De 19 a 25 de Setembro de 2011

 

por Rui Oliveira 

 

 

   Usando uma imagem mais pictórica, diria que a paleta de início da temporada continua pouco colorida (com as valiosas excepções abaixo). Vamos a elas :

 

 

   1. No Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, a 23 de Setembro (Sexta) às 21h, actua a dupla Marc Copland ao  piano e John Abercrombie na guitarra.

   Como diz o programa “Marc Copland é um dos mais originais e prolíficos pianistas de jazz da actualidade, considerado um dos maiores expoentes do piano de jazz lírico” e “John Abercrombie, influente guitarrista tanto no registo acústico, quanto no eléctrico, é um experimentalista nato que trabalha a partir da tradição do jazz”. 

   Cruzaram-se, pela primeira vez, na década de 1970 na banda de Chico Hamilton e desde então têm colaborado em numerosos projectos , que são sempre enriquecidos por uma interacção intuitiva. Seja nos “Dreams”, banda lendária dos Brecker Brothers, passando por colaborações várias que se expressaram em “Second Look” (Savoy), “That’s for Sure” e “Brand New” (Challenge), “And” (Hatology) até recentemente “Another Place” e “Five on One” (Pirouet), etiqueta do álbum neste momento editado “Speak to Me.

   Na apreciação de vários críticos de jazz (vide Penguin Guide to Jazz on CD) “… as suas interacções são intuitivas, cada um reflectindo as ideias do outro. Um músico clarifica e reforça o que faz o outro … é uma forma generosa de tocar muito semelhante ao observar do vento que sopra sobre um lago. Vêem-se as ondas mas não a força que as anima…”.

   Na impossiblidade de reproduzir uma gravação (inexistente) duma sua actuação conjunta, imagine-se a “articulação” dos trechos adiante expostos.

 

 

 

 

 

 

  2. No Cinema São Jorge, a 25 de Setembro (Domingo) às 18h, a Orquestra Metropolitana de Lisboa (direcção musical de Jesús Medina) com Claudio Constantini no bandoneón traz a Lisboa o seu segundo projecto intitulado  À Descoberta da América II, continuação do de 2010 que visava assinalar dois séculos de independência de vários países daquela região do mundo.

   Na altura disse-se “A música latino-americana reflecte o cruzamento de um imenso conjunto de referências, boa parte originária das culturas autóctones, outras apropriadas da cultura europeia que ali se radicou ao longo de vários séculos, dos fluxos migratórios que se foram estabelecendo ou da mais recente influência norte-americana veiculada pelos media. Explica-se assim a sua diversidade e, consequentemente, a sua grande riqueza: desde a música dos Andes ao cariz hispânico que se faz ouvir na Argentina ou no Chile; das sonoridades africanas do Caribe a todas as outras que associamos ao México, à Venezuela, à Colômbia, ao Brasil…  e os compositores para orquestra homenageados foram os mexicanos Silvestre Revueltas e José Pablo Moncayo, o argentino Alberto Ginastera e o brasileiro Heitor Villa-Lobos.
   No programa do concerto actual figuram :


        
Astor Piazzolla Oblivión (arr. Ian Mikirtoumov)

        Daniel Schvetz – Concerto para Bandoneón e Orquestra, Parábola del círculo y la piedra (estreia absoluta)

        Arturo Márquez Danzón n.º 4 

        Eduardo Angulo Suite mexicana

 

   Fiquemos com o registo do ano passado :

 

 

 

 

   3. Estreou nesta semana “Meia-Noite em Paris / Midnight in Paris” escrito e realizado por Woody Allen em 2011, cuja visão se recomenda pois, e concordamos com a maioria da crítica (vide J.M. in Ípsilon 16/9), será “o seu melhor filme desde Match Point (2005)”.

   “É a história de um americano “simples” em Paris, fascinado pelo passado místico da cidade, que um táxi mágico transporta até aos anos de 1920 onde encontra Hemingway, Scott Fitzgerald, Cole Porter, Dali, Picasso, Gertrude Stein, ou mesmo antes, Toulouse Lautrec, Gauguin, Matisse, entre muitos … Aplicação prática da máxima “dantes é que era bom” que Allen confronta engenhosamente com a realidade para provar (e bem) que … era tão bom como os dias de hoje”.  Subscrevo que é um filme assaz “luminoso” de um realizador que, ao contrário de alguns dos seus últimos e amargos textos, “acabou de fazer as pazes com o mundo” e se concentra “numa elegância e humor” que se não viam há vários anos. Pode fazer-se-lhe a crítica de resvalar para o bilhete-postal do turismo parisiense (os lugares são sempre os mais requintados da cidade) mas pode considerar-se haver um “engenhoso jogo de espelhos” em que o postal funciona como “metáfora das ilusões feitas para serem desfeitas : por trás da imagem há vida e emoção que vão muito para lá da superfície”. Assim a independência criativa do realizador neste périplo de cidades europeias (Londres, Barcelona, agora Paris, já Roma e em breve Munique) não ceda a preversos compromissos financeiro-turísticos, aliás prejudiciais à própria chama criadora …  

   Nos papeis principais Owen Wilson e Rachel McAdams são o americano naïf e a noiva, enquanto Kathy Bates (Gertrude Stein), Marion Cotillard (Adriana, amante de Picasso), Adrien Brody (Salvador Dali), entre muitos outros, personificam as figuras míticas criadas por Allen.

 

 

 

  4. Na Culturgest, a 24 de Setembro (no Grande Auditório, às 21h30) canta António Zambujo (acompanhando-se à guitarra). Com ele estarão Bernardo Couto (na guitarra portuguesa), Jon Luz (no cavaquinho), Zé Conde (em clarinete) e Ricardo Cruz (em contrabaixo), com participação especial do Grupo de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento.

   O cantor, nascido em Beja (1975), cresceu a ouvir o cante alentejano mas cedo começou a cantar fado entre amigos e família. Ao seu primeiro êxito em disco (O mesmo fado, 2002), seguiram-se Por meu cante (2004) e Outro sentido (2007), elogiados p.ex. por Caetano Veloso e outros artistas brasileiros que neles colaboram.

   Este espectáculo intitula-se Guia, título do álbum de 2010. Nele o cantor “afastar-se-ia do fado”, o que o próprio desmente, rectificando encontrarem-se ali as suas influências musicais dominantes, “o cante alentejano, a música brasileira e o jazz”.

   Comprovemo-lo neste trecho :

 

 

 

  5. Inaugura-se no Museu Colecção Berardo, no dia 21 de Setembro, a exposição VIK,  a maior retrospectiva do artista plástico brasileiro Vik Muniz (n. 1961) até à data, onde se pode ver mais de uma centena de trabalhos representativos da sua trajectória artística, incluindo obras inéditas e uma doação do artista à Colecção Berardo, ‘Rolleiflex’. Está, segundo o programa, “construída de forma a que cada espectador possa perceber qual o processo criativo e evolutivo que caracteriza a sua carreira. Abarcando obras compreendidas entre 1988 e o mês passado, põe de lado qualquer tipo de “exoterismo que possa existir à volta do artista, mostrando que não há nada de génio ali, mas sim muito trabalho, simples e lógico”.

   Apoiado no uso de materiais pouco convencionais, Vik Muniz imprimiu a sua marca em trabalhos fotográficos realizados a partir de técnicas e elementos tão diversos como papel recortado, sucata, calda de chocolate e algodão. A relação entre os materiais utilizados e a referência a clássicos da história da arte, originou obras emblemáticas como a famosa réplica da ‘Mona Lisa’ de Leonardo da Vinci, feita com geleia e manteiga de amendoim. Mais recentemente, o artista tem-se dedicado à criação de obras de grande escala, com um carácter social acentuado, que envolvem comunidades desprotegidas e problemáticas como as dos meninos de rua de São Paulo (série “Objecto Invisível”) ou as dos “catadores de lixo” no Rio de Janeiro (filme “Lixo Extraordinário” premiado pelo público como o melhor documentário do Festival de Sundance 2010).   

 

     

                          Auto-retrato                                                           Lixo Extraordinário

 

 

Cordas sobresselentes

 

   Poderá completar-se a escassez (referida) do panorama cultural com alguns espectáculos potencialmente interessantes. Assim :

 

 

   Na dança, a Culturgest apresenta a 21 e 22 de Setembro (no Grande Auditório, às 21h30) o espectáculo do coreógrafo Boris Charmatz Enfant ” para 9 bailarinos e um grupo de crianças,  recentemente apresentado no Festival de Avignon (Julho 2011).

  Nele “a criança (surge) como uma matéria maleável, frágil e incontrolável…uma carga de real que perturba o equilíbrio da cena. Transportados, pousados no chão, manipulados pelos bailarinos, os corpos das crianças invadem o espaço, ampliam-no, esculpem-no. Das suas relações nasce um jogo de tensão e de relaxamento que conjuga a força da inércia com o processo de transformação. Desenrola-se um estranho ballet entorpecido em que se formam ilhotas, montes móveis; de que emergem encontros instáveis, morfologias híbridas – imagens suspensas entre o repouso, o sonho e a ronda…” 

 

 

 

   Na música, a Galeria Zé dos Bois traz a 23 de Setembro (às 23h) a dupla  Marisa Anderson + Bridget Hayden abordando a relação das mulheres com a guitarra eléctrica. Como diz a introdução, “Marisa pertence à linhagem (de Patti Smith) e, vivendo em Portland (Oregon), é uma compositora e multi-instrumentista cujo segundo registo The Golden Hours (2011) é inspirado pelos Delta Blues, pelo country, o gospel, a guitarra da África Ocidental”.

Bridget Hayden é inglesa, integrou como guitarrista os Vibracathedral Orchestra  e “tem um frémito substancialmente mais vulcânico”. Gravou  Trash Momento (2011), onde também canta.

 

 

 

   Ao Campo Pequeno, a 20 de Setembro (às 19h), vem o norte-americano Adam Young apresentar o projecto musical de synthpop Owl City. O músico celebrizou-se, em particular, pelo single “Fireflies”, além da sua participação em bandas sonoras como a do filme Alice no País das Maravilhas de Tim Burton .

 

 

 

   Por último, o grupo Percussões da Metropolitana  (dir. Marco Fernandes) toca, integrado na “Noite Europeia dos Investigadores 2011”, junto à fonte no exterior do Pavilhão do Conhecimento, a  23 de setembro (Sexta-feira), às 18h, de Dave Hall  The Persistence of Memory, de Francisco Tavares  Profundis (estreia absoluta) e de Leander Kaiser  Aquanautic Voyage.

 

 

Caros leitores, é tudo por esta semana. Façamos votos que o quadro crítico melhore, em todos os aspectos …

3 Comments

  1. O atalho (na barra à direita) para o Pentacórdio de 26-Set a 2-Out abre a edição de 19-Set a 25-Set. Como é que encontro a de 26-Set?

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