Guerra Colonial – 1
Não tenho dúvidas em considerar que a posição sobre a Guerra Colonial foi a pedra de toque, a linha de demarcação entre as forças de esquerda nos anos 60. Nessa época eu era estudante em Coimbra, e tinha muitos colegas das Colónias (e de várias cores, pretos, mulatos, indianos, e até brancos, que o colonialismo até era bastante colorido).
A imensa maioria de nós vivíamos em Repúblicas, centros de acolhimento dos estudantes que vinham de longes terras e que se tornavam – ao contrário do que julgava a gente comum, que só tinha olhos para as farras e os copos a mais – , em locais onde se aprendiam as regras do respeito pelo outro e da mais elementar convivência.
A razão deste milagre cívico era simples: nós éramos os gestores da casa, o dinheiro era pouco e tinha de chegar para tudo, éramos muitos e só havia uma casa de banho, era preciso poupar e evitar despesas supérfluas. Por conseguinte, ninguém podia deixar a casa de banho suja depois de a utilizar, era preciso aprender a apa¬gar a luz, estar a horas para o almoço, etc.
Que ninguém se aflija com este inesperado “rigor” numa juventude tradicional-mente acusada de estroinice e inconsciência; pelo contrário, acredite-se que era com imenso prazer que se aprendiam regras de saber estar uns com os outros, para poder haver o respeito mútuo.
Esses locais de liberdade estimulavam logicamente os hábitos democráticos: a dis-cussão, a polémica, e também o grito e a zanga porque ser democrata não significa ser um xoninhas que não tem direito à indignação.
E o-que a geme se indignava com o ensino autoritário, medíocre e bafiento! E com os pseudo aristocratas de meia-tijela que lambiam as botas aos professores caquéticosl
E com os bufos, e a Pide, e as proibições de tudo, por tudo e por nada! E assim se foi criando uma amizade sólida entre as Repúblicas (com a excepção de duas, cujos elementos foram devidamente recompensados com belos cargos no aparelho político do fascismo e hoje, evidentemente reciclados em democratas, lá continuam no aparelho de Estado. Convenientemente divididos por vários partidos, claro; até porque é preciso dividir o mal pelas aldeias).
Essa amizade solidificou-se nas lutas Académicas e no trabalho comum nos vários organismos culturais, Orfeon, Tuna, Teuc, Citac, Cine Clube, Via Latina, canto, música, teatro, cinema, jornais, livros, tudo devorávamos com a ânsia da liberdade e o desejo de aniquilar o cinzentismo em que sufocávamos.
Começaram perseguições, prisões, castigos, expulsões da Universidade.
E os laços entre nós ficavam mais apertados e mais sólidos.
Quando começa a guetra, nasce a perplexidade. E agora? Eu vou lutar contra o meu camarada de luta porque ele é preto ou é das colónias? Como é possível?
Para perturbar mais o debate, surgiu uma bizarra directiva do partido comunista: “é preciso ir para a tropa, para fazer a guerra mais humana”! Como? O que é isso de ser mais humano quando se está frente a frente para morrer ou matar?
E a decisão, não unânime, mas com a força para fazer (e fez) um belo caminho, foi a palavra de ordem de recusar ir para o Exército. Esta palavra de ordem evoluiu consoante a consciência política de cada um e a própria evolução do fascismo.
Pela lógica do estado de coisas, e pelos acontecimentos internacionais – Revolução Cubana, independência de Argélia, derrota da França em Dien Bien-Phu, a luta do Vietcong contra o imperialismo Americano, é evidente que começa a fazer caminho a ideia da luta armada.
Quando surgiram noticias de terem morrido camaradas na Guiné e em Angola, claro que surgiu a dúvida do assassinato pela Pide.
– O que é isto, malta? Andam a matar a gente e a malta não responde? E a resposta surgiu com a palavra de ordem de ir para a tropa, fazer a recruta para aprender a lutar e dar tiros com pistolas, metralhadoras, e o mais que o Exército inventasse, e desertar com armas na altura da mobilização.
