Meu primeiro amor – III
Com os anos 6O, as coisas começaram a mudar.
A guerra colonial e as lutas estudantis de 62 atingiram o coração da juventude. Os ventos democráticos dessa Europa que corríamos à boleia e a lavar pratos depois de ultrapassarmos esta Península Ibérica fascista, e a que chamávamos a “cortina branca”, começavam a mudar as mentalidades. Assumíamos ter os mesmos direitos de liberdade de pensamento, dc associação, de escolha de vida, de amor e de sexo como as juventudes com quem partilhavarnos albergues de juventude, cantinas, excursões, estudos e intercâmbio cultural e políti¬co. E a luta e a revolta não tardaram, com todas as tendências anárquicas e libertárias próprias de movimentos sem organização e direcção definidas. Tratava-se, essencialmente, de uma revolta civilizacional reforçada por haver um inimigo bem claro e preciso: a ditadura fascista e colonialista. É evidente que esta luta teria que conduzir, necessariamente, a uma revolução de costumes e comportamentos. E qual é o elo mais fraco, aquele por onde pode quebrar mais facilmente a cadeia . ) repressiva; t indiscutivelmente o lado afectivo, a sensibilidade humana. E foi assim que nesse sistema cinzento e opressivo surgiu a liberdade sexual entre os jovens, antecipando mas sem ter as mesmas caracrerísticas, a época posterior do “Sex, drugs and rock and mil”. Nessa época, não esquecendo as canções românticas da época anterior, já aprendíamos “Le Déserteur” de Boris Vian, “Ay Carrnela” dos Republicanos mas- sacrados na Guerra Civil de Espanha, “Canta, Camarada canta” na maravilhosa divulgação de Lopes Graça com o Coro dos Amadores de Musica, e mi! e urna canções Latino-Americanas por influencia da recenríssima Revolução Cubana, tais como “Se acabó la ditadura”, “Que culpa tiene el tomate”, e muitas outras que, curiosamente, conseguiam criar uma eufórica mescla de revolta e erotismo. O que, pensando bem, é capaz de ser extremamente normal, nós é que, às vezes, andamos distraídos. Neste caldo de cultura entravam Calvino, Sartre, Heinrich Bo11, Hemingway, Sreinbeck, Dos Passos e outros Norte-Americanos, Billie Holiday, Coltrane, a prática nos teatros amadores e Universitários, e o cinema, sempre o cinema abrindo fronteiras e autorizando sonhos. Na mudança de costumes, as luras de 62 em Portugal significaram um pré-Maio 68 cm França. Que isto não seja lido como uma reivindicação bacoca e patrioteira em relação aos movimentos dos outros países. Mas as verdades são para serem ditas e recordadas, e é bom ajudar outras gerações a perceberem a especial ternura com que os jovens desse tempo se refer~m a essas lutas. t que a partir daf o arame farpado ficou em casa, e, muito mais imporranre, tam¬bém as miúdas, finalmente quase livres e independentes, começaram a ser parte integrante da I ura contra o fascismo. Os primeiros amores tinham-se transformado em muitos amores.
