Diário de Bordo, 26 de Setembro de 2011


 

 

George Monbiot, num artigo saído no Guardian de 1 de Agosto passado, How the Billionaires Broke the System, recorda-nos que os ricos, numa democracia formal têm um problema: convencer os 99 % restantes a votarem contra os seus interesses, no sentido de encolher o estado e aguentarem com os cortes nas despesas em vez de haver aumentos nos impostos. E acaba fazendo o reparo de que nos EUA parecem estar a consegui-lo. Acrescento: não só. Cá também. E mais: o estado realmente funciona mal, mas as maiores asneiras do sector público acontecem quando se põe a servir interesses particulares (não os da maioria, claro, que esses são públicos).

 

Boaventura Sousa Santos, na Visão de quinta-feira passada, dia 22 de Setembro, na Segunda Carta às Esquerdas, avisa-nos que “os neoliberais pretendem desorganizar o estado democrático através da inculcação na opinião pública da suposta necessidade de várias transições. Indica cinco transições. Cito só a terceira: do reconhecimento da existência de bens públicos (educação, saúde) e interesses estratégicos (água, telecomunicações, correios) a serem zelados pelo estado no interesse de todos para a ideia de que cada intervenção do estado em área potencialmente rentável é uma limitação ilegítima das oportunidades de lucro privado. É o que estamos a assistir. Já agora mais uma transição: dos direitos sociais para os apoios em situações extremas de pobreza ou incapacidade e para a filantropia. O estado social exagerou na solidariedade entre cidadãos e transformou a desigualdade social num mal quando, de facto, é um bem. Entre quem dá esmola e quem a recebe não há igualdade possível, um é sujeito da caridade e o outro é objecto dela.

 

Dois ex-decanos (será assim que se traduz?) do Colégio de Economistas de Madrid, Jorge Fabra Utray e J. Ignacio Bartolomé Gironella, escreveram no El País de 17 de Setembro um artigo intitulado No es economia, es ideologia. Talvez mais moderados que Monbiot e Sousa Santos, não deixam de acentuar que à política da Europa conservadora o que interessa é a diminuição do papel do estado na economia. E que essa política tem objectivos ocultos para a maioria dos cidadãos: a desregulação e os sinais confusos e equívocos das instituições financeiras europeias e nacionais e das agências de notação. As decisões do Eurogrupo são mais políticas do que técnicas. E a limitação do défice, que se pretende introduzir na reforma constitucional, destina-se a limitar a acção do Estado.

 

São três mensagens diferentes, mas que apontam para a mesma direcção: não estamos perante um problema económico, mas sim político. Há um conflito de interesses, de que os cidadãos devem ter uma noção clara. 

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