Por onde anda a dignidade de Portugal? – por José Goulão

Mais de 100 horas depois de o embaixador de Israel ter insultado os portugueses não há ainda notícia de o senhor Ehud Gol ter sido chamado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros para dar explicações.

 

Numa entrevista concedida na noite de 23 de Setembro ao canal TVI 24, o responsável pela diplomacia de Avigor Lieberman em Portugal afirmou que os israelitas têm mais direitos sobre Jerusalém do que os portugueses sobre Lisboa. Como, em termos de direito internacional, Israel é a potência ocupante da parte oriental de Jerusalém, que anexou ilegalmente, o senhor Ehud Gol disse implicitamente que Portugal e os portugueses nem sequer têm direito a Lisboa. Aguardava-se uma reacção imediata do Ministério dos Negócios Estrangeiros, no mínimo chamando o embaixador às Necessidades para esclarecer os seus pontos de vista sobre o país que o acolhe, ou mesmo declarando-o persona non grata mas, surpreendentemente, ainda nada não aconteceu.

 

O comportamento do diplomata já não é virgem. Quando os partidos portugueses representados na Assembleia Municipal de Lisboa adoptaram – com votos a favor e abstenções – a geminação entre Lisboa e Gaza, o senhor Ehud Gol não hesitou em repreender os deputados municipais eleitos pelos lisboetas.

 

Durante o período que decorreu desde as declarações insultuosas do embaixador o governo português esteve mais preocupado em contribuir para tentar inviabilizar, como membro temporário do Conselho de Segurança, o reconhecimento do Estado da Palestina pelas Nações Unidas. O primeiro ministro considera que a iniciativa palestiniana pretende “forçar” o reconhecimento de direitos que verbalmente o governo de Lisboa admite e, ao mesmo tempo, omite alusões ao problema da colonização israelita, que destrói, na prática, esses direitos.

 

Ao contrário do governo, numerosas organizações de cidadãos portugueses declararam já o seu repúdio pela atitude do embaixador israelita em Lisboa, aliás um comportamento de mal-agradecido tendo em conta o alinhamento das posições do governo de Portugal pelas dos Estados Unidos, país que não hesitará em usar o direito de veto para impedir o reconhecimento da Palestina.

 

O Comité de Solidariedade com a Palestina é uma dessas organizações e recorda outro símbolo da subserviência de autoridades portuguesas em relação a Israel permitindo que os serviços de segurança deste país tenham importado o sistema de check-points que aplica contra os palestinianos para vedar à circulação parte da Avenida António Enes em Lisboa, onde se situa a embaixada, transtornando a vida de residentes e transeuntes. É a única representação diplomática em Lisboa que recorre a estes métodos. Residentes na rua têm alertado repetidamente as autoridades portugueses para esta situação, na qual se sentem tratados como “escudos humanos”, mas tal como no caso dos recentes insultos do embaixador ainda nada aconteceu. O Comité de Solidariedade com a Palestina lembra, a propósito, que a municipalidade de Oslo preferiu defender os direitos dos seus cidadãos m situação idêntica, aconselhando a embaixada israelita a transferir-se para uma zona onde os seus argumentos de segurança não choquem, pelo menos tanto, com os direitos e mobilidade dos cidadãos.

 

 

 

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