OS HOMENS DO REI – 9 – por José Brandão

Mendo de Sousa (1140? -?)

 

Fidalgo do tempo de D. Sancho I. Era conhecido pelo conde D. Mendo de Sousa, o Sousão, sendo filho de D. Gonçalo Mendes de Sousa, chamado «O Bom», da ilustre casa dos Sousas, e de sua mulher, D. Urraca Sanches. Esteve na tomada de Silves, foi mordomo-mor do referido monarca, e um dos maiores senhores de aquele tempo.XXX A 15 de Julho de 1189 a hoste de Sousão, D. Mendo de Sousa, chega diante de Silves, levanta acampamento e começa no dia seguinte os trabalhos preliminares do cerco. E logo que a larga fila de navios (galés portuguesas e frota de Cruzados), subindo o rio, ancora diante da praça de Silves, D. Mendo de Sousa propõe aos chefes Cruzados um assalto de surpresa às muralhas.

 

Aceite a proposta de Sousão, no dia seguinte deu-se o assalto de surpresa às muralhas dos subúrbios. Tão impetuoso foi, tão furiosamente os cruzados se lançaram aos fossos e ergueram as escadas, sob a tempestade de setas, pedradas e balas incendiárias vomitadas das ameias, que os mouros, tomados pelo pânico, abandonaram as muralhas, a cidade baixa, e refugiaram-se na almedina, seu último refúgio.

 

Todo o subúrbio foi ocupado nesse mesmo dia pelos cristãos que, excitados pela fácil vitória, no dia seguinte, ao romper da madrugada, se arrojaram também contra as muralhas da própria almedina para a levarem à escala. Não foi tão feliz essa segunda investida, porque, apesar das descargas de flechas que lhes protegia o assalto, por toda a cinta de muralhas foram os cruzados repelidos com graves perdas. Ao cair da noite, desistiram; e lançado fogo aos subúrbios, abandonaram-nos e recolheram-se ao acampamento, para começarem o assédio regular, assim que D. Sancho tivesse chegado. Entretanto aproveitariam o tempo para construir e montar as necessárias máquinas de guerra. Com a chegada da hoste real, a 29, começou o assédio em forma. Cerrou-se então o cerco, por mar e por terra; prepararam-se as máquinas de guerra. De novo nos subúrbios, os mouros provocavam, do alto das muralhas, o furor dos cristãos com insultos e crueldades. Decresceram de ritmo os combates para que os sapadores pudessem cobrir de minas a base das muralhas. Duas catapultas comandadas por D. Sancho e a monstruosa barreira de pontas de aço, montada pelos alemães, atacaram sem cessar, durante dias, a maciça muralha. Por fim, o incêndio, devorando as escoras das minas, fez aluir uma torre e parte das muralhas.

 

Os cristãos precipitaram-se na brecha, forçando em breve os mouros a refugiarem-se parte na almedina, parte na albarrã. A torre albarrã, em baixo, logo atacada, em breve caíu também. O poço de água que abastecia a praça foi logo entulhado. À brutalidade dos golpes ia juntar-se também os horrores da sede. E, novamente senhores dos subúrbios, pela segunda vez os cruzados se arrojaram sobre a almedina para a levarem à escala viva; mas pela segunda vez, apesar da sede, apesar das febres, apesar do tórrido céu de Verão, os heróicos defensores da praça por toda a parte repeliram a feroz escalada.

 

Um tanto desanimados, voltaram os assaltantes ao repor das minas contra as muralhas do castelo. Mas, uma saída feliz dos sitiados inutilizou as minas. D. Sancho, enervado já com a valorosa resistência, dá ordem de assalto geral a 18 de Agosto. Ainda, mais uma vez, o heroísmo dos sitiados, a aspereza da encosta e o incêndio da lenha que entulhava os fossos fizeram malograr em toda a linha a nova investida.

 

Durante dias, o desalento, a impaciência, a fadiga desmoralizaram os cruzados. Pensou-se em levantar o cerco. D. Sancho, obstinado, impôs a sua autoridade real. Por um pouco estiveram para vir às mãos em sangrentas rixas os louros gigantes do norte e os trigueiros homens do sul. Na praça a situação dos sitiados (soube-se por um desertor) era atroz. Mastigava-se barro para humedecer a boca. Havia mães que esmagavam o crânio dos filhos contra as paredes para os não verem sofrer. Do inclemente céu não caía gota de água. E de África nem promessas de auxílio, nem quaisquer notícias.

 

Os cruzados, por fim, submeteram-se e resolveram prolongar o cerco. Voltou-se ao moroso mas seguro sistema das minas. Mas os mouros, engenheiros hábeis, contraminaram. As galerias cruzavam-se, entrecortavam-se, rompiam-se. Os ferozes combates à luz do dia transportaram-se para o coração da terra. Os sapadores cristãos e mouros, ardendo de febre, em ódio, chacinavam-se ali na treva, como trágicas toupeiras.

 

Por fim, a 3 de Setembro de 1189, morta toda a esperança, os mouros, exaustos, capitularam.

Apesar de todo esta luta e sofrimento para cristãos e muçulmanos, Silves que já tinha sido anteriormente conquistada por Fernando Magno de Leão em 1060 e depois perdida, volta a cair nas mãos dos árabes em Abril de 1191.

 

Parece que cruzados alemães a voltaram a tomar em 1198, voltou a ser perdida e só foi definitivamente reconquistada para Portugal em 1240, já no reinado de D. Sancho II, por D. Paio Peres Correia mestre da Ordem de Santiago que num golpe de sorte, aproveitando a saída das tropas de Almansor, que tinha abandonado a cidade, deixando-a indefesa, para atacar Estombar.

 

Nessa refrega o próprio Almansor depois de derrotado, procura fugir, morre afogado num pego dos arredores de Portimão, que durante muito tempo foi conhecido pelo «pego de Almansor». Esta segunda conquista de Silves e de todo o Algarve, entrou mais facilmente do que a primeira, nos domínios da lenda e fantasia para escritores e poetas. A ajuda dos cruzados ingleses fora já decisiva na conquista de Lisboa. Afonso Henriques teria mesmo representado aí um papel de segundo plano. Mal armado e com poucos efectivos, ser-lhe-ia impossível conquistar o importantíssimo e estratégico castelo sem a ajuda da formidável máquina militar inglesa.

 

Em Silves, de novo, os cruzados ingleses seriam fundamentais. A cooperação só foi possível devido ao acordo feito com os nossos primeiros reis: após a conquista de uma praça-forte e durante o período de participação que se lhe seguia os cruzados detinham o direito exclusivo ao saque.

 

Todas as riquezas, bens privados e públicos, ouro, mulheres, animais e produtos agrícolas lhes pertenciam. A voracidade, a crueldade e a violência dos cruzados ingleses fazia deles uma força temida pelos povos árabes da península. As orgias que cometem e a rapinagem exaustiva de bens irá constituir uma constante durante toda a conquista dos territórios nacionais do sul. Combatendo o Islão, ajudando as ideias de expansão dos reis cristãos, os cruzados iam acumulando fabulosas riquezas.

 

Para a conquista de Silves o rei D. Sancho contou com a ajuda preciosa dos povos cristianizados do norte. Organizados em grupos fortemente armados e, em nome da fé, os cruzados institucionalizaram a pilhagem.

 

Portugal precisou deles para existir.

 

Nem a valentia dos reis, nem o destemor dos homens do rei chegavam para fazer Portugal.

 

Mendo de Sousa, o Sousão, viveu pouco tempo e de sua esposa, D. Maria Rodrigues, filha do Conde D. Rodrigo Veloso, deixou vasta descendência.

 

(A seguir:Soeiro Viegas)

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