Um poema do século XVII sobre a História de Olivença – por Carlos Luna

 

 

Um poema do século XVII sobre a História de Olivença

     por Carlos Luna

( Publicado no Estrolabio em 17-07-2010)

 

 

O latinista espanhol Juan Garcia Gutierrez, de Zafra, publicou um interessante trabalho sobre o que sucedeu em

Olivença em 1658, quando os oliventinos, ocupada a sua cidade pelas tropas de Filipe IV, abandonou a povoação e se refugiou em terras controladas pelo rei português Afonso VI, só regressando quando a praça voltou a mãos portuguesas em 1668.

 

 Foi então escrito um poema em Latim pelo jesuíta P. Jerónimo Petruci, professor de Retórica, que surgiu recentemente publicado no livro “Memórias analíticas da vila de Estremoz”, de T. Fonseca…um manuscrito do século XVIII que só foi publicado em 2003, pela Câmara Municipal de Estremoz, sob responsabilidade da historiadora Teresa Fonseca.

 

O poema revelava-se difícil de traduzir. Impossível, mesmo. O latinista espanhol foi verificar o manuscrito, e, com uma alteração, “descobriu a pólvora”. Onde se pensava ler “certarum”, deveria ler-se “certatum”. Eis o poema em latim:

 

DE URBE OLIVENTIA CAPTA

 

Quas tibi Palladias, Alfonse, Philippus olivas

 abstulit incolumes has tibi Pallas alit.

 Perfidae et fidei CERTATUM est robore, portas

 perfidia intravit, corda fides tenuit.

 

Omnibus in patria manendi est facta potestas:

 ullum captivum mansit in orbe caput.

 Victrices Aquilas defixit in arce Philipus;

 Lusiadum, Alfonse, in pectore fixus ades.

  

Victor uterque fuit, victoria dividit urbem:

 Alfonsus cives; saxa Philippus habet.

  

 

O latinista chama a atenção para o facto de Palas (Minerva) ser a deusa da Guerra defensiva e também a criadora da Oliveira, na Mitologia. Logo, as “oliveiras de Palas” são… a cidade de Olivença!

 

Filipe é Filipe IV de Espanha, e Afonso é Afonso VI de Portugal. A deusa Palas consentiu que Filipe se apoderasse da cidade, mas também ofereceu a Afonso a lealdade dos seus habitantes. Apesar de ter sido dito aos oliventinos que, se ficassem, tudo conservariam, só trinta o aceitaram. Cerca de cinco mil atravessaram o Guadiana. Por isso, embora as insígnias espanholas sejam colocadas em Olivença (as águias), a imagem de Afonso VI “flameja” nos corações dos súbditos de Olivença. Para o Rei de Espanha, ficavam os muros de pedra. O Latinista afirma que “está claro que os oliventinos, naquele momento, se sentiram portugueses de pura cepa, irrenunciavelmente lusitanos”.

 

Refere também o regresso dos habitantes em 1668, ao ser reposta a administração portuguesa.

 

Trata-se do mesmo autor que prefaciou o livro de 2005 “Olivenza, las razones de España”, por mim criticado no artigo “Argumentos pouco sérios”. Penso que muitos destes “opinadores” não têm muitas vezes noção do que o seu tipo de comentários ligeiros podem significar. Não o fazem por mal… o que não obsta a que sejam criticados, pois já é altura de procurarem ter uma visão mais universal e abrangente de História. Aqui vai a tradução… em Português e em Castelhano:

 

 A TOMADA DA CIDADE DE OLIVENÇA

 

As oliveiras de Palas, Afonso, que Filipe te arrebatou,

 guarda-as Palas para ti, intactas.

 Combateu-se com as forças da traição e da lealdade:

 a traição cruzou as portas, mas a lealdade manteve os corações fiéis.

 

A todos se lhes deu a possibilidade de ficar na pátria (cidade),

 mas nenhum permaneceu cativo no recinto urbano.

 Filipe cravou no torreão as suas águias vitoriosas;

 mas tu, Afonso, estás cravado no peito dos portugueses.

 

Cada um ficou vencedor, a vitória fez a divisão da cidade:

 Afonso obtém os cidadãos, Filipe os muros de pedra.

 

 

 Finalmente, o texto em castelhano, da autoria do Latinista Juan García Gutiérrez:

 

LA TOMA DE LA CIUDAD DE OLIVENZA

 

Las olivas de Palas, Alfonso, que te arrebató Felipe,

 Las guarda para ti Palas, intactas.

 Se combatió con las fuerzas de la trición y de la lealdad:

 la traición cruzó las puertas, pero la lealdad mantuvo fieles los corazones.

 A todos se les dio la posibilidad de quedarse en la patria (ciudad),

 

Pero nadie permaneció cautivo en el recinto urbano.

 Felipe clavó en el torreón sus águilas victoriosas;

 pero tu, Alfonso, estás clavado en el pecho de los portugueses.

 Cada uno resultó vencedor, la victoria hizo el reparto de la ciudad:

 

Alfonso obtiene los ciudadanos, Felipe los muros de piedra.

   

 

Para finalizar, resta-me agradecer, com a máxima sinceridade, este trabalho de recuperação.

 

 ________________

 

 

Carlos Eduardo da Cruz Luna, nasceu em 1956 em Lisboa, de forma perfeitamente acidental, como faz questão de salientar Oriundo de uma família de Estremoz, é nessa cidade alentejana onde vive e ensina. Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é Professor de História, há 32 anos. No período que se seguiu à Revolução de Abril militou no MES. Ao longo da sua vida, tem-se batido por causas que considera justas, desde a liberdade para a Birmânia até aos Direitos do Povo Curdo ou a independência do Sara Ocidental, desde a ecologia até ao desenvolvimento sustentado de Portugal… e entre essas causas privilegia a da restituição de Olivença a Portugal. É de sua autoria o livro “Nos Caminhos de Olivença”. Assumindo-se como um regionalista alentejano, visita quase semanalmente Olivença, onde tem muitos amigos e alguns não-amigos., acrescenta. Continua a estudar o território usurpado, apoiando iniciativas que visem a recuperação das antigas História e Língua.

A sua opinião sobre a questão de Olivença é de que esta tem muitas semelhanças com o diferendo que o estado espanhol mantém com o Reino Unido acerca de Gibraltar. Porém enquanto os espanhóis aproveitam todas as oportunidades para debater a questão de Gibraltar, “o Estado Português não fala em Olivença, é quase uma posição clandestina”. É, por isso, uma luta difícil. Mas lutar por uma causa que considerou sempre justa é uma questão de princípio.

 

 

Leave a Reply