Sobre rumores, sobre tremores, sobre tumores, uma análise do capitalismo moderno, por Júlio Marques Mota

(Continuação)

 

Considerando que a questão assumiu “proporções incríveis”, o jornalista considera que a sua mensagem não foi incluída “com a ligeireza e a distância suficiente com o qual deveria ter sido tratada”. Um pouco mais tarde, mais de uma hora, após a sua primeira mensagem, explicava sobre Twitter: “sces internes, ds l’attente d1 explication du Daily Mail je trouve cette rumeur-là bien marrante que les autres[1]!” Mas ela retirou depois da sua conta Twitter o nome do seu empregador e acrescentou a menção: “Os meus tweets não envolvem a minha redacção!”


A sua micro-mensagem difunde-se rapidamente sobre Tweet. Na quinta-feira, o Libération retoma-o no condicional citando o jornalista de Reuters. A revista de imprensa da França Info evoca esta hipótese publicada pelo Libération … E o rumor deforma-se gradualmente. O sítio do Figaro reconstitua, sem estar a citar fonte, “o trajecto louco do rumor” e explica que uma história contada por Mail on Sunday — que David Cameron teve que interromper as suas férias a 6 de Agosto para falar a Nicolas Sarkozy — “também se encontrava na série do jornal Le Monde“…enquanto o primeiro-ministro britânico não aparece nunca no folhetim.


Na quinta-feira noite, a Agência France-Presse (AFP) afirma num despacho, corrigida e seguidamente anulada e depois mas largamente retomada na NET, que a série “foi a fonte de uma falsa informação que concorreu largamente para a brutal descida das acções Société Générale na Bolsa”. E citava uma fonte anónima da Banca que considera que “ser bastante irresponsável deixar publicar algo de tão próximo da realidade actual”.


Depois da publicação do segundo folhetim desta série, o Crédit Agricole enviou uma carta ao Le Monde, publicada com o quinto folhetim da série com o significado “de protesto e de desmentido”: o banco temia que este artigo criasse “um clima de apreensão injustificada junto dos clientes e dos assalariados do grupo”. O Le Monde então tinha acrescentado, em cada um dos artigos, além da menção “ficção política” colocada sob o título, a mensagem seguinte: “Le Monde recorda aos seus leitores que as situações, os factos e os números publicados nesta série são imaginários e não devem ser tomados como a expressão de uma realidade.”

 

Le Monde, Clemente Lacombe, Agosto de 2011.

 

Estação Terminal  para o euro – O fiscal de olhos vendados

Ficção política

Artigo publicado na edição de 03.08.11

 

Jean-Pierre Jouyet, o presidente da Autoridade dos Mercados Financeiros, europeu convicto, não quer acreditar nas informações que recebe. Todas elas vão no mesmo sentido, dão a mesma indicação: o tabu do euro está em vias de cair.

 

Sábado 19 de Maio de 2012. Apartir do seu enorme gabinete, 17, place de la Bourse, Jean-Pierre Jouyet lança um olhar sobre as colunas do Palácio Brongniart. O templo da finança já só abriga, desde há muitos anos, “acontecimentos” montados pelos profissionais da comunicação. Um cenário de teatro. Já vai longe o tempo em que o mercado dos produtos a prazo de Paris (Matif) conduzia o jogo na Europa e rivalizava com os seus concorrentes americanos. Há ainda vinte anos, o antro fervilhava de traders (especuladores por conta de outrem ou por conta própria) tão jovens quanto ambiciosos que urravam no “floor” as ordens dos seus clientes.

Desde há muito tempo, a electrónica lançou para o mundo do folclore os mercados que funcionam em forma de lances ou de leilão, e Londres e Frankfurt e assumiram a posição que Paris anteriormente tinha sobre os instrumentos derivados. A finança tornou-se um jogo de escritas invisíveis sobre as quais matemáticos, informáticos, advogados e contabilistas reinam como mestres. Supervisionar esta indústria estranha que nunca foi tão potente como tão imaterial é um grande desafio.


O presidente da Autoridade dos Mercados Financeiros passou uma boa parte da semana a acompanhar de perto o Crédit Agricole. Foi necessário concluir a sua comunicação sobre a desastrosa fraude grega e em seguida, quando veio o veredicto dos mercados, depois do “golpe” alemão, teve de criar uma rede de segurança. A prioridade absoluta: evitar o contágio aos outros bancos da praça de Paris. A largueza do Banco Central não impedirá uma recapitalização em grande escala. O Eliseu não quis dar-lhe todos os detalhes, mas sente que se prepara uma revolução.


 

Fala-se em confiar o banco de retalho ao BNP Paribas e as actividades de mercado ao Deutsche Bank. A cotação continuou a estar suspensa durante toda a semana. Será bem necessário, num momento dado, fazer uma oferta aos accionistas e pedir-lhes a opinião deles. As caixas regionais que têm a vantagem de ser maioritárias, não estão disponíveis para colocar as mãos na massa. E se, além disso, Deutsche lhes oferece um bonito prémio pelo resgate das actividades de mercado, cuja justificação estas Caixas sempre contestaram, não se vê muito bem, efectivamente, o que é que poderia parar o tandem dos depredadores franco-alemães. Uma página da história financeira francesa está em vias de ser mudada. “1894-2012, aqui jaz o Crédit Agricole”, pensa o inspector das finanças.


Um jovem colaborador vai a passar e olha pela porta entreaberta.


“Posso entrar?

 

– Entre. Então?

 

– Os dados do Depository Trust & Clearing Corporation confirmam o que se sente. O volume dos CDS soberanos da zona euro explodiu. Sobre a Grécia, passou-se de 50 mil milhões de euros contra 10 no início do ano e contra dez vezes menos há um ano. Sessenta mil milhões na Espanha, 25 em Portugal.

 

– E a França?

 

– O volume triplicou durante doze meses, para 150 mil milhões. A actividade é bastante forte, aparentemente.

 

– Quem está por trás disto?

 

– Fundos. Ilhas Caimão, Delaware, Luxemburgo.

 

– Bancos?

 

– Talvez. Seria necessário pedir mais informações aos Americanos e trabalhar os dados.

 

– E na venda? Quem assume o risco?

 

– Nada mal quanto aos institucionais europeus. Os preços subiram tanto, estes deixam-se tentar.

 

– Idiotas!»

 

A Europa falhou na sua legislação sobre os produtos derivados, estes contratos altamente arriscados e remuneradores produzidos em grande escala pelo sistema financeiro desde há duas décadas a um ritmo cada vez mais frenético, a Europa renunciou em estabelecer o seu próprio registo das cotações e das transacções. Resultado: logo que os seus fiscais dos mercados do continente europeu tiverem um problema, devem levantar o dedo e pedir autorização ao grande irmão americano para consultar os seus livros ou pôr-se então de joelhos em frente do FSA britânica que mantém um olho sobre o que se passa na City.


Na prática, eles têm que se contentar com o tratamento que lhes dá a DTCC, este “entreposto” virtual onde são registados milhões de contratos. Mais de 3 000 mil milhões de dólares “de activos” de valor duvidoso entrelaçados numa rede inextricável de obrigações recíprocas entre bancos e fundos que são como um cutelo, como uma espada de Dâmocles suspensa sobre a sua cabeça, suspensa sobre o sistema financeiro mundial.


Seria no entanto bem útil saber. Desde o início do mês, as taxas sobre as obrigações aumentaram perigosamente. Uma imensa vaga especulativa recomeçou a estender-se por toda a Europa. Mas ao contrário de 2009, já não está limitada à periferia. As garantias dadas aos países do Sul contaminam os fiadores. A França e a Bélgica estão na primeira linha. Entre as duas voltas das eleições presidenciais, a Moody’s puxou o sinal de alarme: num horizonte de seis meses, a França poderá perder o seu famoso AAA que lhe permite contrair empréstimos nos mercados de capitais a um custo razoável. Todos, nas promessas eleitorais dos candidatos à investidura suprema, qualquer que seja o seu quadrante, tinham indicado que o objectivo de redução do défice público para 3% em 2013 não seria mantido. Se a agência de notação confirma esta afirmação, o país corre o risco de ser atirado para a mesma espiral que os seu modestos vizinhos. Uma baixa de rating significa e por baixo, cerca de 2 mil milhões de euros de despesas adicionais em juros por ano[2]. Mas é o desmoronamento da estrutura dos empréstimos entre Europeus, que assenta sobre o valor da garantia dada pelos seis países mais bem notados, entre os quais a França.

 

Obrigado, Laurent. Tem ainda um momento?

 

– Certamente.

 

– Imagina que fala ao presidente da República. Este interroga-o: “Laurent, o que é que se pode fazer contra estes bastardos‘?”O que é que lhe respondia, Laurent?

 

– Não sei, senhor Presidente.

 

– Tenta mesmo assim.

 

– Euh… “Pedia à Autoridade europeia que proíba as operações especulativas sobre os CDS soberanos”?

 

– Boa resposta, Laurent. Acredita verdadeiramente que isso pode funcionar?

 

– Não, evidentemente. Passarão por Nova Iorque e a especulação redobrará.

 

– Mas propõe-mo mesmo assim?

 

– É o senhor Presidente que absolutamente queria uma resposta.

 

– Não sou eu, Laurent, é o Presidente… Pode ir para casa. Obrigado e bom fim-de-semana.

 

– Obrigado, Sr. Presidente.


(Continua)


[1] Assim no original.


[2] A dívida pública da França é de cerca de 2 milhões de milhões ou seja 2 000 000 000 000: Imagine-se um aumento de duas  décimas milésimas, 0,0002, imagine-se uma descida do rating que leva a este aumento da taxa de juro. Esta descida, mínima como se vê, significa anualmente 400 000 000 de euros que os contribuintes terão de pagar. Se consideramos aumento de um por mil o que, enquanto taxa não é nada relativamente às variações a que temos assistido na Europa, a subida vale então 2 milhares de milhões, conforme com o texto.  E se passarmos a um aumento de 1 por cento então teremos encargos anuais na ordem dos 20 milhares de milhões a pagar pelo contribuinte. Coitado do Sarkazy à procura de manter os três AAA. A alternativa é, neste contexto e como se vê, bem cara e ele acha que vale o preço da sua vassalagem..

 

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