D. AFONSO V (reinou de 1438 a 1481)

D. Afonso V, chega ao trono com apenas seis anos, após a morte prematura de seu pai. A cerimónia, simples e rápida, foi precedida pelo conselho de Mestre Guedelha, físico e astrólogo da corte, a fim de se evitarem os maus presságios, como acontecera com D. Duarte.
Em Maio de 1447, casou na igreja de Santa Maria de Óbidos com sua prima D. Isabel, filha de seu tio D. Pedro, apesar das muitas noivas propostas pela mãe e que serviam os interesses políticos desta astuta rainha.
Depois da morte da esposa e prima D. Isabel, pretendeu casar com a sobrinha, D. Joana, filha do rei de Castela e de D. Joana de Portugal. A união legitimaria as pretensões do rei do trono de Castela, mas o casamento, se bem que contratado, não se chegou a realizar para além de «palavras futuras».
O cognome de D. Afonso advém-lhe das grandes lutas travadas pela posse de praças do norte de Africa; Alcácer Ceguer, Tânger, Ceuta, Arzila, o que fez com que o Africano fosse o último rei à moda antiga, onde a bravura nascia do manejo das armas.
Talvez por isto, não se distinguiu no campo amoroso. Amantes, teve-as, com certeza, mas nenhuma delas conseguiu posição digna de nota. Não se lhe conhecem filhos ilegítimos. Romances, mais ou menos escandalosos, com damas castelhanas estavam, contudo, muito em moda na época.
Contrastando com o apelo ao aumento da demografia do reino a que os seus antepassados tinham dado profusa resposta, D. Afonso V teve apenas três filhos no casamento: D. João, morto em criança; D. Joana, que professou no Mosteiro de Aveiro, apesar das muitas vozes que contra isto se insurgiram, dão que ela seria a única herdeira, caso seu irmão D. João (sucessor de Afonso V) morresse sem descendência.
Mas a princesa, firmemente convencida, não deu ouvidos a ninguém. A fé alimentava-lhe o empenho. Recusou um invejável casamento com Ricardo III de Inglaterra, que a faria rainha deste país, arquiduquesa da Áustria, imperatriz da Alemanha e rainha de França. Este gesto muito impressionou o povo, que a tinha como santa no reino de tristeza e, quer os reis seus pais, quer o infante seu irmão, por ela tomaram grande e sentido luto, que se estendeu a toda a Corte.
Entretanto, as finanças do reino iam de mal a pior. D. Afonso V era obrigado a recompensar todos quantos participavam com ele nas lutas em África ou contra Castela. Os endividamentos acumulavam-se, dado que a manutenção dos exércitos e as despesas cada vez maiores com a crescente burocratização do reino eram mais achas para a fogueira. A ponto de se terem pedido inúmeros empréstimos aos judeus do reino, classe detentora de grande poder financeiro. A D. Afonso V se deve também a «moralização» do adultério. Data de 30 de Agosto de 1476 uma lei em que o monarca decreta que apenas o marido enfeitado pode matar a mulher adúltera.
Novos tempos se viviam no reino de Portugal. A par das grandes batalhas africanas, que continuavam, descobrem-se novas terras, novas gentes. Novos mundos são dados ao Mundo. Chegam riquezas nunca vistas, especiarias, pedras e metais preciosos, escravos. Contudo, apesar do tráfego marítimo e comercial com o norte da Europa, o Mediterrâneo, a Guiné e por fim a Mina, a situação económica durante quase todo o reinado de Afonso V esteve longe de ser desafogada.
Logo que, em 1447, D. Afonso V começou, aos 14 anos, a reinar de facto, fez de Jorge Martins da Costa um dos seus mais avisados conselheiros; e em 1450, por se lhe ter mantido fiel nas graves contendas com o ex-regente até ao lamentável desfecho de Alfarrobeira, tomou-o para seu confessor.
Instalado no Paço em 1445, último ano da regência de D. Pedro, Jorge Martins da Costa, já então na maturidade dos 39 anos, impôs-se desde logo na Corte pela sólida cultura e rectidão de critério. O seu preceptorado foi eficaz, elevando a jovem pupila D. Catarina – que faleceria prematuramente, ainda solteira – ao nível das princesas mais cultas da Renascença.
Já bispo de Évora, acompanhou o rei em todas as suas expedições a Marrocos – em 1458, à tomada de Alcácer-Ceguer com o infante D. Henrique, depois nas de 1462 e 1463 aos frustrados assaltos a Arzila e a Tânger; e no regresso dessa última campanha foi quem acompanhou o rei a Algeciras, a uma conferência solicitada por seu cunhado Henrique IV de Castela, para ajustes de casamento, que nas suas mãos foram jurados, entre príncipes e princesas das duas Cortes.
Outras negociações, de que entretanto foi também encarregado pelo rei para casamento de sua irmã, D. Catarina, primeiro nas cortes de Castela e Aragão, depois na de Inglaterra, todas frustradas, iam-no familiarizando com os homens eminentes e os meandros da grande política europeia da época; mas o seu definitivo triunfo pessoal foi, em 1468, a sua primeira embaixada ao papa Paulo II, cuja admiração e apreço ganhou tão prontamente, que largos anos ficou retido em Roma, na intimidade do próprio papa, dele recebendo a benesse de arcebispado vacante de Lisboa.
De volta ao Reino, cheio de prestígio, acompanhou novamente o rei à tomada de Arzila e Tânger: e em 1474, quando a morte de Henrique IV desencadeou em Castela a grave crise dinástica da sucessão, que precipitou D. Afonso V, seu cunhado, na dispendiosa e desastrosa intervenção militar da campanha de Toro, a sua autoridade de grande prelado nos Conselhos da Coroa permitia-lhe votar desassombradamente contra essa impopular aventura de política externa, tão cheia de riscos para a Nação, embora ardentemente desejada pelo rei e pelo próprio príncipe D. João; e na mesma ordem de ideias, e pela mesma lucidez política e mesma firmeza de carácter, desaconselhava depois energicamente a insensatez da viagem do rei a França, a mendigar do manhoso e pérfido Luís XI uma utópica aliança militar contra os Reis Católicos, que foi de facto uma fonte de humilhações e desaires para a soberano de Portugal. Essas tomadas de posição, tão contrárias aos régios desígnios, não obstaram todavia a que o próprio rei fizesse reiteradas instâncias junto do papa Sisto IV para em 1476 elevar o arcebispo D. Jorge da Costa a cardeal de Lisboa.
Nos últimos anos do seu reinado, D. Afonso V vive a sonhar com a unidade hispânica sob o domínio português. Em Maio de 1475 dá-se a batalha de Toro para defender as pretensões do rei Português. É nesta batalha que o alferes Duarte de Almeida, rodeado de inimigos, que pretendem arrebatar-lhe o pendão real, mesmo depois de lhe cortarem as mãos, o defende, segurando-o com os dentes. E, quando completamente esvaído em sangue, os castelhanos lho arrancam da boca, é outro português, Gonçalo Pires, que, com a valentia o arranca aos inimigos e o põe a salvo.
A partir desta derrota, o rei nunca mais foi o mesmo. Afonso V era um homem ambicioso e perdulário, mas também um homem culto e um grande protector das letras, tendo deixado uma importante biblioteca.
Nasceu em Sintra, a 15 de Janeiro de 1432, e morreu na mesma vila, a 28 de Agosto de 1481.
Jorge da Costa e Duarte de Almeida foram homens do rei D. Afonso V.
Jorge da Costa (Cardeal Alpedrinha) (1406-1508)
Teólogo dos mais ilustres do seu tempo, celebrizou-se como personalidade eminente da Igreja no último quartel do Século XV e princípios do Século XVI, depois de ter dominado em Portugal, como valido de D. Afonso V, a política do reinado.
A sua prodigiosa ascensão, de obscuro clérigo de província, sem antepassados ilustres, ter-lhe-ia assegurado na sua Pátria um prestígio sem par, se o não tivesse prejudicado no conceito público a sua avidez de riquezas, em descomedida acumulação de benefícios eclesiásticos e respectivos rendimentos.
Quem, porém, via de muito má sombra essa privilegiada ascensão, era o príncipe D. João, cioso da autoridade real e de todo o seu poder absoluto para os grandiosos planos que tinha em mente.
Durante a ausência do seu pai em França, o príncipe, num passeio a cavalo, pelos campos de Almeirim, com o cardeal e outros cortesãos, tomou-o de parte e, adiantando-se a sós com ele até meio duma ponte, fez-lhe severas advertências de futuro, de envolta com a vaga ameaça de lhe ser bem fácil fazê-lo lançar ao rio «por quatro moços de esporas», e fazer depois constar que se tinha afogado por desastre.
Não caiu a advertência em ouvidos moucos e, ainda antes da morte do rei, em 1481, logo que lhe foi possível, escusamente o cardeal se expatriou para Roma, a ocultas e bem contra-vontade do príncipe, logicamente receoso de que a sua poderosa influência na Santa Sé lhe criasse, como implacável inimigo pessoal, as maiores dificuldades à sua futura acção de rei.
Sucedeu, porém, precisamente o contrário. Acolhido por Sisto IV com as maiores demonstrações de afecto e alta consideração, fixou-se definitivamente na Cidade Eterna, com toda a pompa dos cardeais da Renascença.
Mas a perfeita lealdade do eminente purpurado com o seu soberano e a sua Pátria culminaria no altíssimo serviço prestado à Nação quando o descobrimento de Colombo de 1492 suscitou as gravíssimas dissenções entre D. João II e os Reis Católicos, que, em Roma, o papa Alexandre VI, um Bórgia, espanhol, se propunha prepotentemente favorecer, por decretos pontifícios, em detrimento de todos os antigos direitos de prioridade de Portugal na sua política de descobrimentos e expansão ultramarina.
Na acesa luta diplomática de D. João II com o próprio papa, em reivindicação de indiscutíveis direitos de Portugal, foi decerto oportuna e sábia a intervenção do cardeal D. Jorge da Costa que, mercê da sua cultura e prestigiosa influência, conduziu as negociações portuguesas na Cúria, em termos de que o famoso Tratado de Tordesilhas de 1494, sancionado pelo papa, viria a dar inteira satisfação a Portugal, assegurando-lhe a futura epopeia de expansão em África e no Oriente.
Pouco sobreviveu D. João II a essa sua vitória, e à hora da morte bem manifestou o seu reconhecimento ao omnipotente cardeal, na carta de arrependimento e contrição que de Alvor lhe escreveu a rogar-lhe perdão de todas as antigas ofensas.
Até 1508 lhe sobreviveu ainda o cardeal em tal plenitude de respeito e poderio na capital da Cristandade.
Bem se pode, pois, afirmar que, tendo atravessado quatro reinados, uma regência e cinco pontificados, na sua longa vida de centenário dominou de perto e de longe, com serena autoridade, não só a política de três reinados da sua Pátria, como a política europeia do seu tempo. Não se pode recusar ao antigo «obscuro clérigo» de Alpedrinha, pela sua inteligência e pela sua cultura, um lugar de proeminência entre os grandes vultos de Portugal e da Europa da Renascença.
Veio a falecer aos 102 anos, no seu palácio em Roma, e ficou sepultado no sumptuoso mausoléu de mármore, com sua estátua jacente.
A seguir: Duarte de Almeida – O Decepado (Séc XV)

