O saudoso tempo do fascismo – 2 – por Hélder Costa

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“O saudoso tempo do fascismo” era uma expressão que me andava a inquietar há muito tempo.

 

Por um lado, periodicamente, principalmente nos tais momentos artificialmente aquecidos pelos media e que costumam dar pelo nome de campanhas eleitorais, é frequente ouvir verdadeiras loas saudosas a Salazar e ao esplêndido Portugal desse tempo.

 

Por outro lado, da parte da esquerda vivendo de memórias de fraternidade e de luta audaciosa contra esbirros e preconceitos, também é frequente ouvir-se que “no nosso tempo é que era”.

 

Foram estas duas vertentes antagónicas sobre o nosso passado comum que me levaram a lançar ao papel algumas reflexões e apontamentos.

 

Porque, ainda por cima, qualquer dessas posições transporta – talvez involuntaria¬mente -, grande carga de humor e ironia.

 

Estas notas, narrativas, ou “fresco” se se quiser, não se referem a um período crono¬logicamente preciso, Antes tentam desenhar um quadro ideológico Salazarista e pós-Salazarisra, o que pode arrastar-nos até aos dias de hoje, usando diferentes ri¬tmos e ângulos de visão. PeIo comportamento de várias personagens e estruturas sociais, desvenda-se melhor o “estado das coisas” e a repelência política e ética do fascismo.

 

E apesar de eu considerar a expressão” fascismo ordinário ou vulgar” absolutamente pleonástica, concedo que é interessante ver como pensam e agem os fascistas de bom-tom e bom gosto.

 

Essas forças sempre pensaram que o seu poder lhes tinha sido outorgado por mandato divino, e por isso sempre se julgaram “omnipresentes, omnipotentes e omniscientes”. E, no entanto, como nunca conseguem parar o vento da História, também aqui se recordam a ironia, o humor e a coragem que “os de baixo” costumam usar para as levar de vencida, e que isto sirva, como dizia um clássico, para se perceber que que “a seguir à noite vem o dia”.

 

No mundo de hoje, assolado por guerras, pestes, catástrofes, fomes e miséria, é bom citar o filósofo norte-americano Marshal Berman quando recentemente recordou que os jovens Marx e Engels tinham escrito que “tudo o que é sólido se dissolve no ar”.

 

Para terminar, esclareço que decidi não utilizar nomes reais nas personagens, exceptuando alguns casos que achei exemplares e incontornávei, e tentei ficcionar  acontecimentos verídicos. Acho pouco interessante o diário radicalmente memorialista, e prefiro-lhe a narrativa que, partindo de factos reais, os imagina para “estórias de proveito e exemplo”.

 

Até porque era muito aborrecido o leitor me dizer: – olha lá, o que é que eu tenho a ver com a tua vida?

 

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