Aurora Adormecida 30 – Eva Cruz

 

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 30

 

 

 

(continuação)

 

Aurora ficou viúva muito nova. Continuava fresca e bonita. No mesmo ano em que viu partir o marido, casou o filho e a filha.

 

* Em seis meses vi a minha casa vazia. Fiquei só, nas Figueiras, entregue à dor e à solidão. Só se veja quem só se deseja! Depois de viúva ainda tive quem me qui­sesse. Nunca o disse a ninguém. Um homem chega para dizer o que é mundo.

 

° Então o que é mundo, avó?

 

* Tu sabes bem o que é mundo. Olha! É céu, terra e água.

 

Sempre gostou de viver com gente nova. Fez-se rodear de crianças. À noite, fizeram-lhe companhia duas meninas por quem sempre nutriu grande afecto e de quem recebeu muito carinho. Aos serões iam para sua casa vizinhos, parentes e as primas direitas. Aqueciam-se à lareira, a ver televisão e a beber chá ou cacau. A sua generosidade, a lealdade e a firmeza do seu carácter conquistavam todos com quem privava.

 

* Víamos todas as telenovelas e uma era muito bonita.

 

° As Dallas, não era, avozinha?

 

* Isso mesmo, as Dallas.

 

Era uma série americana com três mulheres bonitas. Não sabendo as amigas que Dallas era uma cidade, entendiam que se tratava do nome das actrizes.


* Já era sina minha e da minha casa. Agora vinham ver televisão. Noutros tempos, em vida de meu marido, vinham ouvir o rádio.

 

Na aldeia foi a casa de Aurora a primeira a ter rádio, um Philco, que dava música e as notícias. Abria-se a porta da sala para quem quisesse ouvir, na calçada.

 

Não era vulgar esta abertura e generosidade na aldeia. Apesar de toda esta franqueza, o respeito era grande.

 

* Ai de alguém que me faltasse ao respeito! Toda a gente sabe que por boa sou uma e por má sou outra.

 

° O que te vale é a mamã e o tio, senão ninguém te ligava nenhuma.

 

* Não há dúvida, essa é que era boa, rapaz, eu é que imponho respeito e estou a valer a todos vós. Sem mim o que é que tu eras? Quem julgas tu que és?

 

No campo trabalharam jornaleiros que a adoravam, e toda a gente que mais cedo ou mais tarde para ela trabalhou, a respeitava muito. Depois da morte do marido, tomou as rédeas da vida e de novo se sentiu dona e senhora do mundo. Começou a vender algumas propriedades, ampliou a casa para melhor receber a família, alindou o quintal, mandou compor ramadas. De novo sentiu a liberdade de poder administrar, sozinha, os seus bens e deles dispor a seu bel-prazer.

 

* Vendi muito, os Valdantes, os Valinhos, lameiros e matos, mas reparei casa, ramadas e tudo o que estava a cair.

 

° Pois é, avó, desbarataste tudo. Não soubeste conservar o que tinhas e o que o teu marido te deixou.

 

* Homessa, deixei-vos muito e em boas condições. Olha o que por aí vai. Tendes muito que herdar. Ele é o Paul, o Cortinhal, o Covo, os Couços, as Portelas…

 

º Cala-te mas é. Tudo isso não vale um corno.

 

* Se não vale um corno, então dá-o. Há muito quem queira, ora essa! Eu para vocês não tenho valor nenhum, fui uma grande mulher e este é o pago. Fiquei sem mãe ao nascer. Ai filhinha que não tens pai nem mãe…

 

° Cala-te, cala-te, avozinha, roda, roda a cassete.

 

Aos domingos lá ia ela à capelinha de S. Gonçalo, à missa, onde se rode­ava de pessoas que a estimavam. Ofereceu toalhas de renda e linho para o altar-mor, ajudava a zelar pelo enfeite da capela e a sua voz esmerava-se a acompanhar cânticos das missas. Não havia coro e as vozes das mulheres eram muito tímidas para se fazerem ouvir. Ela, como sempre, avançava, convencida de que era apreciada. Na missa dispunham-se os homens à frente e atrás, e no meio da capela ficavam as mulheres. Tinha o seu lugar e a sua almofadinha de veludo castanho onde se ajoelhava. Se, porven­tura, tomasse lugar noutro sítio, logo almofadas eram arremessadas pelo chão até ela, umas de chita, outras de estopa, não fosse ajoelhar-se na pedra fria da capela. Toda a gente gostava de a sentir por perto. Recebia mais atenções do que muita gente rica da terra.


º Tu quem és, avozinha?

 

* Sou a Aurorinha do Engenho, aquela menina mais bonita que veio há pouco do Porto.

 

° Do engenho? Que engenho?

 

* O engenho do linho, que engenho havia de ser?

 

° Pensava que era engenho de arte, mas tu não sabes fazer nada!

 

* Sei fazer tudo e teria ido longe se fosse cultivada. Não tive a tua sorte.

 

E não lhe faltava realmente engenho e arte.

 

Com muita saúde ganhou de novo gosto pela vida. Nasceram-lhe cinco netos, quatro rapazes e uma menina. Foram o orgulho da sua velhice e a nova grande razão de viver. Filhos e netos vinham aos fins de semana à casa das Figueiras e ela sentia-se feliz.

 

* Era uma casa cheia.

 

A casa enchia-se de amigos dos filhos, e lá se realizavam tertúlias em longos dias de Verão ou noites frias de Inverno, aquecidas pela lareira e pelo saboro­so cacau com gosto a limão. Sempre acreditou nos filhos. Mesmo em tempos quentes, de grande controvérsia política, e apesar da sua mentalidade de pes­soa de aldeia, presa a tantos preconceitos religiosos, sempre tomou posição ao lado dos filhos. Em altura de votação era com eles que se aconselhava.

 

* Vou por vós, porque acredito que quereis o melhor para o mundo.

 

Na altura das vindimas ou de colheita juntavam-se as pessoas, não só por ela mas também por respeito pelo filho, para os trabalhos mais difíceis, sem por isso levarem dinheiro. Nesses dias fazia almoço e jantar de festa, e exigia à noite a presença dos filhos e netos. Rituais havia em que ela não perdoava a falta deles. Eram dias de grande alegria. As pessoas vinham pelo gosto de ajudar. Para elas era dia de festa. Para ela eram momentos marcantes da sua actividade. Deles se orgulhava e para eles vivia.

 

* Servia-se doce, champanhe e vinho fino.

 

Morreram todos os que participaram nesse trabalho comunitário. Resta ela, semi-viva.

 

° Ficaste para aqui agarrada à terra, não é, avozinha?

 

* Eu passeei muito com a minha prima Laurindinha, fui ao Brasil, à Ale­manha e a Espinho.

 

° Estás tola, avozinha, tu algum dia foste ao Brasil?

 

* Pois não, tens razão, eu vim do Brasil.

 

° E à Alemanha foste mas é com a mamã, onde não estava a tua prima Lau­rindinha!

 

* Mas fui à Espanha com o teu tio e vi o Palácio do Oriente, e uma vez com o meu marido que Deus haja. Ele até me disse que aquelas ovelhas além são espanholas, são do Franco e as de cá são de Portugal, são do Salazar.

 

º O Salazar sabes tu quem é. E o Franco?

 

* Sei lá quem é o Franco. Frango sei, é aquilo que eu te dou, estufadinho. O que ele dizia é que eram tudo ovelhas. Ele não era político mas sabia o que dizia.

 

° Ai, avó, tu saíste-me uma grande revolucionária. Podias ter sido presa.

 

* Presa, só se fosse pelo rabo.

 

Eram conversas misturadas, com algum nexo ou sem ele, ao sabor da sua imaginação em que confundia pessoas e tempos. Lentamente foi envelhecen­do e tornou-se, apesar da sua saúde de ferro, dependente da filha. Os ossos foram-na traindo e cada vez era mais difícil viver sozinha. Sempre mandona e exigente, mesmo apoiada na bengala, obrigava a filha a segui-la para todo o lado que lhe desse na veneta. Em férias, lá ia ela agarrada aos netos e à benga­la, fosse para onde fosse. Nunca dava parte de fraca, e empertigava-se no seu orgulho para mostrar que ainda não tinha perdido as forças e a frescura.

 

* Isto não é doença. Eu ando de bengala mas isto não é doença. Eu sou muito sã. Escorreguei numa escada interior de madeira com uns carapins de lã e desconjuntei os ossos. Eu sou muito saudável.

 

Acabou por viver definitivamente com a filha, exigindo sempre que pelo menos a levassem à missa, à feira e à casa dela todos os fins-de-semana.

 

* Leva-me às Figueiras para ver o que lá vai.

 

(continua)


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