CONSULTÓRIO LINGUÍSTICO – V – por Magalhães dos Santos

 

 

 

 

 

De que se trata???

 

A nossa Amiga E. S. – servindo-se dos bons préstimos da comum Amiga A. C., o que doravante não vai ser preciso, pode-se dirigir a mim diretamente, que eu não mordo… – fez perguntas de bastante interesse, porque são (lamentável) sinal de que com frequência encontra os erros que a arrepiam.

 

Há diferença entre TRATA-SE DE e TRATAM-SE DE?…

 

Há!

 

Podem-se empregar ambos?

 

Podem!

 

Indiferentemente?…

Aí… mais devagar!

 

Na maior parte dos casos que (me) ocorrem, deve é dizer-se TRATA-SE DE CASOS DIFERENTES. TRATA-SE DE PESSOAS COM A MAIOR CREDIBILIDADE. TRATA-SE DE ASSUNTOS QUE NÃO TÊM NADA DE COMUM UNS COM OS OUTROS.

 

Nestes casos, não é possível transformar as frases usando a voz passiva, no género de casos diferentes são tratados; pessoas com a maior credibilidade são tratadas; assuntos que não têm nada de comum uns com os outros são tratados.

 

Isto não fazia sentido e estava errado.

 

Numa oração o sujeito NÃO É regido por preposição. Por isso se diz, por exemplo: PRECISA-SE DE PESSOAS SÉRIAS PARA DESEMPENHAREM FUNÇÕES MINISTERIAIS; ou PARA RESOLVER O PROBLEMA DO PAÍS, NECESSSITA-SE NÃO SÓ DE CONHECIMENTOS TÉCNICOS MAS TAMBÉM DE SENSIBILIDADE; ou PARA EXECUTAR ESTA PEÇA, PRECISA-SE DE MÚSICOS COM MUITA PRÁTICA.

 

Há, então, algum caso em que TRATAR-SE possa ir para o plural?

 

Há! Por exemplo: OS NOSSOS POLÍTICOS TRATAM-SE MUITO BEM…; ou NAQUELA CASA DE SAÚDE TRATAM-SE DOENTES QUE TENHAM SOFRIDO QUEIMADURAS GRAVES.

 

Estas frases podem pôr-se na voz passiva: OS NOSSOS POLÍTICOS SÃO MUITO BEM TRATADOS (por eles próprios); ou NAQUELA CASA DE SAÚDE SÃO TRATADOS DOENTES QUE TENHAM SOFRIDO QUEIMADURAS GRAVES.

 

Estes exemplos são elucidativos? Espero bem que sim!

 

Outro caso em que as opiniões já se dividem. Há jornais – e dos que são ditos de referência – que aceitam (julgo que até impõem, pelo menos aos seus jornalistas) construções como vende-se casas, compra-se selos antigos.

 

“Não fui criado” nesses hábitos. VENDEM-SE CASAS equivale a CASAS SÃO VENDIDAS. COMPRAM-SE SELOS ANTIGOS equivale a SELOS ANTIGOS SÃO VENDIDOS.

 

Há cinco ou seis anos perguntei isto mesmo ao meu antigo Professor de Latim em Coimbra. Deu-me esta mesma receita: se a frase pode “pôr-se” na voz passiva, o verbo diz-se ou escreve-se no plural.

 

DIZEM-SE MUITAS COISAS ERRADAS. VÃO-SE SABER MUITOS SEGREDOS INCÓMODOS. DEVEM-SE TER MUITOS CUIDADOS COM ESTES ASSUNTOS.

 

Um exerciciozinho: “ponham” estas frases na voz passiva!

 

Que tal?

 

   

A  PRESIDENTE / A PRESIDENTA

 

Por meio de mensagens eletrónicas, por conversas pessoais, tenho tomado conhecimento de bastantes reações negativas a respeito da palavra PRESIDENTA. Essa palavra ganhou  maior “visibilidade” a partir do momento em que a brasileira Dilma Rousseff tomou posse dessas funções, no seu país e fez ponto de honra em ser chamada presidenta

 

Invocam-se muitos argumentos (trocistas, na sua maioria) contra tal “moda nova”.  Chegam a chamar-lhe “labrega”…

 

Num texto que até terá a sua graça, reúnem-se palavras “provocatórias”, como coerenta, ignoranta, impacienta, doenta, vigenta, pertinenta, repetentas. Quase todas estas são fantasiosos femininos de adjetivos. Presidenta é substantivo. Pode estabelecer uma diferença, não?

 

Parecem-me – a maioria desses argumentos objetores – conservadores, passadistas, digamos… saudosistas.

 

As pessoas – todas elas, ou muitas delas, talvez mais novas do que eu – “aprenderam”  de uma maneira e assustam-se ou revoltam-se contra a ideia de que seja preciso mudar, alterar o que acham que devia ficar fixo, estático, rígido. “Se dantes era assim, se durante tantos anos foi assim, a que propósito é que agora vêm com estas modernices?!…”

 

E agarram-se aos dicionários, “onde não vem presidenta!”

 

Enganam-se um tanto, embora não totalmente…

 

Em 1946, já o famoso Torrinha incluía presidenta.

 

No Porto Editora, 4ª edição, que deve ser de 1958 ou anterior, já figura presidenta. O Dicionário da Sociedade da Língua Portuguesa, da responsabilidade do Dr. José Pedro Machado, de 1965; o Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse Seleções (brasileiro), de 1979; o brasileiro Houaiss, em 2001; todos registam presidenta.

 

 O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, que para muito boa gente é, nestes assuntos, absolutamente respeitável, em 2001 regista presidenta, acrescentando em itálico, deprec.(iativo) esposa do presidente. Fam(iliar) e pop(ular) Mulher que desempenha as funções de presidente.

 

No dicionário de Questões Vernáculas, de 1981, diz o seu autor, o brasileiro Napoleão Mendes de Almeida: “Presidenta, porém, ainda está ao que parece, no âmbito familiar e chega a trazer certo quê de pejorativo”. Vinte anos depois dessa data, parece que se esbateu o caráter pejorativo…

 

A presidenta Dilma não inovou. Talvez tenha… trazido a palavra do lumpen proletariat, do baixo proletariado, para a alta burguesia…

 

(Para meu espanto e meu escândalo, o brasileiro Aurelão  nem regista presidente nem (pudera!) presidenta. Anarquismo?)

 

O Dicionário de Dúvidas, Dificuldades e Subtilezas da Língua Portuguesa, (de 2010) das Dras. Edite Estrela, Mª  Almira Soares e Mª José Leitão, no verbete presidente diz que “Presidenta é a forma usada pelas pessoas menos escolarizadas. Este feminino resulta da falsa analogia com outros substantivos que têm formas distintas para o masculino e para o feminino, como por exemplo o infante/a infanta. A forma presidenta surge no Dicionário Houaiss com a indicação de que, em Portugal, é usado “de forma pejorativa ou informal”.

 

…………………………………..

 

No Compêndio de Gramática Portuguesa, de J. M. Nunes de Figueiredo e A. Gomes Ferreira, de 1977, o feminino de embaixador ainda era embaixatriz. O que eu tinha aprendido uns trinta e cinco anos antes, na Primária. Ensina a Dra. Edite Estrela (em 1991) que “a par de embaixatriz, a língua portuguesa apresenta um outro feminino para embaixador: embaixadora”. A mulher do embaixador era chamada embaixatriz. Embaixadora é a mulher que desempenha o cargo diplomático de embaixador. E a doutora explica: “Antes do 25 de Abril, a carreira diplomática estava vedada à mulher. Por isso o feminino embaixatriz podia ser atribuído à esposa do embaixador, sem receio de confusões”.

 

Vasco Botelho de Amaral (em 1959) ensinava: “Para designar o feminino de embaixador sempre se disse em português culto embaixatriz. Embaixadora é popularismo evitando (que se deve evitar), e que se emprega no sentido de medianeira, mensageira. Embaixadora é, como se lê em Aulete, “mulher encarregada de missão particular”.  E continua: “à mulher do embaixador ou à senhora com funções de embaixador deve dar-se o nome culto de embaixatriz, como actriz, e não actora, por exemplo”.

 

Esse mesmo autor, sempre em 1959: “(…) há quem tenha dúvidas sobre se deve dizer-se: “uma engenheira agrónoma, uma engenheiro-agrónomo, uma engenheiro-agrónoma”. Não pode haver a menor dúvida de que se deve dizer uma “engenheira-agrónoma”, pondo a palavra composta com ambos os elementos no feminino”.

 

Parecerá, hoje, estranha esta dúvida? Pois quando, vinte anos depois,  a Engª Maria de Lourdes Pintasilgo foi primeira-ministra de Portugal, em 1979, as dúvidas surgiram! Seria ela a nossa Primeiro-ministro? A nossa Primeira-ministro? O nosso primeira-ministro? A nossa Primeira-ministra? Ganhou esta última.

 

No FALAR MELHOR, ESCREVER MELHOR, são da responsabilidade da Dra. Edite Estrela estas palavras: “O desuso do feminino juíza, a dificuldade em se introduzir no discurso quotidiano, tem a sua explicação. Só na sequência do 25 de Abril de 1974, a carreira da magistratura foi aberta à mulher. Só a partir de então o feminino adquiriu valor uso. Felizmente, hoje, há juízes e juízas em Portugal”.

 

Há poucos anos (8/9), jovem advogado ainda me dizia que havia juízas que reclamavam ou preferiam o título de juízes

 

Mas já este ano (2011), uma juíza se encrespou com um jovem advogado por ele se ter dirigido a ela chamando-lhe Juiz (com as devidas senhorias, é óbvio… ou era…)

 

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Tentei trazer os testemunhos que pude. Acho que deixei também implícita a minha opinião.

 

A palavra presidenta não me agrada-não me soa bem. Estudanta e fabricanta… também não.

 

Mas admito perfeitamente que seja por ainda chocar os meus ouvidos. Falta de hábito…

 

Porque num dicionário de rimas brasileiro, encontro, quase seguidinhos: eiranta, elefanta, farsanta, giganta, governanta, hierofanta, infanta. E não me fazem pele de galinha…

 

Depois de sairmos do berço, quantas palavras passaram a fazer parte do nosso vocabulário? Quantas palavras dizíamos e entendíamos aos quatro anos? E quinze, vinte anos depois? E quarenta, cinquenta, sessenta anos depois dos nossos primeiros balbucios? Vamos ficar só pelo vocabulário de quando tatebitatávamos?

 

De que natureza são os critérios com que – às vezes agressivamente! – nos opomos à introdução de palavras como… presidenta? Se conseguíssemos ir buscá-los às reprofundas do inconsciente… Se conseguíssemos olhá-los bem de frente, olhos nos olhos… Aprová-los-íamos? Gostaríamos deles? Continuaríamos a adotá-los?

 

                                                      

                                                           

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