OS HOMENS DO REI- 24 – por José Brandão.

D. FERNANDO (reinou de 1367 a 1383)

 

D. Fernando tinha todas as condições para governar sem sobressaltos, mas a sua fogosidade amorosa e física fizeram que o seu reinado tivesse passado por momentos difíceis.

 

A adversidade amorosa parecia perseguir praticamente todos os nossos monarcas. A esta sina não escapou D. Fernando, ainda mais sendo reconhecidamente o Formoso.

 

Formoso ou não, o facto é que o outro lado da sua personalidade se liga ao sexo feminino. Os casamentos negociados mas não realizados com princesas de Aragão e de Castela constituem aspectos da sua política estrangeira de tristes resultados.

 

D. Fernando envolve-se em guerras com Castela. Os exércitos, de um e de outro lado invadem terras e saqueiam povoações. O conflito termina em Março de 1371, pelo Tratado de Alcoutim, com intervenção de enviados do papa e com a cláusula de se realizar o casamento de D. Fernando com D. Leonor de Castela. Para selar o contrato, aceita a mão de D. Leonor, filha do rei de Castela e esquece o compromisso de casar com a filha do rei de Aragão, também Leonor. Mas não casaria, nem com uma, nem com outra. Uniu-se com Leonor Teles, casada com João Lourenço da Cunha, muito bonita, intriguista, infiel e capaz de todos os actos mais desleais para satisfazer os seus caprichos. D. Fernando conseguiu que o papa anulasse o casamento para ele poder casar com Leonor Teles no Mosteiro de Leça.

 

Vendo-se rainha, a ambiciosa Leonor Teles tratou logo de encher a Corte com mesquinhas intrigas e de esvaziar os cofres reais com os seus gostos e gastos, faustosos e caprichosos.

 

A revolta popular vai fermentando com o crescente desagrado perante tamanhos desvarios. Todos diziam que em vez de D. Fernando ter tomado por mulher a esposa de um seu vassalo, deveria ter escolhido uma filha de rei.

 

Nem o descarado romance que Leonor Teles mantinha nas costas de D. Fernando com o conde Andeiro demoveu o rei. Sabendo-o ou não, o que parece impossível pelas proporções carnais que a relação atingiu, D. Fernando tudo ia ignorando e perdoando, num suplício interior que contribuiu para a sua morte prematura.

O povo nunca perdoou a Leonor Teles, e ela mandou torturar e enforcar os contestatários dos quais se salienta o alfaiate Fernão Vasquez.

 

D. Fernando, apesar da sua fraqueza amorosa, não descurava os interesses do Estado. No mesmo ano do casamento envia a Inglaterra, João Fernandes Andeiro, negociar a Aliança Luso-Britânica pelo Tratado de 16 de Junho de 1373.

 

Apesar de inconstante e fraco de palavra, D. Fernando era um homem muito inteligente e bom administrador.

D. Fernando aperfeiçoa o exército, manda construir castelos e muralhar Santarém, Óbidos, Coimbra, Viana, Leiria, Alenquer, Évora, Lisboa e Porto.

 

O rei Henrique, de Castela, morre mas D. Fernando, como um português teimoso e insensato, pede auxílio aos ingleses e resolve atacar Badajoz. D. João I de Castela cerca Elvas e destrói, em Saltes, a armada portuguesa.

Chegam os ingleses mas, em vez de ajudarem, começam a saquear todas as terras por onde passam. Os Portugueses, em vez de um inimigo, passaram a ter dois. Aparece, entretanto, pela primeira vez, D. Nuno Álvares Pereira que consegue suster as investidas no Alentejo e moderar os ímpetos dos soldados ingleses.

 

Em 2 de Abril de 1383, em Salvaterra de Magos, no próprio ano da sua morte, D. Fernando confirmava o pacto que fizera com D. João I de Castela. No trato ficava ajustado que, se D. Fernando tivesse um filho varão, este seria o herdeiro do reino, caso isso não acontecesse, o mesmo pertenceria a sua filha Beatriz. Se D. Beatriz e D. Fernando morressem sem filhos, herdaria Portugal o rei de Castela. Caso o rei de Castela e sua irmã morressem sem sucessores, o reino de Castela pertenceria ao rei de Portugal. E ainda se D. Beatriz não tivesse um filho com mais de catorze anos, o reino de Portugal seria governado pela rainha D. Leonor.

 

Explicando isto com toda a simplicidade: os reis eram donos dos países que governavam. À sua morte podiam entregá-los a quem entendessem. Não era falta de patriotismo, era o costume. Todo o território governado pelo rei pertencia-lhe a ele e aos familiares. Mesmo que os povos fossem diferentes, eles pensavam que ficando tudo em família, ficariam mais protegidos.

 

Ninguém imaginava que o rei D. Fernando morresse nesse mesmo ano. Herdou a coroa D. Beatriz. Ficou Regente Leonor Teles.

 

Leonor Teles demite, os judeus, de todos os cargos públicos, julgando assim cativar os portugueses, mas estes não lhe perdoaram a sua conduta anterior e o carinho com que tratava o amante e conselheiro, o fidalgo galego João Fernandes Andeiro, que fizera conde de Ourém.

 

Ao ser proclamada rainha D. Beatriz, o povo sente que pode ficar sob o domínio de Castela. Em Lisboa, os homens mais instruídos: o antigo chanceler Álvaro Pais, Lopo Vasques, D. João Afonso Telo, irmão de Leonor Teles, Vasco Lourenço, Fernão Álvares, Nuno Álvares Pereira tentam alertar a população para o perigo iminente que a Pátria corre.

 

Começa-se a pensar quem devia ser o rei escolhido. Aponta-se D. João, Mestre de Avis, que era filho bastardo de D. Pedro e de D. Teresa Lourenço.

 

A intuição de Leonor Teles deve-lhe ter murmurado que o perigo soprava daquele lado e envia o jovem fidalgo como fronteiro para a raia do Guadiana. D. João finge que aceita mas volta ao Paço, estávamos a 6 de Dezembro de 1383. Encontra João Fernandes Andeiro com Leonor Teles. Chama-o de parte e apunhala-o.

 

Pela cidade espalha-se a notícia que querem matar o Mestre. O povo acorre em massa e o Mestre de Avis é

aclamado Regedor e Defensor do Reino.

 

Nuno Gonçalves de Faria e João Fernandes de Andeiro foram homens do rei D. Fernando.

 

Nuno Gonçalves de Faria (Séc. XIV)

 

 

Nessa altura, 1373, a Inglaterra e a França estavam envolvidas na guerra dos Cem Anos, tempo durante o qual a França esteve ocupada, em parte, pelos ingleses. Estes achavam-se com direito ao trono francês devido a Eduardo III ser filho de Isabel, filha de Filipe o Belo, e o último rei dos franceses ter morrido sem descendência.

 

D. Fernando estava ao lado dos Ingleses. O rei de Castela D. Henrique colocou-se ao lado dos franceses. Como D. Fernando se mostrasse agressivo para com ele, este invade Portugal ocupa Almeida, Pinhel, Linhares, Celorico, saqueia Viseu e Coimbra, dirige-se para Lisboa. É o caos por todo o lado. D. Fernando encontra-se em Santarém.

 

Nesse ano de 1373, durante a guerra de D Fernando I de Portugal com D Henrique de Castela, Pedro Rodrigues Sarmento, adiantado da Galiza, invadiu a província de Entre Douro e Minho destroçando as reduzidas tropas portuguesas comandadas pelo Conde de Ceia, D Henrique Manuel, que fora Alcaide de Sintra.

As forças do soberano de Castela avançavam por Viseu rumo a Santarém e Lisboa, quando uma segunda coluna, vinda da Galiza penetrou pelo Minho.

 

Saíram-lhe ao encontro forças portuguesas oriundas do Porto e de Barcelos, entre as quais se incluía um destacamento sob o comando de Nuno Gonçalves de Faria, alcaide do Castelo de Faria. Travando-se o encontro na altura em Barcelos, caíram as forças portuguesas, sendo capturado o alcaide de Faria.

Com receio de que a liberdade de sua pessoa fosse utilizada como moeda de troca pela posse do castelo, guarnecido pelo seu filho, concebeu um estratagema.

 

Convencendo o comandante de Castela a levá-lo diante dos muros do castelo, pretextando convencer o filho à rendição, utilizou a oportunidade assim obtida para exortar o jovem à resistência, sob pena de maldição. Morto pelos espanhóis diante do filho, pelo acto corajoso, o castelo resistiu invicto ao assalto. Vitorioso, o filho, tomou o hábito, vindo o castelo a ser sucedido por um mosteiro.

 

O episódio foi narrado por Fernão Lopes e imortalizado por Alexandre Herculano. Fernão Lopes contou que o castelo foi palco de uma história de amor entre o rei D. Fernando e Leonor Teles.

 

D. Fernando, prestes a casar com a filha do Rei de Castela, apaixona-se inesperadamente por Leonor Teles, quebrando o compromisso que tinha assumido. Despeitado, o Rei Castelhano desencadeou uma guerra contra Portugal, cercando Lisboa e muitas outras terras.

 

O Minho foi invadido e derrotado, ficando entre os reféns D. Nuno Gonçalves, alcaide-mor do Castelo de Faria.

O local onde se insere o castelo é quase inatingível pela sua elevada altitude, na plataforma de um monte e já no reinado de D. Afonso Henriques era considerado inexpugnável.

 

A pesquisa arqueológica indica que o primeiro traçado do castelo remonta aos séculos IX a X, no contexto da Reconquista cristã da península Ibérica. A primeira referência documental ao castelo, menciona que era seu senhor Soeiro Mendes da Maia, importante nome da nobreza fundiária do Condado Portucalense. Outra fonte documental indica que D. Afonso Henriques aí esteve em Janeiro de 1128. Cabeça da chamada Terra de Faria, ao longo do século XII o castelo teve como alcaides nomes importantes como os de Ermígio Riba Douro, Mem de Riba Vizela e Garcia de Sousa.

 

Teria sido objecto de trabalhos de ampliação e reforço durante o reinado de D. Dinis (1279-1325), conforme os vestígios de uma torre identificados pela pesquisa arqueológica no século XX. A mesma pesquisa identificou também os restos de uma torre que corresponde a um período posterior, à época de D. Fernando (1367-1383).

 

A seguir: Conde de Andeiro

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