OS HOMENS DO REI – 11 – por José Brandão

Gonçalo Mendes (Séc. XIII)

 

Fidalgo e político. Sabe-se que, pelo menos em 1209, era escrivão de D. Sancho I. Posteriormente, já no reinado de D. Afonso II, aparece como chanceler. Sabe-se igualmente que desempenhou papel de relevo junto deste monarca, acabando por ser excomungado – tal como o próprio D. Afonso II e D. Pedro Anes, mordomo da cúria – pelo arcebispo de Braga. Gonçalo Mendes e D. Pedro Anes já tinham sido admoestados numa bula papal em Janeiro de 1221, sendo especialmente visados na medida em que eram tidos por maus conselheiros de D. Afonso II.

 

As questões com o Clero filiavam-se na mesma política de defesa dos bens da Coroa. Logo em 1211, as cortes de Coimbra, embora reconhecessem os privilégios eclesiásticos, promulgaram a primeira lei contra a amortização, proibindo que as igrejas adquirissem por compra novos bens de raiz, excepto se os rendimentos se destinassem a aniversários por alma dos reis. Veio depois o sistema das Confirmações e Inquirições, com o fim de averiguar quais as terras que andavam indevidamente na posse dos clérigos e nobres. Em resultado dessas diligências, o rei anulou algumas doações feitas à Igreja e exigiu que as instituições religiosas pagassem o tributo de colheita.

 

O arcebispo de Braga, D. Estêvão Soares da Silva, convocou uma assembleia de prelados em que verberou o procedimento do rei. D. Afonso respondeu com novas violências e graves ameaças. O arcebispo não hesitou em excomungar o monarca e os seus mais próximos conselheiros, entre os quais Gonçalo Mendes, e lançou interdito sobre o reino.

 

O papa Honório III, em bulas de 23 de Dezembro de 1220, intentou resolver a questão com o rei e com o prelado conimbricense; D. Afonso resistiu, e a desavença prolongou-se.

 

Em nova bula, datada de 16 de Junho de 1222, exigiu o pontífice que D. Afonso desse as devidas satisfações, sob pena de lhe desligar os súbditos do juramento de fidelidade e entregar o reino aos príncipes ou nobres que dele se quisessem apoderar.

 

D. Afonso, atacado de lepra, incumbiu o deão de Lisboa, mestre Vicente, de tratar com o arcebispo de Braga. Tudo se encaminhava para uma solução satisfatória, quando el-rei faleceu (25 de Março de 1223).

 

D. Soeiro, bispo de Lisboa, absolveu-o, celebrou-lhe exéquias e acompanhou o cadáver até Alcobaça. O arcebispo opôs-se a que lhe fosse dada sepultura eclesiástica.

 

Nestas contendas, desempenharam papel relevante os conselheiros da escola de mestre Julião. Formara-se na corte um partido adverso ao poderio eclesiástico, em que se salientaram sucessivamente os chanceleres Gonçalo Mendes e mestre Vicente.

 

Quando D. Afonso II faleceu, não contava ainda catorze anos de idade o primogénito do seu matrimónio com D. Urraca. Daí resultou que durante a menoridade do novo rei D. Sancho II foram os ministros de seu pai quem ficou sustendo as rédeas da governança.

 

As ambições do poder clerical encontravam agora o ensejo de fazer reviver suas insaciáveis pretensões. Faltava-lhes a debelá-las o braço enérgico e possante de D. Afonso. Sentiam-se afoitos perante um rei-criança, cujos ministros e tutores lhes não podiam opor o prestígio pessoal tão influente naquelas eras.

 

Não admira, pois, que os ministros durante a menoridade de D. Sancho houvessem de transigir com as exigentes pretensões daqueles mesmos, a quem aliás el-rei D. Afonso tão vigorosamente soubera sempre resistir.

 

De três membros se compunha o conselho, que a seu cargo tinha a tutoria do príncipe e a regência do reino. Eram eles: Gonçalo Mendes (o chanceler-mor), Pedro Anes (o mordomo-mor) e Vicente (o deão de Lisboa).

 

A seguir: Martim de Freitas

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