(Conclusão)
INTEGRAR, EXCLUIR
Touchée… Mudo de assunto: – E o que aconteceu ao Serviço de Protecção aos Índios?
– Passa para a alçada do Ministério do Trabalho. Os burocratas tomam conta dele, as dotações orçamentais são drasticamente reduzidas, o SPI começa a funcionar aos soluços, os bugreiros outra vez à vontade para dar seguimento à espoliação e à chacina. – Mas que mentalidade era essa que fomentava a caça ao índio? – Fomentava e continua fomentando… Mas isso Você deve saber melhor do que eu, esta civilização é mais sua do que minha… Contudo, sempre lhe digo que o raciocínio dos usurpadores é muito simples: “Devemos tirar as terras aos índios porque eles não sabem aproveitar a riqueza das mesmas. Deixá-las em seu poder, é regredirmos ao princípio do mundo. E se eles, por causa disso, nos querem matar, em legítima defesa tratamos nós de os matar primeiro.”
– Há sempre uma justificativa para o pior dos crimes… – E depois essa justificativa é radicalizada contra tudo e contra todos que possam arranhar os privilégios dos grandes fazendeiros, os chamados coronéis. Até hoje continuam impunes os assassinos do Chico Mendes e de outros líderes dos Sem Terra. – Sei disso, mas voltemos ao Rondon. Fora do SPI, o que fez ele?
– Com a sua influência, tenta minorar os desastres, consegue pouco. Mas tão grande é já o seu prestígio em toda a América do Sul que, em 1934, o Governo brasileiro vê-se compelido a indicá-lo para espinhosa missão diplomática: arbitrar o conflito que opõe o Peru à Colômbia pela posse do território de Letícia. Rondon vence os obstáculos um a um e em 1938, só em 1938, consegue que o Peru e a Colômbia assinem o tratado de paz.
– Quatro anos! Que pachorra! – Que força de vontade! direi eu. Tem 73 anos e sofre de um glaucoma que acabará por cegar-lhe um olho. Mas não desiste da vida, nada trava a sua determinação, nem sequer a doença… Vinte anos mais tarde, nas vésperas da sua morte, dirá uma secretária: “Ainda hoje, sem vista, ocupa-se em passar a limpo os seus diários – que haviam sido escritos a lápis, em campanha – ditando eu e guiando-lhe, às vezes, a mão, ao mudar de página.”
– Que fibra! – Sim, que fibra! Com a paz de Letícia mais se reforça o seu prestígio e em 1939 o Governo convida-o a reassumir a direcção do SPI. Aceita, faz o balanço dos estragos ocorridos nos dez anos em que esteve ausente: encerrada a maior parte dos postos de assistência, territórios tribais usurpados, índios amontoados em reservas e entregues ao arbítrio dos seus inimigos de sempre, cunhatãs raptadas…
– Cunhatãs? – Mocinhas raptadas para servirem de amásias aos coronéis. Curumins tomados à força…
– Curumins? – Mocinhos tomados à força para servirem como criados nas casas grandes dos coronéis. Sentindo-se traídos, muitos índios tinham fugido e retornado às matas e à guerra contra os brancos. É preciso reconstruir e Rondon mete mãos à obra. Tem 74 anos mas a idade não o tolhe; nem a doença. O SPI retorna à responsabilidade do Ministério da Agricultura. Rondon exige dotações orçamentais que permitam o relançamento de uma política indigenista coerente. Todos os postos do SPI são reabertos e muitos outros são inaugurados. Anuncia-se às desconfiadas tribos outrora pacificadas que o murubixaba Rondon voltara a chefiar os brancos. Assim recomeça a interrompida viagem do neolítico à civilização, assistência efectiva e vigilância permanente na defesa dos direitos dos índios. Em 1952 Rondon consegue da Presidência da República a criação do Parque Indígena do Xingu, preservação de uma vasta região natural do Brasil, cujo usufruto pertencerá aos índios que nela vivem. E em 1953, em consequência dos avanços da Etnografia, por incumbência de Rondon, a Comissão de Estudos do SPI prepara e ele inaugura, no Rio de Janeiro, o Museu do Índio.
– Em 1953? Tinha ele 88 anos, se não me engano nas contas.
– Exactamente, 88 anos. Ficará na activa até morrer.
– E isso acontece quando?
– Aos 93 anos. Mas antes, aos 90, o Congresso Nacional promove-o a Marechal e, em sua homenagem, dá o nome de Rondónia ao Território do Guaporé. – Homenagem mais do que merecida…
– Deveria ter preferido outra…
– Qual? – Na sua última viagem a Mato Grosso, Rondon insiste em visitar o velho Cadete, chefe dos Bororo das Garças, uma das primeiras tribos que ele pacificara. Os dois velhos dão-se as mãos, abraçam-se, conversam longamente na língua dos Bororo, são amigos há mais de 60 anos. Sorrindo para os seus acompanhantes, Rondon explica: “Sabem o que ele está dizendo? Me aconselha a vir morrer aqui porque, estando eu assim tão velho, já não posso durar muito, e só os Bororo saberão fazer o meu funeral”. Acho que Rondon deveria ter aceite o convite. – Diaí, por que é que Você diz uma coisa dessas?
– Menina: há coisas na vossa civilização que não me apetecem e então, sem dar por isso, regrido ao neolítico. Não me apetece a vossa indiferença, ou cegueira, de excluir do vosso convívio homens e mais homens, populações inteiras.
– Está a falar de índios e brancos? – Também disso. Mas principalmente da vossa sociedade.
– Não estou a entender.
– Aurora, você não quer é entender. Bote os olhos nas favelas a que Você chama de bairros de lata. Bote os olhos nas multidões que já não têm e já não sabem o que fazer, para elas a vida perdeu o norte. Primeiro, vocês excluíram os outros. Agora estão excluindo os da vossa própria tribo, suicídio colectivo.
– Diaí, bem sei que a globalização, realmente…
– E há outra coisa: entre os índios, se um homem, como Rondon, for sagrado em funeral, não há Curupira que sobre ele consiga soprar as neblinas do Esquecimento. Expliquei-me? Tenho dito, ponto final.

