OS HOMENS DO REI – 35 – por José Brandão

Pedro Álvares Cabral (1467? -1520?)

 

 

Nascido em 1467 ou 68, em Belmonte, na Beira Baixa, vila fronteiriça e acastelada de que seu pai, Fernão Cabral, era alcaide-mor de Azurara, descendia da velha fidalguia do Reino, com foros de nobreza, desde D. Afonso IV pelo menos, por seu trisavô Álvaro Gil Cabral, alcaide-mor do castelo da Guarda em tempo de D. Fernando e do Mestre de Avis, D. João, a cujo partido aderira logo em 1384, ao recusar-se a entregar a fortaleza a D. João de Castela, na sua primeira invasão para se apoderar do reino.

 

Do casamento de Fernão Cabral com D. Isabel de Gouveia provinha, terceiro génito, Pedro Álvares Cabral. Em 1483 ou 84, nos seus 16 ou 17 anos, foi admitido como moço fidalgo com seu irmão mais velho, na corte de D. João II, em que desde então ambos foram criados com tença de moradia, começando a frequentar a aula de pajens, instituída pelo Príncipe Perfeito para cultura literária e científica dos moços fidalgos da sua corte, em quem desejava incutir o gosto pelo estudo da cosmografia e da astronomia náutica, na intenção de poder dispor sempre de grandes navegadores, fidalgos seus, como capitães de naus ou de armadas, para a magna empresa de descobrimentos e expansão ultramarina que tinha em mente.

 

Por morte de D. João II, o seu sucessor D. Manuel, tendo em grande apreço os «serviços e merecimentos» deste moço fidalgo – conforme se declara mais tarde no documento régio de Fevereiro de 1500 – agraciou-o com o foro de fidalgo do seu Conselho e cavaleiro da Ordem de Cristo, confirmando-lhe a tença anual de D. João II, mas então repartida com seu irmão mais velho. Aos 27 ou 28 anos, casava com D. Isabel de Castro, da poderosa família dos Castros, das mais ilustres e ricas do Reino, pelo que se aparentava, por afinidade, com outra nobre família, a dos Albuquerques, a que sua mulher pertencia como filha duma irmã de Afonso de Albuquerque.

 

Tão nobre ascendência e tais alianças de família, bem como seus merecimentos próprios e serviços prestados a D. Manuel, que aliás se desconhecem, valeram-lhe ter sido ele o escolhido para capitão-mor da segunda e poderosa armada que o Venturoso – logo que Vasco da Gama lhe abriu o caminho marítimo para a Índia pelo Oriente decidiu lá mandar, não só para iniciar em força a magna empresa político-económica do seu reinado – o grande comércio de especiarias do Oriente – como também, presumivelmente, com o encargo de tentar novos descobrimentos, se é que não o de revelar oficialmente ao Ocidente uma descoberta até então conservada sob rigoroso sigilo.

 

Com todas as honras recebeu D. Manuel o feliz descobridor do Brasil, e para se assegurar, com o domínio dos mares da Índia, do exclusivo do seu grande comércio das especiarias, apressou-se o monarca a organizar uma nova e mais poderosa armada de 20 naus, cujo comando seria ainda confiado a Cabral. O grande navegador, porém, sentindo-se desautorizado pelo comando independente conferido a uma das divisões da frota, declinou a capitania-mor da armada e foi substituído por Vasco da Gama, para a sua segunda viagem à índia.

 

Desde 1502, D. Manuel, como sob a loucura de humilhar, tratar com desprezo todos os seus maiores servidores ou heróis que mais denodadamente tinham contribuído para a glória do seu aparatoso reinado, não mais se ocupou de Pedro Álvares Cabral, nem lhe confiou qualquer missão ou novo cargo de importância. Caído em desgraça na Corte, desprezado e esquecido, retirou-se para Santarém, onde com sua família viveu obscuramente ainda mais de dezoito anos, pois teria morrido em 1520, pouco antes do monarca.

 

 A seguir: Francisco de Almeida

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