Diário de bordo de 3-10-2011

 

 

“A verdade é uma mentira que não foi descoberta”, “roubo é só quando se corre menos do que a polícia” “não ser descoberto numa mentira é o mesmo que dizer a verdade’ dois aforismos e uma citação, esta última de Onassis.

 

 Nos dias que vão correndo, vemos políticos, autarcas, dirigentes desportivos, acusados de crimes que toda a gente sabe que cometeram, vemo-los ser ilibados devido a irregularidades processuais (que parecem ser cometidas propositadamente). E, pior do que tudo, vemo-los impantes de orgulho declarar que foram inocentados – não foram; apenas não puderam ser condenados – o que é substancialmente diferente. A corrupção banalizou-se. Quem não utiliza conhecimentos e influências como chave para abrir certas portas, é acusado de ser parvo, porque a honestidade se tornou irrelevante.

 

Bem sabemos que em todos as épocas as pessoas que já viveram muitos anos se queixam. Na Grécia Antiga, em Roma… O tempora! O mores!,queixava-se Cícero. Catalinárias e Verrinas, encontramo-las em Fernão Lopes, em Gil Vicente, em Sá de Miranda… Nestes tempos que vivemos, a novidade é que o roubo, o nepotismo, a corrupção, que sempre existiram, se banalizaram. Há cem anos, ainda havia quem se suicidasse quando a desonra o atingia. Hoje, roubar, falsificar, mentir, mesmo quando descoberto, não leva ninguém ao suicídio.

Ver aquele ser,  inqualificável, da Madeira, de dedo esticado a dar lições de ética e a mentir descaradamente, é repugnante porque se a justiça funcionasse ele estaria a fazer aqueles discursos no recreio de uma penitenciária.

 

 O cardeal patriarca diz que ninguém sai da política com as mãos limpas. É verdade. E das altas esferas da hierarquia religiosa, com que mãos se sai? A religião devia servir para ser a voz da consciência dos crentes ou dos que tal se dizem. Todos essa gente que se aproveita de cargos políticos para roubar, quando, mercê das tais irregularidades processuais, são ilibados, vêm declarar que «graças a Deus se fez justiça».

 

Mas a religião tem sido ao longo dos séculos um prolongamento do poder, quando não mesmo, como aconteceu com a Inquisição, o seu braço policial. Este modelo de sociedade em que vivemos, sendo a negação de todos os princípios enunciados pelo cristianismo, foi edificada com o acompanhamento e supervisão das igreja. É uma estrutura acabada, blindada. esta em que vivemos. Como dizia ontem numa entrevista o escritor Boris Izaguirre, a corrupção transformou-se numa ideologia.

 

É metáfora mais do que gasta o comparar-se Deus ao dinheiro, visto que muita gente vive para acumular dinheiro. Isaltinos, Albertos, Fátimas, Valentins e alguns dirigentes desportivos são consequências dessa maneira de encarar a política, a res publica – como modo de enriquecer. Logo a seguir à revolução de Abril um famoso político vindo do parlamento salazarista, mas reconvertido, reciclado, foi acusado de ter praticado uma burla – uma coisa relacionada com letras bancárias – acho que estava inocente, embora o culpado fosse um familiar. Mas ouvi, naqueles tempos de mentes em revolta, alguém que acreditando na acusação em tom elogiativo – dizia «o tipo foi mas foi esperto».

 

Quando é que aprendemos a não eleger «espertos»? Fazemos a pergunta, mas a resposta que lhe damos é qualquer coisa parecida com «nunca».

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