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Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 9
(continuação)
De regresso à aldeia e por ordem do tio Bernardo de Gaia, irmão do pai, foi Aurora recolhida por uma velhota rica, senhora da bonita Casa dos Torreões, à entrada da vila. Essa senhora era tia do pai. Chamavam-lhe Tafula, e Aurora foi ensinada a chamar-lhe madrinha dali para a frente.
* Fez-me a vida negra. Corria atrás de mim quando eu lhe fugia pelos corredores dos torreões e dizia tu és vil diabo. Era. muito gorda e mexia-se mal. Quando fui à comunhão solene vestiu-me de preto. No meio das outras meninas de branco, lá ia eu com um vestido negro de mangas compridas presas no punho por um botão. Afinal, aos dez anos de idade, era órfã de pai e mãe. Foi o dia mais triste da minha vida. Foi a diferença entre o preto e o branco.
Aurora viveu nessa casa pouco tempo,do qual não se recorda com saudade.
Uma noite de Inverno, a casa fora assaltada pelos ladrões mais temidos da época. Nem a velhota nem Aurora deram por nada. De manhã, quando chegou a Guarda, os corredores dos torreões estavam cheios de milho espalhado pelo chão.
* De noite vieram apalpar o meu pescoço a ver se encontravam o cordão de oiro da velhota. Imaginem se eu acordava, tão pequenina, coitadinha de mim. Nasci só para trabalhos, só para sofrer. Ai filhinha que não tens pai nem mãe. Perdi o maior amor que pode haver, perdi-o, perdi-o ao nascer.
° Roda a cassete, roda, avozinha, roda a cassete.
O tio Bernardo, homem rico e influente, fizera-se seu tutor. Hoje confunde-o com pai, marido e até com o filho numa mistura de tempos, imagens e sentimentos.
* Um dia, ao fim de uma tarde quente de Verão, deu-me banho a madrinha, fez-me uma maleta com o pouco que tinha de meu e avisou-me de que o motorista do tio me vinha buscar para viver definitivamente em Gaia.
Mais uma viagem, desta vez sem baú.
Capítulo 10
Aurora atravessou de noite o portão imponente da Quinta dos Três Castelos e entrou na bela mansão iluminada. Tudo se assemelhava a um lindo conto de fadas. Mas Aurora chorava, chorava. Não conhecia ninguém. O estranho era grande de mais para a sua pequenez.
A tia, mulher alta e forte, não era do seu sangue. Talvez por isso a tivesse acolhido com pouco calor. Mais tarde até lhe ganhou afeição. A prima, menina delicada, muito fina, educada em Espanha, era já uma senhora.
* Só criados eram dez, uns de dentro, outros de fora. O meu tio era brusco mas generoso. A sala onde os criados comiam era muito grande. A noite havia sempre bacalhoada, igual para todos, um ora de vagens, outro ora de nabos ou couves, conforme a época. Os pratos fazia-os a minha tia. Da grande almotolia com uma torneirinha, deixava ela escorrer, a medo, o azeite que regava a bacalhoada. O meu tio ralhava-lhe e abria a torneira toda para o azeite correr com mais fartura.
Pouco a pouco começou Aurora a ambientar-se e a ganhar afeição aos tios e à prima. Fazia parte da família mais um primo, já casado com uma senhora muito distinta e rica, de Pedorido, na margem esquerda do Douro, onde vem desaguar o Arda.
* Em devido tempo, vinham lampreias do Douro com fartura, que enchiam bacias na cozinha e aí ficavam toda a noite penduradas, a escorrer sangue.
Assim encontrou ela a sua nova família. Recorda-a com tanta ternura e saudade que, de tão viva a memória, a faz saltar a todo o momento da sua mente desarranjada para a realidade, e a mistura com a de filhos e netos, o que de melhor teve na vida.
* A minha prima Laurindinha era muito bonita, alta, um bocadinho para o moreno, de cabelo negro com ondas de lado a lado. Tocava piano nas missas e eu acompanhava-a a cantar.
Vestia muito bem. A sua modista fazia uma temporada no Brasil, outra cá. Os meus vestidos eram também feitos pela mesma modista. Tão lindos! Alguns até eram bordados a cabedal e pirogravados. Claro, enquanto que para ela eram três ou quatro, para mim era só um.
(continua)


