vento. Respondo-lhes, em meu nome e dos que como eu não deixam de protestar, mesmo quando, como é o caso, isso parece inútil, com palavras de um poeta, do Egito Gonçalves, nas suas «Notícias do Bloqueio»:

 

Mas diz-lhes que se mantém indevassável

o segredo das torres que nos erguem,

e suspensa delas uma flor em lume

grita o seu nome incandescente e puro.

 

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Hoje vamos ouvir o Charlatão, do Sérgio Godinho. Não que tenha muita relação com o texto…

 

 

 

 

 

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