por Rui Oliveira
1. Na Culturgest, a 17 de Setembro (Sábado), às 21h30 no Grande Auditório toca Abdullah Ibrahim (Dollar Brand), um nome importante da história do jazz. O pianista sul-africano, hoje com 76 anos, abandonara o país no período do apartheid (como a cantora Miriam Makeba ou o trompetista Hugh Masekela) e com o impulso (e a colaboração) de Duke Ellington tocou durante largos anos entre os Estados Unidos e a Europa, gravando mais de 100 discos. O seu último disco Senzo (2008) – que não ouvimos ainda – dizem ser “… de uma serenidade e simplicidade que revelam uma profunda sabedoria…”, o tal lirismo místico (segundo Nigel Williamson, crítico que compilou o último CD retrospectivo) que “une as raízes africanas ao jazz americano so séc. XX, que ele exprime como mais nenhum outro”.
African Herbs do disco Soweto (1978)
2. No Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, às 19h, abre a temporada a soprano finlandesa Karita Mattila que virá acompanhada ao piano por Martin Katz.
Nascida em Somero, na Finlândia, Karita Mattila iniciou os seus estudos musicais na Academia Sibelius de Helsínquia, onde teve como professora Liisa Linko-Malmio, prosseguindo o seu aperfeiçoamento vocal com Vera Rozsa a partir de 1984. É presença regular nos principais teatros de ópera e festivais internacionais, interpretando um vasto repertório que na presente temporada incluirá, entre outros, Jenufa, em versão de concerto, com a Filarmónica de Berlim (dir. Simon Rattle), o papel principal numa nova produção de Manon Lescaut para a Ópera Lírica de Chicago e a Grande Ópera de Houston, Leonore (Fidelio) e Elsa (Lohengrin), para a Metropolitan Opera de Nova Iorque, Quatre Instants de Saariaho, com a Orquestra de Cleveland (dir. Franz Welser-Möst) e os Gurrelieder, com a Sinfónica de Boston (dir. James Levine).
Nesta presença em Lisboa, Karita Mattila privilegiará as canções (e lieder) sobre as árias operáticas, com um programa que inclui :
Alban Berg Sieben frühe Lieder
Johannes Brahms Meine Liebe ist grün, op. 63 nº 5 ; Wiegenlied, op. 49 nº 4 ; Von ewiger Liebe, op. 43 nº 1 ; Vergebliches Ständchen, op. 84 nº 4
Claude Debussy Harmonie du soir ; Le jet d’eau ; Recueillement
Richard Strauss Der Stern, op. 69 nº 1 ; Wiegenlied, op. 41 nº 1 ; Allerseelen, op. 10 nº 8 ; Frühlingsfeier, op. 56 nº 5
Eis dois registos, um lied mais clássico de há 10 anos e uma canção do repertório actual.
3. De 15 a 17 de Setembro, o Maria Matos Teatro Municipal apresenta na Sala Principal (às 21h30) Violet da norte-americana Meg Stuart com a companhia belga Damaged Goods (Bruxelas).
Cinco bailarinos embarcam numa viagem aos limites do mundo real atravessando o palco como se fosse uma paisagem mental : esculturas cinéticas cujos gestos e movimentos desenham uma imagem intensa de uma frágil condição humana.” As suas acções são manifestações de fenómenos, imperceptíveis mas sempre activos, um redemoinho de padrões energéticos hiperpormenorizados” (programa). O músico Brendan Dougherty acompanha o fluxo dos movimentos ao vivo, em palco, na electrónica e na percussão.
Coreografado por Meg Stuart, tem criação e interpretação de Alexander Baczynski – Jenkins, Varinia Canto Vila, Adam Linder, Kotomi Nishiwaki e Roger Sala Reyner.
4. A 2ª edição do Festival Flamenco Lisboa realiza-se essencialmente no Coliseu dos Recreios sob o título A Mulher no Flamenco nos dias 15 e 16 de Setembro, às 21h30.
No primeiro dia actua a cantora Estrella Morente Carbonell, filha do Mestre Enrique Morente, intérprete da 1ª edição entretanto falecido, e da bailarina Aurora Carbonell. Vencedora do Prémio Ondas para a melhor criação flamenca, cantou com artistas flamencos como Chano Lobato ou Juan Habichuela e participou em diversas películas de Pedro Almodovar (Sobreviviré ou Volver). Oriunda duma larga família artística onde o bailado, a guitarra e o canto andaluz dominam, estreia-se em Portugal com um programa previsivelmente atractivo.
No segundo dia intervêm a bailarina Maria Juncal (aluna da coreógrafa Trini Borrull), a cantora Esther Merino (professora de canto na “escola itinerante”), Alejandra Gutkin (coreógrafa de sevilhanas e flamenco) e a bailarina Marta Chasqueira.
O restante programa do Festival encontra-se em http://www.festivalflamencodelisboa.com/ e inclui, entre outros eventos, uma exposição fotográfica “Génio e Figura”, uma conferência “A importância da mulher cigana no flamenco”, além de aulas trimestrais de dança e uma mostra das curtas-metragens do Festival Internacional de 2010 no Instituto Cervantes.
5. Por último, relevo para uma iniciativa de génese literária a ocorrer no São Luiz Teatro Municipal entre os dias 15 e 17 de Setembro intitulada “ANTÓNIO LOBO ANTUNES Deste viver aqui neste palco escrito”.
Diz o Teatro : “… porque Lobo Antunes é um dos grandes autores universais e temos o privilégio de o ter connosco na mesma cidade onde vivemos, porque lê-lo é lermo-nos nas nossas vidas das últimas décadas … faz-nos todo o sentido abrir a mãe de todas as temporadas … com um programa dedicado à literatura.”
Assim, em 15 e 16 (na Sala Principal, às 21h), em Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar ? , Maria de Medeiros (com Gonçalo Távora Correia, cavaleiro de equitação à portuguesa e Vulcão, seu cavalo) conduz-nos através da sua leitura pessoal de um monumento literário suspenso de alguém que, inevitavelmente, “vai morrer às seis horas”. Por detrás da história … das transformações sociais e económicas profundas que o país atravessou (atravessa), há pessoas concretas … há famílias que são como pequenas sociedades cuja explosão interna liberta vozes que poderiam ser as nossas.
A 16/9 (18h30) e a 17 (17h), haverá no Jardim de Inverno Cartas de Guerra ,uma leitura posta em som por José Neves.
A 17/9 (18h30), uma Mesa Redonda moderada por Maria Alzira Seixo debaterá a obra de António Lobo Antunes, com a participação de Eduardo Lourenço e João Lobo Antunes.
A encerrar nesse dia às 21h na Sala Principal será exibido em antestreia o filme A Morte de Carlos Gardel de Solveig Nordlund, com fotografia de Acácio de Almeida e produção de Luis Galvão Teles. Com a adaptação cinematográfica de A Morte de Carlos Gardel, Solveig Nordlund tem uma oportunidade única de empreender “mais uma prodigiosa aventura”(como diz): “ A partir de um emaranhado de discursos cruzados, discorridos por múltiplas primeiras pessoas, somos conduzidos por uma rede de memórias em cujo centro nervoso encontramos um jovem toxicodependente à beira da morte, o seu pai ingénuo, que não acredita que Gardel tenha morrido naquele acidente aéreo, uma tia obstinada… É a vida toda, com a morte dentro.”
Como cordas sobresselentes, neste panorama ainda frouxo de início de época, chamaríamos a atenção para :
No teatro, suscita interesse a nova proposta duma peça de Spiro Scimone pelo Teatro dos Aloés (que já encenara O Saguão) O Envelope (encenação de Jorge Silva e interpretação de Bruno Huca, Daniel Martinho, João Brito e Luís Barros). A peça remete para um universo burocrático de índole kafkiana, num intricado de processos que deixam entrever como estes mecanismos de complexificação da realidade, mais não são que uma forma sub-reptícia de maldade e de coerção sobre o outro. Porém nesse processo, marcado pelo absurdo e pelo grotesco, quem exerce essa violência é também apanhado no funcionamento autofágico da burocracia. Permanece no Teatro Meridional de 14 a 25/9 às 22h.
Também com apreciação crítica positiva, em particular pelo desempenho superior de Custódia Gallego na protagonista, sugere-se As Lágrimas amargas de Petra von Kant que o Teatro Nacional Dª Maria II (com o Teatro do Bolhão) apresenta de 15/9 a 6/11 na sua Sala Estúdio (às 21h15). O texto de Rainer Werner Fassbinder com excelente tradução de Yvette Centeno, encenação de António Ferreira com figurinos de José António Tenente, tem interpretação de Cláudia Carvalho, Custódia Gallego, Diana Costa e Silva, Inês Castel-Branco, Isabel Ruth e Paula Mora. “São só seis as personagens, femininas … Compõem um fresco social apreciável e perfazem um puzzle onde a presença do homem se faz sem necessidade da sua intervenção física … uma montra de acções e reacções, de sentimentos e posturas onde a emancipação feminina e a sua clausura se confrontam…”.
No cinema a estreia recente de O Cisne marca o regresso da realizadora portuguesa Teresa Villaverde ao grande ecrã após uma ausência de cinco anos. Protagonizado por Beatriz Batarda, Miguel Nunes e Israel Pimenta, tem na banda sonora nomes como Chico Buarque, John Cage, Ildo Lobo, Caetano Veloso ou Dorival Caymmi e foi há dias selecionado para a secção Horizontes do Festival de Veneza. Segundo resumiu a realizadora “Beatriz Batarda interpreta uma cantora, Vera, que fecha uma digressão em Lisboa. Em cada cidade, Vera pede para ter uma pessoa, um assistente, a acompanhá-la e em Lisboa conhece o jovem Pablo (Miguel Nunes), que tem uma vida misteriosa, um passado de abandono familiar e que precisa de ajuda”.
Por último na música menos clássica, assinale-se, para os amadores dum rock alternativo com tons de blues, o regresso a Portugal de Anna Calvi a 13/9 no Lux Frágil (às 22h30), aquela émula de P.J.Harvey (com quem partilha o produtor Rob Ellis), que é elogiada por Brian Eno (que a considera o acontecimento musical mais importante desde Patti Smith) ou Nick Cave (que a escolheu para abrir o seu último concerto). “Rock descarnado marcado pela sumptuosidade”, “uma performance vocal quase operática mas escapando a qualquer tentação mais barroca”, dizem críticos e pode ouvir-se neste excerto.



