por Rui Oliveira
1. A temporada na Fundação Gulbenkian arranca finalmente, quer no ciclo dedicado às mais importantes oratórias de Joseph Haydn, quer no chamado ciclo da “música antiga”, com dois bons espectáculos.
Num, o jóvem maestro letão Ainars Rubikis (vencedor do Concurso Gustav Mahler de 2010, em Bamberg) dirigirá a Orquestra e o Coro Gulbenkian no seu Grande Auditório a 29 (Quinta, às 21h) e a 30 de Setembro (Sexta, às 19h). No programa A Criação / Die Schöpfung, Hob.XXI:2 , oratória de Haydn onde os solistas serão a soprano alemã Ruth Ziesak, o tenor inglês Robert Murray e o baixo inglês Neal Davies.
No outro, o celebrado (até pela Cose fan tutte da passada temporada) maestro René Jacobs vem dirigir a Freiburger Barockorchester na versão de concerto da ópera La finta giardiniera K. 196 de W.A.Mozart (em alemão Die verstellte Gärtnerin ). Será no Domingo 2 de Outubro no Grande Auditório, às 19h.
Sendo uma das óperas menos conhecidas de Mozart, foi estreada em Munique em 1773 mas logo abandonada após a terceira apresentação. Tem a particularidade de o primeiro Acto da versão original se ter perdido até 1978 quando foi encontrado numa biblioteca da Morávia. Cantam-na as sopranos belga Sophie Karthäuser, búlgara Alexandrina Pendatchanska, sul-coreana Sunhae Im, a meio-soprano suiça Marie-Claude Chappuis, os tenores inglês Jeremy Ovenden e norte-americano Jeffrey Francis e o baixo húngaro Michael Nagy.
2. A celebração anual do Dia Mundial da Música a 1 de Outubro, já assinalada pelo concerto/ópera da Gulbenkian, tem expressão variada nos principais palcos da capital (e não só…). Vejamos pois.
O Centro Cultural de Belém oferece, na sua Sala Luís de Freitas Branco, às 21h, o primeiro concerto da temporada promovido pelo seu ensemble em residência DSCH Schostakovich Ensemble reunindo, no mesmo palco, dois conceituados instrumentistas actuais, o clarinetista Michel Portal e o violetista Gérard Caussé, em duos e trios com o pianista Filipe Pinto-Ribeiro (director do DSCH). Do programa constam :
W.A.Mozart – Trio para clarinete, viola e piano, K.498, Kegelstatt
Francis Poulenc – Sonata para clarinete e piano
Franz Schubert – Sonata para arpeggione e piano, D.821 (trans. pª viola)
Max Bruch – 5 Peças para clarinete, viola e piano, op.83
No mesmo CCB, no Grande Auditório às 21h, Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti divulgam o recente álbum da sua colaboração entre um fadista de sucesso e uma já reconhecida estrela do jazz português.
O Teatro Nacional de São Carlos, prosseguindo o ciclo “Viagens na minha terra I”, realiza no seu Salão Nobre, às 18h, um Concerto para Cordas pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, sob a direcção musical de Margaret Faultless, cujo programa inclui :
Felix Mendelssohn – Sinfonia n.º 4 para cordas, em Dó menor
Joly Braga Santos – Nocturno para orquestra e cordas
Wolfgang Amadeus Mozart – Divertimento em Ré Maior, K. 136
Dimitri Chostakovitch – Sinfonia de câmara para orquestra e cordas, op. 110ª
A Culturgest traz ao Palco do seu Grande Auditório, às 18h, dois jovens mas já consagrados músicos espanhóis Adolfo Gutiérrez no violoncelo e Luis Fernando Pérez no piano.
No seu programa ecléctico figuram :
Robert Schumann – Fantasiestücke, op. 73, versão para violoncelo e piano (Zart mit Ausdruck /Com amor e com expressão; Lebhaft, leicht /Com vida, com leveza; Rasch und mit Feuer /Rápido e com fogo)
Samuel Barber – Sonata para violoncelo e piano, op. 6 (Allegro ma non troppo; Adagio. Presto. Adagio; Allegro appassionato)
Sergei Rachmaninov – Sonata para violoncelo e piano em Sol menor, op. 19 (Lento. Allegro moderato; Allegro Scherzando; Andante; Allegro Mosso )
Astor Piazzolla – Le Grand Tango
Também a Orquestra Metropolitana (Dir.: Cesário Costa) organiza em colaboração com a EGEAC o seu programa de celebrações Música nas Praças, onde participam não só os “seus” Quarteto de Percussões e Violinos da Metropolitana, como conjuntos tais Coro Juvenil de Lisboa, Coro Sinfónico Lisboa Cantat, Grupo Coral da Carris, Out of Nowhere Jazz Trio e bandas como a Banda da Sociedade Filarmónica União e Capricho Olivalense, a Banda da Sociedade Recreativa Musical Trafariense e a Banda de Música dos Empregados da Carris.
Actuarão por toda a cidade, vide Largo de São Carlos (15h, 19h30, 22h), Museu do Chiado (15h, 16h30, 18h), Ruínas do Carmo (17h30, 19h). Ver pormenor programático em :
http://www.metropolitana.pt/Outubro-2011-1554.aspx
3. Na Culturgest, a 29 (Quinta) e 30 (Sexta) de Setembro, no Grande Auditório às 21h30 o espectáculo de dança Romance-s “alimenta-se da experiência amorosa para dar a ver um trajecto que circula através dos territórios do casal e da dança, um e outro votados a imbricar-se, transformar-se e questionar-se, e propõe uma leitura da relação entre corpos, esse espaço comum ao amor e à dança.” Esta Compagnie 7273, que já estivera neste palco em 2006, é devida ao conceito, coreografia e interpretação de Laurence Yadi e Nicolas Cantillon, com figurinos de Olga Kondrachina e Philippe Combeau.
4. No Teatro Maria Matos, a 30 de Setembro (na Sala Principal, às 22h), Joana de Sá mostra o seu disco/filme Through this looking glass, lançado em Março deste ano na editora alemã Blinker – Marke für Rezentes, que surpreende pela dimensão da aventura, técnica e multidisciplinarmente irrepreensível, pouco normal para primeira obra. “Fundamentalmente composta para piano preparado, … ganha companhia, cor e calor com a introdução parasitária de eletrónica ou objetos, acabando por se materializar com recurso a uma dramaturgia cénica e performativa visualmente hipnotizante, fruto de um extenso e apurado trabalho colaborativo — de onde se destaca um notável trabalho vídeo de Daniel Neves.
5. Por último, chamamos a atenção para algumas conferências/debate de acesso livre, cuja frequência poderá ser estimulante neste período de procura necessária de alternativa para as soluções actuais que manifestamente fracassaram.
a) Assim, quem assistir na Culturgest na Segunda 26 de Outubro (às 18h30) – e nas três Segundas seguintes – às conferências NÃO GOSTO… ouvirá (e discutirá) de Jorge Silva Melo os seus motivos de crítica aos diversos intervenientes no panorama cultural nacional. “Não gosto dos críticos que temos (e dos que tivemos?), não gosto dos programadores-autores (que temos e teremos?), dos ministros, directores-gerais sempre nomeados que nem Sísifos e a refazer leis que nem Penélope eliminando pretendentes, não gosto…. E que deixaram? Apetece-me lembrar-me dos seus percursos (alguns), das suas promessas, das suas derrotas, das suas ilusões, dos seus fracassos. E dizer que não gosto, não gosto mesmo nada, não gostei nem gosto….”
b) Quem se deslocar à Fundação Gulbenkian (Aud.2) a 30 de Outubro (Sexta, a partir das 9h) para o colóquio “Economia Portuguesa Uma economia com futuro”, ouvirá logo na Sessão de Abertura Economia para quê e para quem? reconhecer que “… estão em crise o modelo de desenvolvimento global do ponto de vista da sua sustentabilidade ambiental, social e política, assim como o tipo de “ciência económica” que advogou a viragem para o predomínio dos mercados sem controlo, sobretudo os financeiros, em todas as esferas da vida colectiva” e que urge “ fazer regressar à Economia os referenciais da ética e os contributos de outras ciências sociais”. Após exposições (sujeitas a réplica) de, entre outros, José Castro Caldas, João Ferreira do Amaral, João Rodrigues, Ulisses Garrido, José Reis, Manuela Silva, debater-se-á , como encerramento, Que agenda para o futuro ?.
c) Quem ainda comparecer no Auditório do Oceanário de Lisboa a 26 de Setembro (Segunda, das 18-20h) ouvirá mais uma iniciativa Construção Sustentável do ciclo “Human Habitat” da Agência Portuguesa de Ambiente que focará o tema da agricultura urbana, a qual “…pode contribuir para assegurar uma adaptação adequada às mudanças que já estão a afectar os habitantes das cidades, contribuindo para a segurança alimentar, para o combate à pobreza e para o capital social das comunidades, ao mesmo tempo que atenua o efeito ilha de calor, aumenta a infiltração e a redução da escorrência das águas pluviais, tornando as cidades mais atrativas, confortáveis e salubres.”
Cristina Ferreira (LIPOR) divulga aí, abrindo à inscrição, o projecto de referência “Horta à Porta” (estímulo à resiliência urbana) já em prática, que gere um conjunto de hortas biológicas que têm contribuido para a saúde e subsistência dos cidadãos que nelas participam, bem como para o fortalecimentos das redes sociais das comunidades envolvidas.
Cordas sobresselentes
No teatro algumas peças encetam carreira sobre textos promissores, outras prosseguem-na. Realçaríamos, pelo trajecto das companhias, as seguintes :
− No Teatro da Trindade, de 28 de Setembro a 2 de Outubro (às 21h45) na Sala Estúdio a peça “Sósia” do dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt “faz uma reflexão filosófica sobre a justiça” numa encenação de Lígia Roque, com interpretação de Daniel Pinto, Daniela Vieitas, Joana Carvalho, João Castro e Sara Carinhas.
− Na Casa Conveniente, de 28 de Setembro a 2 de Outubro (as 20h/22h30) representa-se “Recordações de uma Revolução”, espetáculo com autoria, encenação, espaço cénico e luz de Mónica Calle, interpretação de Mário Fernandes, Mónica Calle e René Vidal e participação especial de Crew Inconveniente. Tema : “…emissários da Convenção Francesa, chegam à Jamaica com uma missão: “uma revolta de escravos contra a soberania da coroa britânica em nome da República de França. Que é a pátria da revolução, o pavor dos tronos, a esperança dos pobres. Na qual todos os homens são iguais sob o machado da justiça. Que não tem pão para aplacar a fome às massas, mas mãos em número suficiente para levar o estandarte da liberdade, igualdade, fraternidade a todos os países.“
− No Teatro do Bairro, de 4ª a Sáb. às 21h, prossegue até 22/10 “Comédia de Desenganos” de Luisa Costa Gomes, com encenação de António Pires e interpretação de Alexandra Rosa, Francisco Tavares, Graciano Dias, João Araújo, João Barbosa, João Cabral, Rita Brütt, Sandra Santos e Solange Santos. Depois dum regresso ao imaginário de Shakespeare na reinterpretação da autora, fecha-se aqui um ciclo de 3 peças “sobre a ilusão e o jogo de enganos e sobre a própria arte de representar e fazer (um) Teatro”.
− No Teatro Cinearte, às 21h30, continua a recente produção do Teatro A Barraca “Dª Maria, a Louca”, com texto de Antônio Cunha, direção plástica, cenografia e figurinos de José Costa Reis, interpretação de Maria do Céu Guerra e participação de Adérito Lopes. Tema : “… Em Fevereiro de 1808 a Corte Portuguesa chega à Baía de Guanabara. O Principe Regente não autoriza o desembarque imediato de sua mãe a rainha louca. D. Maria é durante dois dias uma rainha fechada no mar e passa em revista o casamento, a morte do filho, a sujeição à igreja, tudo o que foi a sua acção pública e privada e assusta-se com a chegada a uma terra que viu nascer e morrer Tiradentes o único homem sobre o qual ela usou o seu direito de “mandar matar”.”
Na música o Museu Nacional do Azulejo apresenta a 27 e 28 de Setembro (às 21h30), no âmbito do “Festival Rota das Artes”, um concerto de música clássica e de jazz interpretado pelo reconhecido grupo vocal a capella “Swingle Singers” existente desde 1962 em Paris.
O espectáculo, especialmente concebido e coreografado para o espaço da Madre de Deus e claustros do Museu, tem no programa :
M. de Falla, Nana ‘Lullabye’; Corelli, Concerto Grosso ; J. S. Bach, Fugue in D Minor, Liebster Jesu, Badinerie ; Bjork, Unravel ; N. Drake, River Man ; Turkish Trad, Gemiler Giresune ; A. Piazolla, Libertango ; Donnizetti, ‘Diva Aria’ ; Elbow, Weather To Fly ; Traditional/Spiritual, Poor Wayfaring Stranger, Amazing Grace e Lennon/McCartney, Lady Madonna
Já a 2 de Outubro (Domingo, às 21h) no Coliseu dos Recreios Peter Murphy, líder dos míticos Bauhaus e herdeiro da sua música independente, divulga o seu recente álbum Ninth.
Nas artes visuais chama-se por fim a atenção para a exposição “Aparições” – A fotografia de Gerard Castello-Lopes (recentemente falecido), inaugurada a 23/9 (até 30/12) que pode ser visitada gratuitamente no espaço BES Arte & Finança, na Praça Marquês de Pombal, nº 3, todos os dias úteis, das 9h00 às 21h00.
Comissariada por Jorge Calado, a mostra expõe provas vintage, e cerca de meia centena das peças são imagens inéditas, todas da coleção da família. A exposição é completada por uma série de retratos de Gérard Castello-Lopes por outros fotógrafos (Augusto Cabrita, Carlos Afonso Diias, José M. Rodrigues, etc.) e por um conjunto de objetos pessoais (câmaras fotográficas, livros, discos, agenda, etc.).
“A Pedra” (1987) Claro-escuro característico de Castello-Lopes
Até para a semana, caros leitores, agora que a temporada começa a aquecer !…








