
Os métodos de tortura, da Idade Média aos nossos dias, não mudaram substancialmente. Vamos encontrar em Guantánamo, com nomes diferentes, métodos usados pela Inquisição. A vida humana, há quinhentos anos, por exemplo, valia ainda menos do que vale hoje. Por outro lado, desde 1789, têm vindo a ser aprovados documentos que consagram alguns direitos – ainda que, as mais das vezes, os torcionários os ignorem – nas guerras da segunda metade do século XX, inclusivamente nas três frentes da Guerra colonial que o estado português manteve em África, praticaram-se actos horríveis (de ambos os lados).
Mas estou a falar de tortura policial, praticada com o objectivo de obter confissões e denúncias. Provocar a morte, pelo menos antes de o paciente ter confessado, era considerado falta de profissionalismo. Havia médicos que iam vigiando o estado em que o preso de encontrava. pOr vezes, a tortura era suspensa e continuava depois.
Mas falava na antiguidade dos métodos – a tormentum insomniae, a tortura do sono, de que a “estátua” era uma variante, não foi inventado pela PIDE, é um método que sempre foi utilizado – a privação de sono, provocando alucinações visuais, auditivas, olfactivas, conduz ao cabo de uns dias a uma situação em que o preso perde a noção da realidade. Altura de contar segredos.
Há um livro da professora e investigadora Irene Flunser Pimentel onde, de forma objectiva, baseando-se em documentos, registos, testemunhos, em fontes primárias, evitou entrar no universo dos mitos que relativamente à polícia política portuguesa se foram criando. É um excelente trabalho que recomendo vivamente a quem pretenda saber o que realmente foi a repressão exercida sobre as oposições ao Estado Novo.
Os relatos de quem passou pelas salas de tortura (“gabinetes de investigação”) são necessariamente subjectivos. A investigadora relata de forma desapaixonada os dados que apurou, nunca preenchendo os hiatos documentais com suposições. Numa série de pequenos artigos de que este é o primeiro, abordarei o tema, não fugindo à face emocional da questão. E dessa face fazem parte os poemas (poucos) que se produziram sobre o tema da repressão policial. Galeria que abro com Manhã, de Luís Veiga Leitão.
– Bom dia. Diz-me um guarda.
Eu não ouço… apenas olho
das chaves o grande molho
parindo um riso na farda.
Vómito insuportável de ironia
Bom dia, porquê bom dia?
Olhe, senhor guarda
(no fundo a minha boca rugia)
aqui é noite ninguém mora,
deite esse bom dia lá fora
porque lá fora é que é dia!
(Luís Veiga Leitão, In «Noite de Pedra», 1955).

