Perto de onde vivo fica a Serra de Montejunto. É um elemento dominante na paisagem de Alenquer, um concelho com grandes recordações históricas. Recentemente um episódio curioso, o do aeroporto que se pensou construir na Ota, freguesia de Alenquer, concentrou as atenções do nosso país, e não só. Esta obra foi muito apregoada e defendida, a começar pelo governo anterior. De súbito foi abandonado o projecto, substituído por outro, de construção do aeroporto em Alcochete.
Não pretendo vir aqui com considerações técnicas sobre a localização do novo aeroporto internacional português, tido por muitos como essencial para a competitividade do país. Acho é que devia haver uma reflexão profunda sobre como se terá ido tão longe a considerar um projecto tão importante como o do aeroporto da Ota (e gasto verbas consideráveis em estudos, promoção, etc.), e de repente se chegou à conclusão que era preciso deixá-lo cair. Mais do que procurar responsabilidades individuais (não excluo que se deva chegar aí) acho que se deve tentar encontrar os erros metodológicos cometidos na condução do processo, prioridades erradamente determinadas, enfim tentar a um nível de compreensão acessível de como foi possível perder tanto tempo, gastar tanto dinheiro e criar expectativas tão elevadas com um erro tão crasso.
Atrevo-me a dizer que o abandono do projecto foi decidido quando um senhor, ao qual peço desculpa de não me lembrar do nome, chegou à televisão (terá sido porque alguém se enganou?) e disse que seria impossível construir um aeroporto internacional no local previsto, porque ali nunca seria possível, com a proximidade da serra e os ventos existentes, um avião levantar voo e, simultaneamente, outro aterrar. Eu juro que ouvi. E também por essa altura, alguém entendido declarou que um aeroporto até nas Berlengas se podia construir, mas um seria um disparate ainda maior que na Ota. O problema é: porque é que estas verdades tão elementares só vieram a público tão tarde? E como é que tanta gente responsável delas não sabia, ou então ignorou-as, pura e simplesmente?
Entretanto, li no Público de sexta-feira passada, dia 9 de Setembro, que o Ministério da Economia e do Emprego (sob a batuta de Álvaro Santos Pereira) está a pensar reprogramar o pacote de compensações do futuro aeroporto de Lisboa. Assinado em 2008 por José Sócrates, acordado com 16 municípios do Oeste e da Lezíria, está previsto incluir investimentos no total de 2,08 mil milhões de euros, até 2017. Alguns serão de inegável interesse, como a modernização da linha do Oeste. Outros não terão tanto. Mas a execução até à data parece que ainda não atingiu os cinco por cento.
Não se podem esquecer, neste imbróglio, investimentos privados já em fase avançada de execução, como a plataforma logística da Castanheira, considerada PIN – projecto de interesse nacional pelo governo anterior, lançada pela multinacional ABERTIS, e cujos acessos estão a ser expropriados e construídos por entidades públicas portuguesas. Atrevo-me também a dizer que o sucesso deste investimento está fortemente comprometido.
Os erros cometidos neste processo da Ota já foram cometidos muitas vezes em Portugal. Veja-se o caso das barragens do Baixo Alentejo (Santa Clara, Roxo), ou o das auto-estradas. Há que analisar estes processos e procurar concluir onde se errou.


Muito de acordo com o exposto – a evolução destes projectos, faz-se mais ao sabor de interesses locais e privados, de clientelas ploíticas, do que do interesse nacional e dos cidadãos contribuintes no seu conjunto. Escapa ao meu sistema dedutivo por que razão há regiões que são compensadas por nelas não se construir o aeroporto. Os lisboetas talvez possam abichar qualquer compensação por não ter sido aqui feita a barragem do Alqueva. Pensando bem, o pinhal de Leiria também nos fazia arranjo…