Adão Cruz Isabelino e Geraldina
(Adão Cruz)
Quem se sentasse na mesa em frente, via sempre o Isabelino e a Geraldina a trocar olhares ternurentos.
A empregada do café, uma loura descaída nos anos e no corpo, disse um dia ao Isabelino:
– Isabelino porque não se junta à menina Geraldina, e deixam de estar aqui, todos os dias, a lamber-se com os olhos?
O Isabelino, franzino, sorriu por entre as falhas dos dentes e a Geraldina, gorda, roliça e peituda, baixou os olhos meia envergonhada.
– Que Deus lhe dê melhor sorte, disse a mãe da Geraldina, com o dobro da idade e da gordura da filha, avançando a sua presença com um par de repolhudos seios.
– Melhor sorte a quem? perguntou a loura.
– A ele, coitado! Ela é um paxá, uma calaceira, não sabe estrelar um ovo nem coser um botão, não faz nada, eu é que faço tudo.
A Geraldina torceu a boca com a maldade da mãe e o Isabelino abriu mais o sorriso e as falhas dos dentes, deixando que tais acusações entrassem por um ouvido e saíssem pelo outro.
Ora, estas conversas aconteceram uma semana antes da Geraldina ser internada.
Ela caíra na rua e, segundo a peixeira, os INEMs levaram-na para o hospital onde ficou internada com um esgotamento.
O Isabelino ficou muito triste, e quem estivesse perto podia enxergar-lhe umas gotitas de água ao canto dos olhos.
O Isabelino não tinha um emprego sólido, melhor dizendo, o Isabelino não tinha um emprego sólido nem frágil, e dizendo ainda melhor, o Isabelino não tinha emprego.
Tinha um carro, um desses carrinhos de supermercado que ele abafara, um dia, no Continente.
Com ele levava sacos de batatas, cebolas e hortaliças desde o mercado à casa dos clientes.
Logo que a Geraldina fosse desinternada, seguiria o conselho da loura descaída.
Estava decidido.
Havia uns casositos com a polícia, mas nada de maior.
Juntava-se a Geraldina, iriam viver para casa da sua madrinha Porcina, que tinha um quartelho para alugar, e passaria a trabalhar a dobrar, ora no mercado grande, ora no mercado pequeno.
Convém saber que todas estas coisas se deram uma semana antes da Geraldina morrer.
A Geraldina morreu, mas ninguém sabe de quê.
Há quem diga que foi da pouca sorte, há quem diga que foi destino, mas também há quem diga que morreu de amor.
O Isabelino como que se esvaziou.
Sentiu-se desligado, desbobinado, descalibrado, despovoado, deserdado.
Não era preciso estar muito perto para ver que as gotitas de água ao canto dos olhos se fizeram lágrimas.
Vendeu o carro ao sobrinho da peixeira e levou sumiço.
Ora, tudo isto aconteceu uma semana antes da mãe da Geraldina reaparecer no café, acomodar os cento e tal quilos em duas cadeiras da mesa do canto e começar a chorar:
– Coitadinha da minha menina, era uma jóia, era um anjo, tão minha amiga e tão amiga de toda a gente, faz-me tanta falta, trabalhava que nem uma moira, antes Deus me levasse a mim.
A loira descaída pousou a bandeja, enxugou-lhe as lágrimas com um guardanapo de papel e fez-lhe umas festas no cabelo.
Do Isabelino ninguém falava.
Do Isabelino ninguém sabia.
Quem, por acaso, uma semana depois, se lembrasse de ir dar uma volta pelas margens do rio, poderia calhar de ver o Isabelino carregando às costas uma rede de pesca.
E poderia vê-lo, também, sentado junto ao rio, escrevendo com um pedaço de caliça na proa de um barco meio desfeito, o nome giraldina.
E se a curiosidade se sentasse junto à margem, na mesa de pedra onde os pescadores jogam a sueca, ouviria certamente dizer que Isabelino estava convencido de que Geraldina tinha morrido com saudades dele.


