“Brasília e a figura de André Wogel, designado Embaixador pelos chefes das tribos do Parque Indígena do Xingu (Mato Grosso) – JORNAL de uma curta viagem ao Brasil – nº 7. conclusão da série – por Sílvio Castro

 

Grupo de caciques e chefes das diversas tribos do Xingu, em Brasília, em companhia de André Wogel (o 1º, à direita, diante do computador de trabalho”

 

Ao me deslocar do Rio para Brasília, depois de uma ausência de quase sete anos, de imediato notei na Capital política e administrativa do Brasil mudanças que não podem ser ignoradas, as mesmas que geram entre os seus moradores tomadas de posições as mais controvertidas, como se tudo estivesse diante de uma crise. Desde o primeiro dia de estada na Capital revolucionária foi essa atmosfera que comecei a captar.

 

Chegado do Rio, nosso carro deixa o magnífico aeroporto internacional já envolvido nas muitas ampliações e obras várias. em vista da grande invasão de turistas e visitantes diversos que aqui chegarão atraídos pelo grande evento do Campeonato do Mundo-2014 que conta a cidade como uma de suas treze sedes regionais para a 1ª fase dos jogos.

 

Percorrendo com relativa facilidade a estrada que une o aeroporto à cidade de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, começo a verificar um dos novos fenômenos da vida brasiliense: o grande aumento do trânsito, em particular aquele referente aos carros particulares. Isso, comprovo logo em seguida em seguida, não se deve senão ao fraco desenvolvimento da oferta de meios de transporte público, com consequente predisposição dos habitantes do plano-piloto a possuirem como mínimo dois carros para cada núcleo familiar. Várias vezes pude em seguida constatar que muitas dessas famílias, todas representantes da classe média, maioria quase absoluta na estrutura populacional da Capital, alargam tais números conforme os outros componentes familiares chegados à idade de poder conseguir uma carteira de motorista.

 

O fenômeno do visível aumento de carros em Brasília provocou o primeiro choque grave com o sistema urbanístico original da cidade, gerando a presença de estradas de acesso às avenidas brasilienses que superam as dimensões originais do plano-piloto, alargando-se como se fossem braços de auto-estradas. com 3 ou 4 faixas de trânsito. Tal procedimento fez famosa a figura de um dos prefeitos do Distrito Federal, prefeito esse demitido como consequência de corrupções cometidas na construção de suas indigitadas estradas. Ainda que o escândalo tenha sido de total conhecimento público, muitos brasilienses ainda hoje – principalmente nos momentos difíceis dos engarrafamentos do trânsito nas horas do “rush” – lastimam a perda do prefeito famoso pela corrupção. “É verdade, roubava, mas fazia…”

 

Integrado nesse novo ambiente do trânsito brasiliense, diviso outro fator de mudanças ambientais: procurando repouso no vasto horizonte do planalto de Brasília, meu desejo de repouso se desfaz quando descortino, não muito distante do já histórico plano-piloto construções de novas cidades satélites, como a recente Águas Claras constelada de arranha-céus que recordam os de São Paulo e de outras grandes capitais estaduais. Meus olhos, atraídos por êsse fenômeno surpreendente na paisagem de Brasília, onde Lúcio Costa fixou em 3 andares a dimensão das habitações das quadras do plano-piloto, meus olhos se pertubam e quase sofrem.X

 

As muitas e indevidas alterações porque Brasília tem passado já constituem grande ameaça para a cultura brasileira e sua repercução internacional. Ameaça que poderá levar a UNESCO a cancelar o título de “Patrimônio da Humanidade” por ela concedido à moderna capital do Brasil.

 

Porém, depois de tudo, esses são relativamente poucos choques que encontro e sofro na minha visita a Brasília. Ali encontro, igualmente atividades renovadoras e pessoas de alta criatividade. Entre essas pessoas destaco uma, a de André Vogel, designado expontaneamente, pelas suas atividades meritórias, “Embaixador das tribos-nações do Xingu”, título por ele recebido por vontade dos caciques tribais pela sua ação pioneira em favor das comunidades indígenas.

 

André Vogel é um jovem técnico brasiliense, de 47 anos. Formado em Análise de sistemas, cinema e telecomunicações, exerce suas funções oficiais junto ao Ministério da Integração Nacional, na SUDECO (Superintendência do Desenvolvimento do Centro Oeste). Vogel ali ocupa o cargo de Coordenador de Tecnologia e Inclusão, numa atividade que hoje chega ao seu 11º ano.

 

 As intensas atividades do técnico brasiliense se traduzem no chamado “Quiosque do cidadão”, projeto de inclusão digital do Ministério da Integração Nacional que atualmente, depois de sua criação, possui 103 unidades em funcionamento, servindo a cerca de 200 mil usuários de comunidades carentes.

 

Dentre essas comunidades, aquelas dos índios do Xingu merecem consideração à parte. Isto pelo muito que caracteriza a figura do Embaixador dos indígenas, André Vogel

 

Essas comunidades indígenas, aldeias presentes no Parque Indígena do Xingu (Mato Grosso) são as de Kamayura, Yawalapiti, Kuikuro, Waurá, Kalapalo, Mehinako, Suiá, Ikpeng, Kaiabi. As mesmas estão recebendo tecnologias, assistência médica e social, em geral. Isso através de diversos projetos, os principais dos quais são:

 

 1) Projeto do peixe da lagoaYpawu e aldeia Yawqlapiti;

 

2) Projeto Quiosque do cidadão – Computadores com internet;

 

3) Projeto do telefone comunitário;

 

4) Projeto dos jogos tradicionais indígenas do Xingu.

 

O projeto sobre a piscicultura representa uma atividade essencial para a vida das diversas tribos que têm no peixe um dos seus alimentos fundamentais. A restauração da fauna própria da lagoa Ypawu restitue aos indígenas um dos elementos substancias para a sua própria dignidade humana.

 

Os projetos que introduzem os instrumentos tecnológicos elevam os indígenas do Xingu a graus de grande participação com o mundo brasileiro, que de direito também lhes pertence. Ao mesmo tempo, tais contribuições ajudam a batalha pela preservaçãp dos valores culturais das nações indígenas, em modo especial pela divulgação de suas atividades artísticas. Tais atividades atingem dessa maneira novos meios de venda dos produtos originais da natureza criadora dos índios brasileiros, com correspondentes aumentos das vendas dos produtos das comunidades.

 

Os kits que atualmente estão sendo entregues às comunidades indígenas, por intermédio do “Embaixador” André Vogel que os representa com constante ânimo inovador, são: 11 computadores; 1 impressora laser; 1 receptor satélite internet com antena; 1 wi-fi, rede sem fios local; 11 mesas; 21 cadeiras; 1 armádio.

 

Com tais e mais produtos os indígenas podem imaginar um futuro próximo diverso e muito promissor. Como um dos seus mensageiros oficiais, Piracuman, soube traduzir escrevendo nas páginas do informativo Postal do Xingu, Brasília, abril de 2011:

 

“Projetos simples, com baixo custo financeiro, nas áreas de saúde, educação e alimentação. Visitas com médicos, dentistas, professores e nutrocionistas voluntários que visitarão as aldeias apresentando novas idéias com orientação sobre assuntos ligados a higiene pessoal, preservação da música, culinária, lendas, história, e também a conservação e aproveitamento de alimentos. Precisamos desenvolver e apoiar as demonstrações culturais das cerimônias e rituais indígenas.” ________________________________________

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