UM CAFÉ NA INTERNET – Comunicado da Quercus – Estratégia Nacional Conservação Aves Necrófagas

Um café na Internet 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O ICNB tornou pública a intenção de aprovar a Estratégia Nacional para a Conservação das Aves Necrófagas, na qual se prevê a necessidade de controlo da natalidade do Grifo (Gyps fulvus), uma espécie quase ameaçada em Portugal que, em conjunto com outras espécies de abutres, há muito sofre com a escassez de alimento. A Quercus repudia esta opção, considerando que a mesma é despropositada e não resolve os problemas que existem. Desde 2003 que a Quercus tem vindo a alertar o ICNB para a necessidade de se tomarem medidas visando o incremento de várias espécies – e não o contrário, como é agora preconizado – para que estas voltem a nidificar em áreas que já ocuparam no passado.

 

Controlo de natalidade de grifos é uma medida desadequada

 

 

O ICNB anunciou uma medida que carece de fundamento técnico, pois a população de Grifo cresceu nas décadas de 80 e 90, com cerca de 70 casais para 492 casais na actualidade, mas estabilizou na última década. A espécie ainda não recolonizou locais onde nidificava há algumas décadas em Portugal. Mesmo em Espanha, onde a população de Grifo aumentou de forma mais significativa (conta actualmente com cerca de 25 mil casais), nunca foram implementadas medidas como as o ICNB preconiza agora. Tendo em conta que apenas pontualmente ocorrem problemas de competição pelos locais de nidificação entre o Grifo e outras espécies seriamente ameaçadas como o Abutre-preto e o Abutre-do-Egipto, a Quercus é da opinião que as medidas a aplicar se devem centrar no aumento da disponibilidade alimentar, na conservação das áreas de reprodução e de alimentação, assim como na erradicação do uso ilegal de venenos.

 

Alimentadores aguardam licenciamento há anos!

 

Para piorar a situação, existem há vários anos diversos pedidos de licenciamento de alimentadores no ICNB e na Direcção Geral de Veterinária,  de particulares e de ONGA, entre as quais a Quercus, que ficaram sem resposta, pese embora a existência de legislação Comunitária e Nacional que permite a sua instalação sob determinadas condições.


Os alimentadores de abutres são uma solução de recurso, mas essenciais, para compensar a retirada de milhares de toneladas de alimento que sempre foram depositadas nos campos, não se compreendendo a inércia do ICNB face à entrada em vigor das recentes decisões da Comissão Europeia que permitem a deposição controlada de cadáveres facilitando a criação de alimentadores, como instrumento de conservação de espécies ameaçadas. Não se compreende igualmente que a Estratégia Nacional esteja há muito elaborada e inexplicavelmente não tenha sido ainda colocada em discussão pública, apesar da legislação comunitária assim o exigir.

 

A Quercus tem vindo a insistir, ano após ano, junto do ICNB para que essa Estratégia Nacional seja publicada de forma a agilizar os processos de licenciamento de alimentadores de abutres, tanto mais que o Estado Português gasta anualmente mais de 27 milhões de euros na recolha e incineração de carcaças de animais por todo o país (ovinos, bovinos e caprinos), quando na maioria dos casos não existe qualquer problema sanitário. A Quercus defende por isso que parte das carcaças fiquem nos locais onde existem populações de abutres (nomeadamente Trás-os-Montes, Beira Alta, Beira Baixa, Alto Alentejo, Moura/ Barrancos e Vale do Guadiana), de forma a aumentar a disponibilidade de alimento dessas aves necrófagas.

 

Falta resposta a proprietários e criadores de gado por parte do Estado

 

 

A Quercus, o GNR-SEPNA e as Associações de produtores de gado têm feito chegar diversas queixas de criadores de gado dos concelhos de Castelo Branco e Idanha-a-Nova ao ICNB, alegando prejuízos causados por aves necrófagas, como o Grifo e o Abutre-negro, algumas que já reportam ao ano de 2003. Estas reclamações não têm sido atendidas. A Quercus entende que o Estado deve garantir a peritagem e acompanhamento destas situações de modo a evitar problemas maiores e a promover o desenvolvimento rural e a protecção da biodiversidade, evitando conflitos com os proprietários e as populações locais.

  

Crise da BSE (vulgo “doença das vacas loucas”) criou problema de escassez de alimento

 

Em Portugal ocorrem naturalmente três espécies de abutres – o Grifo (Gyps fulvus), o Abutre-negro (Aegypius monachus) e o Abutre do Egipto (Neophron percnopterus), bom como outras aves com hábitos necrófagos, nomeadamente a Águia–imperial (Aquila heliaca). À medida que as actividades agro-pecuárias foram alterando os ecossistemas naturais, reduzindo a abundância das suas presas naturais (na sua maioria o Veado e o Javali), estas espécies adaptaram-se às disponibilidades alimentares criadas pelo homem, sendo que os animais domésticos associados à silvopastorícia representam, em algumas zonas do país, uma parte significativa da sua dieta alimentar.


Nas últimas décadas, as regras sanitárias têm sido cada vez mais restritivas, obrigando a que as carcaças dos animais mortos sejam retiradas dos campos e eliminadas, o que está a levar à diminuição dos recursos alimentares disponíveis. Com as directivas comunitárias decorrentes da crise da encefalopatia espongiforme (a chamada “doença das vacas loucas”), foram criados sistemas de recolha de animais mortos, retirando assim dos campos centenas de toneladas de carcaças, diminuindo ainda mais as disponibilidades alimentares das referidas aves.

 

 


Lisboa, 7 de Setembro de 2011

 

A Direcção Nacional da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza

 

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Para mais informações contactar: Samuel Infante  – 96 294 64 25

 

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