Nota de leitura em forma de um bilhete-postal que aos ministros das Finanças e da Economia podia enviar se a crise esses custos não me obrigasse a ter que os poupar. Texto do Le Monde, Économie, de Anne Rodier e Adrien de Tricornot. Por Júlio Marques

(Continuação)

 

O regresso da recessão pode ser evitado?

 

Le Monde, Economie, 6 de Setembro de 2011

 

O Verão arruinou a esperança de uma verdadeira retoma ao nível da economia. As políticas efectuadas até agora foram ineficazes: as lições da crise de 2008 não foram tiradas. Na origem da recessão e do aumento das tensões, sete principais pistas de reflexão são aqui consideradas…

 

1 – A contracção da economia tornou-se o principal risco

 

A recessão nos Estados Unidos, tal como nos países europeus, vai ela voltar? A agência de notação Standard & Poor’s (S&P) teme-o no que diz respeito à Europa. “O risco aumentou, analisa Jean-Michel Seis, chefe economista para a Europa de S & P, porque deixa de haver margem para o crescimento não apenas na periferia mas também no próprio centro da zona euro, nomeadamente na Alemanha e na França.”


No segundo trimestre, a França já tinha registado um crescimento do produto interno bruto (PIB) nulo e a Alemanha um crescimento de 0,1%, indica a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económicos (OCDE), no final de Agosto.


Nos Estados Unidos, o endurecimento prematuro da política orçamental contido no acordo entre republicanos e democratas, assinado a 31 de Julho, como condição prévia para o aumento do tecto da dívida a 2 de Agosto, introduziu dúvidas sobre a retoma americana, já de si delicada.


Aos insucessos do Verão por conseguinte sucedeu um lote de correcções quanto a previsões de crescimento do PIB. A S&P publicou, na terça-feira 30 de Agosto, as suas revisões em baixa para o conjunto da zona euro, incluindo a Alemanha. E o Fundo Monetário Internacional (FMI) deverá fazer o mesmo no seu relatório de 20 de Setembro sobre as previsões de crescimento para 2011 e 2012, mesmo para os Estados Unidos.


A retoma além-Atlântico anuncia-se anémica com um crescimento agora esperado de 1,6% para 2011 e 2% para 2012, contra 2,5% e 2,7% anteriormente previstos, de acordo com números publicados pela agência de imprensa italiana Ansa, que os obteve numa versão preliminar do relatório que virá a ser publicado.


Sobre o conjunto da zona euro, o crescimento do PIB não atingiria mais do que 1,9% em 2011 (contra 2% anteriormente), e 1,4% em 2012 (contra 1,7%). Na França, a sua progressão será colocada em 1,8% (contra 2,1%) para 2011, e 1,6% (contra 1,9%) para 2012. Só a previsão para 2011 da Alemanha é mantida em 3,2%, mas passará de 2% para 1,6% para 2012.


O Banco Central Europeu (BCE) registou, em Julho, uma redução na variação dos créditos ao sector privado pelo segundo mês consecutivo na zona euro (em 2,4%, contra 2,5% em Junho). O nervosismo dos bancos estaria então de regresso?


“E a situação poderia agravar-se quanto ao crescimento, na medida em que o consumo das famílias da zona euro inverte a sua tendência e tende para a baixa”, prossegue o alto funcionário da S&P. Em 2010, as famílias já tinham bem gasto a partir da sua própria poupança.


Na Grécia, o primeiro país a ver aplicado um importante plano de rigor em Maio de 2010, os depósitos nos bancos foram reduzidos em mais de 20% desde Setembro de 2009. “Hoje, para manter um mínimo de poupança de precaução, as famílias da zona euro devem cortar no seu próprio consumo”, nota o mesmo director regional da S&P.

 

2. Os planos de austeridade reprimem o crescimento e agravam a crise

 

Neste contexto, os planos de austeridade que se multiplicam na Europa poderiam reforçar o risco de recessão.

 

A Grécia, a Espanha, a Itália, o Reino Unido e a França escolheram a política de austeridade para corrigir o seu desequilíbrio orçamental, tentando mais ou menos poupar a procura, a fim de não afectar muito o consumo das famílias. No entanto, o impacto no crescimento corre o risco de ser considerável. Em primeiro lugar em função da forma como estas curas de austeridade são efectuadas. “A transparência da sua aplicação é capital, explica a S&P. Pior seria deixar os consumidores na incerteza, como acaba de o fazer a Itália (que adoptou a 14 de Agosto um novo plano de austeridade de cerca de 50 mil milhões de euros daqui até 2014) anunciando primeiro a criação de uma taxa sobre os elevados rendimentos e, depois, a sua anulação. A falta de visibilidade sobre as suas despesas futuras incita então as famílias a uma poupança de precaução que reduz assim e na mesma proporção o consumo o que, portanto, limita o próprio crescimento”, alerta.


Mas a variável chave é o que os economistas chamam “o multiplicador”, que permite calcular o impacto de uma redução da despesa pública no crescimento.


Por outras palavras, de quanto 1 euro de baixa no orçamento vai provocar de baixa na riqueza económica do país. “O valor deste multiplicador varia de acordo com quatro parâmetros”, indica Eric Heyer, director associado no Département analyse et prévision de l’Observatoire français des conjonctures économiques (OFCE).


Primeiramente, é mais ou menos importante conforme as políticas de rigor seguidas pois diminuem com as políticas assentes na variação das despesas (emprego público, salários) ou aumentam com as políticas assentes na variação das receitas. De acordo com os keynesianos, quanto mais se actua sobre a despesa mais os multiplicadores são fortes.


Em segundo lugar, a simultaneidade dos planos de austeridade aumenta o valor dos multiplicadores. Os terceiros e quartos parâmetros são a eficácia da política monetária e a conjuntura.


“Ora a maioria das políticas de austeridade é muito orientada para obter a redução das despesas; estas são efectuadas simultaneamente no conjunto da zona euro, enquanto as baixas de taxas do Banco Central Europeu em 2009 continuaram a ser ineficazes dado que não fazem aumentar o crédito; e a economia da zona euro está na parte inferior de ciclo, explica Heyer. Nestas condições, o multiplicador é estimado em 1,8. O que significa que 12 mil milhões de euros de economia sobre o orçamento (como o prevê o plano francês daqui até 2012) traduzir-se-á em 21,6 mil milhões de euros de redução da actividade, ou seja, 1 ponto de PIB a menos para a França em 2012.”


O objectivo de redução dos défices significa neste contexto matar o crescimento antes de este se iniciar, ou seja significa dar cabo do ovo ainda no cú da galinha, diríamos. A factura da política de austeridade deverá retirar 2 pontos de crescimento ao país mais atingido, a Grécia, de acordo com os cálculos de Exane BNP Paribas.

 

3 – A paciência dos cidadãos aproxima-se dos seus limites

 

Até que ponto esta austeridade, que vai agravar os problemas de crescimento e de emprego, será suportada pelas populações? As medidas já entradas em vigor aqui e noutros países da zona euro, a cortarem nos salários dos funcionários e nas pensões de reforma, na Espanha e na Grécia, por exemplo, ainda não mostraram a sua eficácia quanto à correcção da situação da economia.


Pelo contrário, a queda no crescimento do PIB em 2008 e 2009 afectou de modo douradouro o mercado de trabalho. No conjunto da zona euro, a taxa de desemprego estabilizou-se desde há um ano mas a um elevado nível: 10 %.


O desemprego de longa duração aumenta na França como nos Estados Unidos, onde Barack Obama deverá anunciar um plano de acção na segunda-feira, 5 de Setembro. E o desemprego dos jovens degrada-se particularmente.


Na Espanha, a taxa de desemprego dos menos de 25 anos era de 46,2% em Julho. Quanto à Grécia, este país conheceu o mais forte aumento do desemprego da zona euro desde há um ano com uma taxa que ascende a 38,5% nos jovens. As populações não vêem hoje nem o fruto dos seus esforços nem o horizonte de uma saída de crise. Não é por conseguinte de espantar que as vagas de protesto se multipliquem.


O movimento dos “Indignados”, nascido na Espanha em meados de Maio, espalha-se por toda a parte na Europa e na Grécia nomeadamente, onde uma grande manifestação estava prevista nas ruas da capital no sábado, dia 3 de Setembro.


Estes contestatários não acreditam na eficácia dos planos de austeridade e não querem pagar a factura de uma crise da qual não se consideram responsáveis.


Em meados do Verão, a 6 de Agosto, foi no Reino Unido que explodiram os motins. As violências que tinham começado em Tottenham, um bairro desfavorecido do norte de Londres, estendeu-se a várias cidades do país durante quatro dias.


“À primeira vista, não há nenhuma relação entre os “Indignados” espanhóis e a revolta dos subúrbios britânicos, explica Claude Emmanuel Triomphe, cofundador da l’Association travail emploi Europe société (Astrees), sobre o seu sítio de informação Metiseurope.eu. E no entanto, existe uma relação, um elemento comum. Porque todos significam uma recusa maciça do que as nossas sociedades construíram socialmente nas últimas décadas, qualquer que seja a cor política dos diversos governos em exercício.”


A crise de confiança nas políticas acresce de facto um travão suplementar à correcção da situação económica.

 

(Continua)

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