UM CAFÉ NA INTERNET – Luísa, por William Somerset Maugham – I

Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 (1874 – 1965)

 

 

Nunca percebi o motivo pelo qual Luísa se aborrecia comigo. A verdade é que não gostava de mim e eu sabia que, pelas minhas costas, mas de maneira muito diplomática, ela raras vezes perdia a oportunidade de dizer coisas desagradáveis a meu respeito. Era demasiado fina para fazer referências directas, mas, com uma insinuação, um suspiro, um simples gesto dos seus lindos dedos, tinha a habilidade de explicar tudo quanto queria. Era mestra nos elogios perigosos. De facto, havíamo-nos conhecido quase intimamente, durante vinte e cinco anos, mas jamais acreditei que ela se considerasse obrigada a quaisquer laços ou só de simpatia. Achava-me grosseiro, brutal, cínico, ordinário. Admirei-me sempre que ela não fizesse o que seria mais natural: desconhecer-me. Pelo contrário, nunca me largava. Andava sempre a convidar-me para almoços e jantares, e duas ou três vezes por ano pedia-me que fosse à sua casa de campo passar o fim de semana. Por fim suspeitei de que havia descoberto o motivo de tudo isso. Ela desconfiava de que eu não a tomava a sério, e, se era essa a razão de não gostar de mim, era também a causa pela qual procurava o meu convívio: irritava-a o facto de eu a crer ridícula e não descansava sem me forçar a reconhecer o erro e me impor o seu triunfo. Talvez se capacitasse que eu lhe via a face por baixo da máscara e pretendia que, mais tarde ou mais cedo, me convencesse que a máscara é que era a genuína face. Entretanto nunca achei que fosse tão embusteira como isso; o que eu perguntava a mim mesmo era se Luísa troçava consigo própria da mesma forma que o fazia quanto aos outros; isto é, se no seu espírito havia alguma centelha de humorismo. Em caso afirmativo, talvez existisse maior atractivo para mim e nos déssemos bem um com o outro, visto partilharmos de um segredo desconhecido do resto do mundo.

 

Conhecera Luísa antes de ser casada. Era ela então uma rapariga frágil e delicada, com olhos grandes e melancólicos. O pai e a mãe adoravam-na num verdadeiro culto, tanto mais que certa doença (escarlatina, creio eu) a deixara de coração fraco, exigindo sempre os máximos cuidados. Quando Tom Maitland pediu a mão dela, os pais ficaram aterrados, pois se tinham persuadido de que a rapariga não resistiria às complicações do matrimónio. Mas, enfim, não eram muito abastados, e Tom Maitland passava por ser rico. Ele prometeu fazer tudo por Luísa e eles, por fim, confiaram-lha como um tesouro sagrado. Tom Maitland era alto, seco, de bom parecer e consumado atleta, e amava-a perdidamente. Porém, sabendo-a fraca do coração, não esperava conservá-la muito tempo na sua companhia, e meteu-se-lhe na cabeça arranjar as coisas de forma a desforrá-la nesses curtos anos que seriam os da sua vida terrena. Renunciou aos desportos em fora exímio, não porque ela lho pedisse (gostava até que ele jogasse ao golf e fosse à caça) mas porque, por coincidência, ela tinha sempre um ataque cardíaco quando ele se propunha deixá-la só, durante um dia. Se havia entre eles divergência de opiniões, ela sem demora cedia em favor do marido, pois não havia esposa mais submissa neste mundo; mas o coração ressentia-se e Luísa caía de cama, dócil, sem uma queixa, e ficava assim por uma semana inteira. Nem ele seria tão mau que a quisesse contrariar, pois isso acarretaria nova discussão sobre quem havia de condescender e Tom só com muita dificuldade a obrigava a manter-se dentro do seu ponto de vista. Numa ocasião, vendo-a disposta a fazer uma caminhada de oito milhas (coisa que particularmente a interessava) sugeri a Tom Maitland que ela talvez fosse mais forte do que se supunha. Ele abanou a cabeça e suspirou.

 

─ “Não, não, é muitíssimo melindrosa. Tem consultado os melhores especialistas do coração e todos lhe dizem que tem a vida por um fio. O que possui é uma grande força de vontade.” E contou à mulher a observação que eu tinha feito.

 

─ “Amanhã pagarei tudo isto,” disse-me ela, lamentando-se. “Vou estar às portas da morte.”

 

─ “Às vezes chego a crer que é muito capaz de realizar aquilo que tem em vista,” repliquei.

 

Havia eu notado, também, que, se um baile estava divertido, ela ficava a dançar até de madrugada; mas, se a festa era sensaborona, Luísa sentia-se indisposta e Tom via-se obrigado a levá-la para casa mais cedo. Receei, pois, que a minha réplica lhe não tivesse agradado, pois, concedendo-me, embora, um sorriso, nenhuma satisfação mostrou nos grandes olhos azuis.

 

─ “Não há de querer que eu caia morta só para lhe dar esse prazer,” ─ foi a sua resposta.

 

Luísa sobreviveu ao marido, que adoecera mortalmente em certo dia por causa de um resfriamento apanhado quando passeavam de barco à vela; Luísa, nessa ocasião, tinha-se apoderado de todas as mantas e cobertores a fim de se preservar do frio. Tom deixou-lhe uma filha e abundante soma de haveres. A viúva parecia inconsolável. Considerar-se-ia milagre se ela pudesse resistir à comoção, e os parentes e conhecidos calculavam que iria em breve reunir-se ao marido na sepultura. Íris, a filha, era já considerada órfã de pai e mãe e todos a lastimavam bastante. Quanto a Luísa, redobravam os cuidados para com ela; não a deixavam mexer-se sequer, insistindo por que experimentasse o possível para atenuar o desgosto. Pensavam que, se ela fizesse qualquer coisa que a aborrecesse mais ou a fatigasse, o coração fatalmente lhe rebentaria. Ela, por seu lado, declarava que estava perdida sem remédio visto não ter um homem para a tratar; nem sabia como, assim de saúde tão delicada, poderia educar a sua querida Íris. Os amigos perguntaram-lhe por que motivo se não tornava a casar. Oh, com o coração naquele estado, não se punha semelhante problema… ainda que ela tivesse a certeza de que Tom a desculparia e de que, para a filha, isso representava a melhor solução. Mas quem desejaria ligar-se a uma doente sem esperança, como ela? Aconteceu, todavia, a singular circunstância de mais um jovem se achar pronto a tomar esse encargo; e, um ano depois da morte de Tom, Luísa consentiu que Jorge Hobhouse a acompanhasse ao altar. Jorge era um rapaz aprumado, bem parecido, e não estava muito mal de finanças. Nunca vi ninguém mais reconhecido do que ele, ─ só pelo privilégio de ser autorizado a cuidar daquela criaturinha frágil.

 

─ “Não te incomodarei durante muito tempo,” observou ela.

 

O marido era militar e cheio de ambições, mas renunciou a tudo. A saúde da mulher obrigava-o a passar o inverno em Monte Carloe o verãoem Deauville. Hesitara um pouco em desistir da sua carreira. Luísa, a princípio, não queria ouvir falar em semelhante coisa; mas, por último, rendeu-se ao facto, como sempre sucedia, e Jorge preparou-se para tornar os derradeiros anos da sua cara metade tão venturosos quanto possível.

 

─ “Não será por muito tempo,” volveu ela. “Procurarei não te ser incómoda.”

 

Durante os dois ou três anos que se seguiram, e não obstante a fraqueza do coração, Luísa arranjou maneira de ir a todas as festas, sempre muito bem vestida. Jogava forte, dançava, e até se distraía com outros homens do seu agrado. Jorge Hobhouse não tinha a fibra do primeiro marido de Luísa e, para compensar o seu trabalho de segundo esposo, entregava-se, de vez em quando, a um pouco de bebida. É possível que esse hábito tendesse a enraizar-se, embora com a reprovação de Luísa, mas felizmente (para ela) a guerra estalou. Jorge reuniu-se ao regimento a que pertencera, e encontrou a morte no campo de batalha três meses depois. Foi grande a dor que a mulher sentiu; em semelhante conjuntura, não quis desgostar os outros com as suas próprias mazelas: se teve ataques cardíacos, ninguém ouviu falar de tal. Para se distrair e atenuar o desgosto, transformou a sua villa de Monte Carlo num hospital destinado à convalescença dos oficiais. Os amigos diziam que tamanho esforço lhe apressaria sem dúvida a morte.

 

─”Com certeza que isto me vai matar,” confirmou Luísa. “Bem o sei. Mas que importa? Faço o meu dever.”

 

(Continua)

Leave a Reply