OS HOMENS DO REI – 27 – por José Brandão

Vasco Fernandes de Lucena (1415? -1500?)

 

 

Foi grande diplomata, jurisconsulto, orador e escritor em tempos de D. Duarte, regente de D. Pedro, D. Afonso V e D. João II. Não se sabe em que ano nasceu, nem ao certo quando morreu.

 

Sabe-se todavia que era natural da Andaluzia, da cidade de Lucena, donde no reinado de D. João I veio, muito novo, com seus irmãos para Portugal, e cujo topónimo adoptou como apelido, ao naturalizar-se português. Tudo leva a presumir que por motivos políticos houvesse o propósito de ocultar a ascendência estrangeira.

 

Terá feito os seus estudos na Universidade de Lisboa e, aliado por casamento a uma família fidalga de Aguiar da Penha, entrou em 1435 ao serviço de D. Duarte, que o enviou então na embaixada do conde de Ourém e do bispo do Porto, ao Concílio de Basileia, assembleia tão eivada de tendências heréticas, que o papa Eugénio IV lhe opôs outro concílio em Ferrara, transferido depois para Florença, aonde D. Duarte, fiel a Roma contra o anti-papa de Avinhão, mandou também os seus embaixadores. Em Bolonha se encontrou Vasco de Lucena com o papa Eugénio IV, a quem fez em puríssimo latim uma alocução que desde logo o notabilizou.

 

Os humanistas de Coimbra referem os novos modos de vida e a mudança na civilização trazidas pelas descobertas e vincam o significado político da expansão no Oriente. Portugal servia a causa da Europa ao atingir a supremacia islâmica e paralisando parte das forças do ameaçador império turco.

 

Grande orador e já diplomata consagrado, de regresso ao Reino foi, nas Cortes de Torres Novas de 1438, por morte de D. Duarte, um dos mais sapientes argumentadores, inclinado ao partido de D. Pedro.

 

Durante a regência de 1439 a 1446, foi dedicado conselheiro de D. Pedro. E embora tão afecto ao ex-regente, mesmo na sua desgraça, conservou inalteráveis, depois de Alfarrobeira, a estima e a consideração de Afonso V, de quem logo em 1450 foi representante junto do papa Nicolau V, que o elevou à dignidade de conde palatino; e, já cronista-mor do Reino, guarda-mor da Torre do Tombo e da livraria d’El-Rei desde D. Duarte em 1436, participava, como jurisconsulto, do Conselho e do Desembargo d’El-Rei e era nomeado Chanceler da Casa do Cível.

 

Sob o novo monarca D. João II, nas cortes de Évora de 1481, reafirmava solenemente o seu portuguesismo e a sua inteira lealdade à Coroa. O Príncipe Perfeito, bom conhecedor dos homens e de seus méritos, deu-lhe a sua plena confiança.

 

Em 1485 participava, com Rui de Pina, da embaixada de D. Pedro de Noronha a Inocêncio VIII para render-lhe homenagem, aproveitando D. João II o ensejo para, com o apoio do Cardeal D. Jorge da Costa, obter do Papa facilidades financeiras de rendas eclesiásticas para a Ordem de Cristo, na sua acção da Cruzada ao Norte de África.

 

D. João II, acreditando que o caminho para a Índia está aberto, envia novamente o navegador com a missão até mais adiante e explorar o acesso ao Índico. Ao mesmo tempo, na Oração de Obediência que envia ao papa Inocêncio VIII e que é lida em Roma por Vasco Fernandes de Lucena em 11 de Dezembro de 1485, o monarca vangloria-se do facto dos seus navios estarem à porta da Índia.

 

Nessa Oração de Obediência, Vasco de Lucena apontara igualmente ao papa que a conquista de Granada ficava possibilitada pelo enfraquecimento de Marrocos.

 

Em 1497, de provecta idade, renunciava aos cargos de cronista-mor do Reino e guarda-mor da Torre do Tombo e Livraria d’El-Rei, em favor de Rui de Pina, já em pleno prestígio de grande letrado e que por seu turno rendia a Vasco de Lucena as maiores homenagens.

 

Vivia ainda em 1499, porventura já octogenário, tendo talvez morrido em 1500.

 

A seguir: Jorge da Costa

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