UM CAFÉ NA INTERNET – Perversão IV – por Manuela Degerine

Um café na Internet 

 

 

 

 

 

 

 

(Continuação)

 

Na segunda-feira à noite, Amiel Le Guioux telefonou para informar que encontrara no cacifo um envelope de Madame Leclerc para Monsieur Le Guioux. Fora entregá-lo ao director – este abrira-o, rira-se e recomendara que, caso houvesse novas peripécias, o avisassem.

 

Eu interrogava insistentemente, quem ganha com o crime? E, por mais voltas que desse, chegava à mesma conclusão: aquele tipo de mensagem só ganhava sentido através dos nomes. Quem enviara o texto quisera, por alguma razão que, no momento da leitura, eu pensasse em Le Guioux. Se não fora Le Guioux, quem pudera ser? Ou, invertendo a pergunta, quem pudera ser, se não fora Le Guioux?

 

Havia colegas cujo apelido, lido naquele sobrescrito, me causaria um ataque de riso. Le Guioux, não: as nossas idades e aparências tornavam a situação, se não apetecível, pelo menos verosímil. Havendo ali um louco, demonstrava alguma lógica; os nomes não haviam sido escolhidos ao acaso. Aliás nenhum pormenor aparecia por acaso, tudo fora premeditado, até as letras dos apelidos, recortadas do folheto distribuído, dois dias antes, pela administração, com os nomes de todo o pessoal do liceu. Le Guioux lembrou que qualquer colega podia ter perdido ou abandonado um dos folhetos e deste modo algum aluno se pudera apropriar e servir dele. Era na verdade possível.

 

Uma amiga aconselhou-me que participasse à polícia mas eu não me sentia com indignação suficiente para expor o texto, a situação e a minha pessoa aos olhares dos polícias – na maioria: homens. (O director passara por mim num corredor, boa tarde, Madame Leclerc, ele amável como sempre, eu tão vermelha como o extintor de incêndios.)

 

Entretanto observava Amiel Le Guioux. Percebi que, por ser fumador, parava numa zona da qual jamais, nem em pesadelos, eu me aproximara. Não tínhamos alunos nem amigos comuns. E, antes daquele evento, eu não o via; era provável que ele também não me visse. Não fazíamos parte do mesmo arquipélago. Porquê a Isabel Leclerc? A perversão conduziria Amiel Le Guioux para qualquer fumadora e, caso buscasse alguém mais longe, para disfarçar, lembrar-se-ia de outras colegas, nunca de mim. Havia ali oitenta mulheres mais evidentes, por lhe darem boleia, por lhe darem conversa, por lhe darem o sal ou a mostarda, por serem, como ele, professoras de Francês, por inúmeras razões que, não o conhecendo, eu nem podia imaginar.

 

Como a peripécia nos havia contudo, de certa maneira, apresentado um ao outro, conversámos muito ao telefone, o contacto mais agradável entre um fumador e uma não fumadora. Tentávamos compreender a situação mas, a pouco e pouco, alargámos a conversa. Amiel Le Guioux contou-me que a companheira o deixara em Junho e, por isso, não tivera férias. Mudara de casa, instalara-se no bairro XVIII, uma renda barata porém, uma tarde, o apartamento havia sido assaltado: encontrara um buraco na parede. Procurava portanto um espaço para viver descansado. Não comprava por enquanto, queria encontrar outra companheira, ver o que a ambos convinha. Contou-me que lia “Ana Karenina” e, todas as noites, sentia o prazer imenso de adormecer na Rússia do século XIX. Contou-me que escrevia um diário. Contou-me que começara uma cura psicanalítica. Contou-me que vira “Rien ne va plus” de Claude Chabrol; analisámos a construção da mentira, do engano e da ilusão naquele filme. Um interlocutor interessante, se não houvesse aquela carta.

 

 (Continua)

 

 

 

 

Ilustração: The Fireside Angel, Max Ernst, 1937

 

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