Aurora Adormecida 29 – Eva Cruz

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 29

 

 

(continuação)

 

Os filhos cresceram e saíram de casa, cada um para a sua Universidade. Aurora ficou só com o marido e a sua dependência do álcool. De três em três meses vinham os filhos a casa. Viveu anos de angústia, escondendo o mais que pôde a sua dor para os não entristecer. Estava sempre presente em tudo com uma força gigantesca.

 

* Fui sempre o esteio desta casa..

 

º Tu, avozinha, tão pequenina, que esteio eras tu?

 

* O burro não se mede por grande orelha. Sou pequenina, mas segura. Nunca caí à primeira, nem à segunda, nem à terceira.

 

° Mas caíste à quarta, avozinha.

 

* Quarta, sermil e alqueire.

 

Era tal a força e a segurança que dava aos filhos e à vida que dificilmente eles se apercebiam de que estavam à beira da ruína económica. O marido não queria vender nada e ainda se metia em compras de terras, quando já mal tinha para as despesas.

 

Ela não recorda os tempos mais próximos. A sua memória vai para o passado longínquo.

 

° Parabéns, avozinha, fazes hoje noventa e nove anos.

 

* Noventa e nove anos? Estás tolo, rapaz. Se tivesse esses anos todos já tinha morrido. Dez anos pr’aí talvez, vá que não vá.

 

Na verdade, a mentalidade daquela velhinha não estaria muito longe dessa idade.

 

° Dez anos, avozinha, com filhos de sessenta e tal? Põe-te fina. Estás tolinha de todo, ainda te dou uma galheta para ver se afinas.

 

* Sei lá o que é uma galheta, se me desses mas é um chocolatitol Um pra mim e outro pra estas crianças.

 

º Crianças, avó, não vês que são bonecas?

 

* Boneco és tu.

 

° Estás-me a insultar, vou-me embora.

 

E logo, mais mansa, porque via a companhia e o interlocutor a faltarem, perguntava:

 

* Para onde vais tu? Vais ao brejo, não é? Vão todos para o brejo e deixam-me ficar aqui sozinha.

 

Na sua cabeça, andava toda a gente no brejo, e ela que tão brejeira era, tinha de ficar em casa.

 

Para a arreliar batia ele com a bengala nas bonecas que a rodeavam. Ma­lhava numas e noutras sem dó nem piedade. Enfurecia-a de tal ordem que a fazia gritar pela filha.

 

* Vem cá que este malandro mata-me as crianças.

 

Ele ria-se a bom rir.

 

º Tu és tola, põe-te fina, só tens areia nessa cabeça. Tu não vês que isto não são crianças, são bonecos. Põe-te fina. Só gosto de ti fininha.

 

Já mais lúcida, repetia:

 

* Areia na cabeça? Eu não sou nenhuma praia.

 

º Tu és histérica, histérica é que tu és.

 

* Como é que eu sou histérica, se eu tive dois filhos?

 

E ria-se de sobranceria e autoridade.

 

O certo é que sempre que o neto a provocava, ela afinava de uma forma repentina. A lucidez surgia com toda a força, mas pouco tempo depois deixava-se mergulhar na fantasia, no seu devaneio pelo mundo do passa­do, vivido e criado ao sabor do momento,

 

° Avozinha, gostas do Rui Veloso?

 

* Sei lá quem é o Rui Veloso.

 

° Avozinha, repete, eu curto o Rui Veloso.

 

* Curto e comprido. Sei lá eu bem o que é isso.

 

Depois de tanto insistir, lá repetia contrariada.

 

* Eu curto o Rui Veloso.

 

Num riso espontâneo, ele cobria-a de beijos.

 

° Ai, avozinha, tu estás uma teenager.

 

* Estou o quê?

 

º Uma teenager, avozinha, se não sabes, pergunta à mamã.

 

A saúde do marido esvaía-se, na altura, de dia para dia. Felizmente os filhos estavam quase a acabar o curso. Teve ele ainda a alegria de ver os filhos formados, o filho médico com o seu nome, e sentir todo o orgulho do mundo. Os elogios que ouvia ao bom nome deles enchiam-lhe os olhos de lágrimas e comoviam-no até aos soluços. Era muito terno e doce. Es­tavam, porém, ainda reservados para um grande sofrimento, a partida do filho para a guerra colonial da Guiné.

 

Foram dois anos de enorme sofrimento em que a mãe passava as noites em claro, a rezar. Só os aerogramas, de onde em onde, lhe traziam alguma alegria e muitas incertezas, porque na hora em que ela os lia já não sabia se seu filho estava vivo ou morto.

 

* Passei todo esse tempo a rezar, correndo para a capela a acender velinhas à Senhora da Boa Viagem para que me trouxesse o meu filho são e salvo. E assim aconteceu, louvado seja Deus! Tanto passei para lhe salvar a vida em criança, para agora o deixar morrer, sabe-se lá onde. Teve a coqueluche em pequeni­no, não comia nada, saía com ele, de manhã, para os matos, por causa do ar puro, levava uma conservadeira de leite e andava por lá todo o dia, fiquei na espinha mas salvei a vida ao meu filho. Mais tarde salvou-me ele a minha.

 

Um dia sofreu ela uma intoxicação alimentar e ficou à beira da morte. O filho, ainda aluno dos primeiros anos de medicina, recorreu a um médico da aldeia que, com a sua velha experiência, o ajudou realmente a salvar a vida à mãe.

 

Regressado da Guiné, a aldeia recebeu o seu filho, em festa. Durante a noite ardeu uma fogueira ao cimo do Caminho Novo e toda a gente se manteve alerta. De madrugada estoiraram foguetes. Houve missa de festa e banda de música. Um almoço com centenas de pessoas. Era tal a alegria e o orgulho dos pais que a emoção se manteve por muito tempo. O pai vi­veu ainda mais um ano a glória do filho e a alegria de ver a filha formada, ainda que não na carreira de advogada, que ele tanto ambicionara.

 

Gostava que fosses advogada.. Juíza não. Talvez notária. Professora tam­bém não é mau. Podes vir a ser reitora de liceu. O Gasparinho das Ordens de Cima é professor e toda a gente lhe tira o chapéu.

 

Havia também as Ordens de Baixo. As Ordens eram um local junto à igreja matriz onde se erguia uma casa lindíssima na qual viviam uns ingle­ses com quem ele se dava bem. Tagarelando a sua lenga-lenga, assustavam muitas vezes os aldeões que andavam por ali, à erva, nos lameiros. Chega­vam a ser confundidos com quadrilhas que, constava, vinham de Lisboa. Amava tanto a filha que via nela o melhor do mundo. O carinho e a ter­nura cegavam-no. Por isso as canas brancas de S. José, na leira de cima, nunca mais deixaram de florir.

 

Essas não se cortam, são as predilectas da minha Ervinhas.

 

Morreu um ano após a chegada do filho. Era uma tarde de meados de Março, daquelas Primaveras que fazem rebentar toda a natureza por dentro e deitar cá para fora os bolbos, os fetos, os gomos e os talos. Era uma tarde sem sossego. Apesar das melhoras da véspera, um fim de semana, a inquie­tude daquela segunda-feira fez regressar a filha. O ambiente era pesado.

 

O irmão José, seu padrinho, a um canto da sala, esperava o momento final num misto de dor e resignação. O filho, melhor do que ninguém, sabia até onde aquele coração poderia resistir. Exalou o último suspiro nos seus braços, com um sorriso nos lábios, fazendo pouco da morte.

 

Apesar da dor profunda, Aurora nunca soltou uma lágrima.

 

A filha não aceitou a morte. Virou-lhe as costas humilhada pela dor desse corte fatal. Olhou o quintal de cima e as caninhas de S. José estavam a florir. O pai gostava de flores brancas e de cravos. Nunca lhe faltaram em cima da sua campa rasa.

 

Se a morte o tivesse deixado viver, gostaria também, de certeza, de cravos vermelhos.

 

 

 

Banalizou-se a morte

de tal sorte

que saiu por cima a vida.

Cortou as asas ao sofrimento

a vida voou para dentro

de mim e ali ficou guardada

entre o vazio e o nada.

 

A morte é feia

voa no vento

no uivar do cão

pela madrugada

na noite adormecida

no rebentar e no cair da folha.

Vindima de cangalheiro

não me há-de levar de vencida.

Mesmo de costas voltadas

hei-de lutar contra ela

até ao fim da minha vida.

 

(continua)

 

2 Comments

  1. Eva, não sou crítica de literatura, não tenho esse saber e honestamente também não queria ter. Sei que gosto muito da Aurora adormecida e isso basta-me.Parabéns pois venho diariamente ler, um bjo grde

  2. Obrigada, Inês.Só hoje li o teu comentário.A tua sensibilidade encanta-me , não só pelos teus comentários frequentes no blog, como também oelo que escreves.Quando escrevi este livro, cofesso que não tive grande preocupação literária, apenas a de escrever em bom português. Fi-lo para sublimar a angústia de ver a morte a espreitar pelos cantos e que mais dia menos dia a iria levar. Então fintei-a desta forma , eternizando a vida ( Aurora) à minha maneira. Um beijinho.

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