Eleições nos Estados-Unidos: as primárias republicanas transformaram-se num duelo. Por Corine Lesnes, Le Monde. Selecção, tradução e introdução de Júlio Marques Mota.

 

Nota de Abertura

 

Temo-nos referido sucessivamente ao Tea Party de modo não simpático, e o adjectivo utilizado para os qualificar, foi o de rufias. Exagero da minha parte? Exagero do Wall Street Journal? Exagero do site Arianna Huffington ? Claro que não. A situação publicitada pelos media a propósito do aumento do tecto da dívida pública nos Estados Unidos mostra a “qualidade destes senhores, perdão, destes rufias”, mostra bem o que estes defendem. Como aqui, a ausência de défices, a regra de ouro sobre o défice na Constituição, o travão da dívida na Constituição,  estamos a ver Zapateros, em Espanha, François Hollande, em França, Passos Coelho, em Portugal,  na mesma vaga que o Tea Party!  Por outro lado defendem o não aumento dos impostos para os ricos, aqui não aplica também salvo por cosmética, na Itália recua-se na matéria, na Espanha ainda não se aplica, defendem o virar da América para a América profunda, para a América rural  contra a América industrial. Percebe-se então Warren Buffet, a quem nos referimos na carta ao nosso ministro da Economia, ministro invisível, segundo o Expresso, mas ministro, verdade seja dita.

 

E aqui vos deixo um texto que nos dá uma ideia do que nos espera se Obama ou alguém pelos democratas estes homens não vencer.

 

Coimbra, Setembro, 2011.

 

Júlio Marques Mota

 

Estados Unidos: as primárias republicanas transformaram-se num duelo

 

 

Corine Lesnes, Le Monde, Setembro

 

Rick Perry e Mitt Romney dominaram  o primeiro debate. Duas figuras do Partido republicano que em se opõem.

 

Rick Perry não rebentou o ecrã. Para o seu primeiro debate emitido por televisão, o governador do Texas era desde há muito tempo esperado, nem que fosse apenas pelo seu sucesso em assumir a frente da corrida para a nomeação republicana para as eleições presidenciais de 2012, e somente em menos de um mês depois de ter anunciado a sua candidatura.


Muitos vêem-no já no cartaz de Novembro de 2012, contra Barack Obama, e a Casa Branca, algumas horas antes do início da emissão, não resistiu em  comunicar que o herói do Tea Party, confrontado com enormes incêndios no seu Estado do Texas, tinha feito como toda a gente e tinha pedido a ajuda do governo federal. Subvenções que, certamente, tinham sido generosamente concedidas sem mesmo estar a criticar a decisão do governador de ter amputado em 75% os créditos para os bombeiros voluntários.


De imediato, os comentadores regalaram-se com a zaragata entre os dois homens em debate : James Richard Perry, 61 anos, texano de pai para filho,  democrata até 1989, republicano desde aí, e suficientemente astuto como político para ter apanhado a vaga do Tea Party a partir de 2009, na altura em que a sua reeleição como governador estava a ser contestada . Um homem de origens modestas, casado com uma enfermeira. Lançou a sua campanha com uma mensagem muito simples: o que é “bom para o Texas é bom para a América” – não aos impostos sobre o rendimento, uma obrigação constitucional de equilibrar o orçamento – ainda que nenhum Estado tenha tantos empregados com o salário mínimo nem tantos habitantes não cobertos pelo sistema de Segurança Social.


À sua frente, Willard Mitt Romney, 64 anos, governador do Massachusetts de2003 a2007, candidato infeliz à investidura presidencial em 2008, mormon, procedente de uma família patrícia de Michigan onde o seu pai foi governador. Detestado pela base radical por ter instaurado no Massachusetts um sistema de seguro-saúde que assenta sobre a mesma lógica de mandato obrigatório como a reforma de Barack Obama. Pouco carismático. Os meios de comunicação social cobriram com mais interesse a extensão da sua casa de campo de San Diego – 12 milhões de dólares (8,5 milhões de euros) – do que as suas propostas para o emprego.


Dois candidatos e dois rostos do Partido Republicano de após Bush: com a franja em cólera, que está pronta para passar à guilhotina tudo o que se assemelha a um programa governamental, ao ponto de, durante o debate, os animadores julgarem útil interrogar os oito candidatos sobre a supressão dos controladores aéreos ou sobre os regulamentos na indústria farmacêutica. “Porque não? ”, respondeu Ron Paul, representante do Texas desde 1979 e Tea Party de sempre. Os controladores do céu poderiam ser privatizados. E todos sabem efectivamente, acrescentou, que “os regulamentos da indústria farmacêutica são escritos pelos funcionários sob o controlo dos lobbyistas.”


De outro lado, a franja “negócios” dos republicanos. Aí, escolheu-se claramente Mitt Romney, à imagem de Karl Rove, o antigo “cérebro” de George Bush, e no entanto antigo mentor de Rick Perry. Grande mestre da recolha de fundos de campanha, Karl Rove efectua o ataque no que parece ser uma vendetta texana que data já de alguns anos. Denunciou “a linguagem tóxica” do seu antigo protegido sobre a reforma do sistema das pensões de reforma. Uma tal linguagem prejudica as possibilidades do partido contra Barack Obama, considera. “Karl ultrapassou os limites”, respondeu Rick Perry.

 

O debate teve lugar na biblioteca Ronald Reagan de Simi Valley, na Califórnia. O pugilato esperado não se deu verdadeiramente mas isto é apenas uma amostra. Como disse – Newt Gingrich, o antigo porta-voz (presidente) da Câmara, que perdeu todas as possibilidades, mas permanece na corrida, os republicanos não querem “fazer o jogo dos meios de comunicação social que procuram colocar os republicanos uns contra os outros para proteger Obama, o qual merece absolutamente ser vencido”. Mitt Romney acrescentou: “estamos todos de acordo aqui. Este presidente deve ir embora. É um tipo simpático, mas não tem a mais mínima ideia como fazer arrancar esta economia”.


Rick Perry não recuou nem repudiou as suas posições “tóxicas”. “Chegou a altura talvez de ter uma linguagem provocadora neste país.” Falou “de mentira monstruosa ” a propósito do regime de reformas (social security) que faz acreditar aos jovens de 25 anos que beneficiarão um dia com as contribuições dos seus pais. Num país que tem 50 milhões de habitantes com mais de  62 anos, este repetiu que o sistema é “um esquema de Ponzi” (termo popularizado pelo sistema de Madoff na sua fraude financeira piramidal).


Aí, Mitt Romney agarrou a questão. Diz que é favorável a uma privatização parcial das pensões de reformas e defendeu-lhe o sistema com a mão sobre o coração. “Não pode dizer isso às dezenas de milhões de Americanos que vivem das suas pensões de reforma. O candidato do nosso partido não pode ser alguém que se compromete a abolir a Segurança Social”, lançou. Rick Perry nem pestanejou.


O governador do Texas repetiu que, do seu ponto de vista, “a ciência ainda não  chegou a nenhuma decisão com certeza ” sobre a questão da responsabilidade humana na mudança climática. Reduzir a actividade económica sobre esta base teria “um impacto monstruoso”, sublinhou, estabelecendo uma comparação com Galileu que, ele também, “esteve errado em certa altura ”… Sobre Twitter, onde as reacções se acumulam em tempo real, o antigo porta-voz do departamento de Estado Philip Crowley ironizou : “Na altura em que Rick Perry decidir o que a ciência estabeleceu todo o Texas estará em fogo. »


Sobre a pena de morte, o sucessor de George Bush também foi rápido a responder e tinha manifestamente partidários na sala. Quando Brian Williams, o animador, lhe lembrou que tinha aprovado 234 execuções em dez anos, soaram muitos aplausos na sala a saudar este facto. Problemas para dormir durante a noite? “Não, não senhor, respondeu o antigo piloto de avião de transporte do exército do ar, antes de acrescentar que as palmas ouvidas provavam que “os Americanos têm o sentido da justiça”.


Corine Lesnes, Le Monde, Setembro, 2011.

 

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