OS HOMENS DO REI – 12 – por José Brandão

SANCHO II (reinou de 1223 a 1248)

 

Em fins de Março de 1223, D. Sancho II sucedeu como rei de Portugal a D. Afonso II, seu pai, falecido a 25

 daquele mês, com 38 anos de idade e 11 de reinado.

 

Nascido em 1209, o novo governante não tinha diante de si um futuro risonho.~

 

A sua juventude punha-o na dependência de tutores: os já referidos, chanceler Gonçalo Mendes, o mordomo-mor Pedro Anes e mestre Vicente, deão de Lisboa. Estes tinham sido homens de confiança do recém-falecido rei, sobretudo os dois primeiros, a quem, em grande parte, se ficou a dever a energia com que D. Afonso II lutou com a Cúria Romana e com os que se acolhiam à sombra desta e contra ele a instigavam. Recorde-se até que a bula de Honório III, emitida em 4 de Janeiro de 1221, admoestava o rei por desmandos insinuados em Roma pelo arcebispo de Braga e referia-se em termos violentos a Gonçalo Mendes e a Pedro Anes, apontando-os como verdadeiros causadores de vários delitos, sobretudo por mal aconselharem o monarca e o enganarem facinoramente.

 

D. Sancho II tinha treze anos quando subiu ao trono. Viu-se envolvido, imediatamente, nas intrigas e nos desejos imoderados das tias, dos clérigos e dos fidalgos.

 

Como certamente se previa, o seu governo caracterizou-se pelas tramas, pela agitação, pelas desordens, pela luta armada, pela cedência real em alguns casos, sem que, no entanto, isso constituísse ou daí resultasse, no final das contas, qualquer vantagem palpável para o bem-estar da nação, para a consolidação do poder real.

Tiveram a sorte de os árabes também não se entenderem entre eles.

 

Entretanto D. Sancho II, de 18 anos, iniciava a sua brilhante carreira militar. O jovem rei, descura as intrigas e, com visão de Estado, aproveita a ajuda dos cavaleiros da Ordem de Santiago, vai sobre os árabes e conquista-lhes Moura, Serpa, Aljustrel, Mértola, Tavira, Cacela, Elvas. Tudo isto, em conjunto, constituía território extensíssimo e estrategicamente bem escolhido, pois, como se verifica, a cunha pelo território do Algarve separa esta região da Andaluzia, impedindo a vinda de socorros daqui para ali.

 

O rei, apesar de valente, era um coração frágil, e se não perdoava aos mouros porque ocupavam terras que lhe faziam falta, perdoava aos que lhe eram familiares, aos representantes da igreja e aos fidalgos, embora não lhes dando o que eles pretendiam.

 

Os Bispos de Lisboa, do Porto, de Braga e de Coimbra e queixam-se e vão à Santa Sé, acompanhados de nobres, dizer que o rei lhes retirara benefícios anteriormente concedidos, que a situação no país era caótica e o rei não tinha capacidade para governar. Para o substituir indicam o irmão Afonso, que promete satisfazer as suas ambições.

 

Alto clero e nobreza rebelavam-se, impunham-se ao rei, praticavam desvelos (como a da entrega à Igreja do terço dos bens de quem falecia, sob pena de negação de sacramentos e de sepultura canónica…), que o espírito fraco de quem ocupava o trono não sabia debelar.

 

À energia das lutas de D. Afonso II pelo poder central contra as exigências clericais dirigidas pelo arcebispo de Braga, seu filho e herdeiro preferiu a «liquidação do caso» com, entre outros preceitos, o pagamento de indemnizações aos queixosos que, por sua vez, «perdoavam ofensas reais», concordavam em levantar excomunhões, em exumar cadáveres para de novo os sepultarem mas agora acompanhados de ritos religiosos, etc., etc.

 

É declarada guerra civil entre D. Sancho e seu irmão D. Afonso, conde de Bolonha, em virtude de alguns prelados e nobres descontentes com D. Sancho se haverem queixado dele ao papa Inocêncio IV. Os partidários de D. Sancho (Martim de Freitas, alcaide de Coimbra; Fernão Rodrigues Pacheco, alcaide de Celorico, etc.) são derrotados pelos partidários de seu irmão D. Afonso.

 

Os castelos de Faria, Coimbra, Guimarães e Celorico continuaram-lhe fiéis e D. Afonso III só foi reconhecido por estes alcaides depois da morte de D. Sancho. O caso do alcaide de Coimbra, Martim de Freitas, é sintomático. Só entregou as chaves de Coimbra depois de ter ido a Toledo certificar-se que D. Sancho tinha falecido.

Em 1247, o pobre rei D. Sancho, odiado pelo clero e abandonado por quase toda a nobreza e pelo próprio povo, retirava, sem mulher e sem Coroa, para Toledo, onde, em princípio de 1248 morria atacado de saudades, apesar de aureolado de glória como invencível capitão da conquista do Algarve.

 

Lá estavam Elvas e Aljustrel, Juromenha e Serpa, Mértola, Tavira e outras praças tomadas aos Mouros, atestando a bravura de D. Sancho e o seu empenho em continuar de certo modo as gloriosas tradições de seus predecessores com respeito a alargar os limites do reino a que presidia.

 

Mas de nada isso lhe servia para manter-lhe o prestígio, quando o supremo árbitro, o rei dos reis (o papa), se prestava a fulminá-lo do solo pontifício, obedecendo às sugestões daqueles que mais lhe convinha proteger.

Nem D. Sancho tinha a energia indispensável para com ele poderem contar na ocasião precisa, – nem a pouca força moral que dele poderiam receber bastaria para os habilitar a sair de situação tão crítica.

 

Passou o resto dos seus dias envergando um curioso e grosseiro traje de frade, que lhe valeu o cognome de Capelo, nome atribuído à vestimenta.

 

No seu testamento escolheu para sepultura o mosteiro de Alcobaça, mas não mais sairá da tumba da catedral de Toledo.

 

Cerrada na catedral de Toledo a tampa do sepulcro de D. Sancho II, D. Afonso III passou a governar sem oposição.

 

Martim de Freitas e Paio Peres Correia foram homens do rei D. Sancho II.

 

 

 

Martim de Freitas (Séc. XIII)

 

 

Quando o futuro D. Afonso III entrou em Portugal em 1246 com intenções de depor seu irmão D. Sancho II, conforme encargo papal que trazia de Roma, muitos castelos entregaram-se-lhe sem luta. Alguns, porém, fiéis aos juramentos prestados a D. Sancho II, resistiram até estarem perdidas todas as esperanças. De uns e outros ficaram inúmeros documentos comprovativos, especialmente dos primeiros. Dos segundos, é paradigmática a figura do alcaide-mor de Coimbra, o célebre Martim de Freitas.

 

Deposto, D. Sancho partiu exilado para Castela, em 1247, onde veio a falecer mais tarde (4 de Dezembro de 1248) sendo sepultado na Catedral de Toledo.

 

O conde de Bolonha, D. Afonso, pusera cerco a Coimbra, que teimosamente recusava render-se. Como em muitos outros lugares, foram feitas inúmeras promessas ao alcaide-mor, Martim de Freitas, a fim de entregar a cidade. Porém, nem as promessas nem os combates conseguiram reduzir os cercados, que, apesar das privações, resistiram largo tempo.

 

O castelo de Coimbra localizava-se na zona mais elevada da cidade, como acontecia com os outros bem situados. Mais concretamente, situava-se no então cume da Alta de Coimbra, vários metros adiante do Paço Real, onde se veio a instalar a Universidade. Aliás, a vasta colina encimada pelo Pátio da Universidade, compreendia a cidade muralhada, da qual ainda se conservam alguns vestígios aqui e ali.

 

O castelo propriamente dito, com o seu núcleo de torres, ficava mais ou menos na área onde actualmente se localiza o perímetro da Praça D. Dinis. Esta construção datava ainda dos tempos da Reconquista Cristã, mais concretamente desde o reinado de D. Afonso Henriques. Era igualmente a mais viva recordação de um tempo em que Coimbra foi capital do então novo Reino de Portugal, antes de perder este estatuto para Lisboa. Com o passar do tempo, tanto a muralha como o castelo foram sofrendo, aqui e ali, alguns acrescentos e reparações, em virtude, não só do crescimento da população que aí se albergava, bem como de episódicos reforços da sua capacidade defensiva. Por exemplo, sabe-se que o rei D. Sancho I construiu uma larga torre, próxima da já existente Torre de Menagem, que ficaria conhecida como a Torre Quinaria ou Torre de Hércules, a qual seria utilizada em diversos períodos como prisão.

 

A estrutura antes defensiva, começou a descaracterizar-se. Por outro lado, com a inexistência de novas batalhas nesta região, a cidade havia-se começado a expandir para “fora de portas”, secundarizando por completo a função dos muros defensivos. O próprio castelo foi apresentando crescentes sinais de ruína, para além de ser alvo do roubo de pedras, nomeadamente na Torre de Hércules. Apesar da degradação e da gradual demolição de algumas paredes circundantes, o núcleo essencial do castelo, onde se destacavam as já referidas Torre de Menagem e Torre Quinaria ou de Hércules, foi-se mantendo e com ele a capacidade de resistência.

 

Um dia chegou a notícia da morte de D. Sancho II, único modo de quebrar a resistência do alcaide. Mas Martim de Freitas não quis entregar-se assim de boa-fé. Saiu do castelo, pediu um salvo-conduto a Afonso de Bolonha, atravessou o cerco e dirigiu-se a Toledo: era necessário certificar-se da notícia. Ali, segundo a tradição, conseguiu que abrissem o túmulo do rei e reconhecendo no cadáver os traços do senhor a quem jurara fidelidade, certificou-se da verdade. Pegou na chave da cidade que tinha a seu cargo defender de qualquer inimigo, pousou-a nas mãos do cadáver real e tornou a tomá-la.

 

Voltou a Portugal e pôde então entregá-la a Afonso III, sem perigo de quebra de juramento, uma vez que se desobrigara da sua palavra. Depois, abriu as portas de Coimbra e deixou que penetrasse na cidade o exército do novo rei.  

 

A seguir:Paio Peres Correia

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