(1919 – 1978)
Um café na Internet
Ó doce perspicácia dos sentidos!
Visão mais táctil que apressados dedos
sempre na treva tropeçando em medos
que só o olfacto os ouve definidos!
Audível sexo, corpos repetidos,
gosto salgado em curvas sem segredos
a que outras acres e secretas ─ ledos,
tranquilos, finos, ásperos rangidos ─
se ligam, mancha a mancha, lentamente…
Perfume túrgido, macio, tépido,
sequioso de mão gélida e tremente…
Vago arrepio que se escoa lépido
por sobre os tensos corpos tão fingidos…
Ó doce perspicácia dos sentidos!
Fui buscar este soneto de Jorge de Sena a Cem Sonetos Portugueses, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar, 3.ª edição, 2003. Obrigado aos herdeiros do autor, aos organizadores e à Terramar.


