A PIDE e os métodos de tortura – 1 – por Carlos Loures

 

 

Os métodos de tortura, da Idade Média aos nossos dias, não mudaram substancialmente. Vamos encontrar em Guantánamo, com nomes diferentes, métodos usados pela Inquisição. A vida humana, há quinhentos anos, por exemplo, valia ainda menos do que vale hoje. Por outro lado, desde 1789, têm vindo a ser aprovados documentos que consagram alguns direitos – ainda que, as mais das vezes, os torcionários os ignorem – nas guerras da segunda metade do século XX, inclusivamente nas três frentes da Guerra colonial que o estado português manteve em África, praticaram-se actos horríveis (de ambos os lados).

 

Mas estou a falar de tortura policial, praticada com o objectivo de obter confissões e denúncias. Provocar a morte, pelo menos antes de o paciente ter confessado, era considerado falta de profissionalismo. Havia médicos que iam vigiando o estado em que o preso de encontrava. pOr vezes, a tortura era suspensa e continuava depois. 

 

Mas falava na antiguidade dos métodos – a tormentum insomniae, a tortura do sono, de que a “estátua”  era uma variante, não foi inventado pela PIDE, é um método que sempre foi utilizado – a privação de sono, provocando alucinações visuais, auditivas, olfactivas, conduz ao cabo de uns dias a uma situação em que o preso perde a noção da realidade. Altura de contar segredos.

 

Há um livro da professora e investigadora Irene Flunser Pimentel onde, de forma objectiva, baseando-se em documentos, registos, testemunhos, em fontes primárias, evitou entrar no universo dos mitos que relativamente à polícia política portuguesa se foram criando. É um excelente trabalho que recomendo vivamente a quem pretenda saber o que realmente foi a repressão exercida sobre as oposições ao Estado Novo.

 

Os relatos de quem passou pelas salas de tortura (“gabinetes de investigação”) são necessariamente subjectivos. A investigadora relata de forma desapaixonada os dados que apurou, nunca preenchendo os hiatos documentais com suposições. Numa série de pequenos artigos de que este é o primeiro, abordarei o tema, não fugindo à face emocional da questão. E dessa face fazem parte os poemas (poucos) que se produziram sobre o tema da repressão policial. Galeria que abro com Manhã, de Luís Veiga Leitão.

 

 

Bom dia. Diz-me um guarda.

Eu não ouço… apenas olho

das chaves o grande molho

parindo um riso na farda.

Vómito insuportável de ironia

Bom dia, porquê bom dia?

Olhe, senhor guarda

(no fundo a minha boca rugia)

aqui é noite ninguém mora,

deite esse bom dia lá fora

porque lá fora é que é dia!

 

 

(Luís Veiga Leitão, In «Noite de Pedra», 1955).

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