(Continuação)
A gentrificação
A relação entre os bairros de relegação e as periferias urbanas é da ordem da rejeição dos primeiros por aqueles que habitam as segundas, mesmo se deles provieram, em parte. A outra componente das periferias urbanas é, por conseguinte, constituída de camadas médias que têm deixado a cidade por quererem, por desejarem ir para um ambiente mais atractivo, no início sobretudo, e por necessidade, depois, quando quiseram dispor de um alojamento suficientemente vasto para a sua família e o preço atingido pelos terrenos nos centros das cidades não lhes permitia nunca a sua aquisição. Deu-se também um movimento oposto “de regresso à cidade” que se faz sentir na parte superior destas camadas médias[1]. Isto já diz quanto o tipo de entre si que se produz com este processo de gentrificação se opõe às periferias urbanas. Porque não é tanto uma vizinhança protectora e valorizadora que procuram os partidários deste famoso regresso à cidade. Mais do que um entre si protector, é a um entre si selectivo que aspiram. Não que estes o reclamem alto e a bom som e procurem limitar o acesso a este lugar a quem não lhes convém. Nenhum sistema de vizinhança exigente se elabora para preservar o acesso aos lugares da gentrificação a uma elite autoproclamada. O entre si selectivo é o produto “natural” do mercado. A relação com a mobilidade muda completamente. É o fim da mobilidade forçada dos habitantes da periferia urbana, deste movimento permanente dos suburbanos, deste famoso commuting onde gastam uma parte tão considerável do seu tempo. Os habitantes dos centros gentrificados não estão nem na imobilidade voluntária nem na mobilidade forçada mas na ubiquidade. Eles estão plenamente aqui e facilmente estão noutro lugar ao mesmo tempo, pela proximidade de tudo o que lhes interessa lá onde vivem e pela rapidez das redes reais ou virtuais que lhes permite projectarem-se facilmente em qualquer outro ponto deste globo ao ritmo do qual vivem constantemente. Em matéria de insegurança, não têm realmente temor quanto aos seus espaços privados. O preço do terreno fundiário é suficiente para ter a uma distância respeitável a plebe dos subúrbios. Também não é nas ruas que se sentem ameaçados, tanto é a abundância de lojas comerciais que está ligada a uma vigilância discreta, dobrada, se necessário, pela menos discreta polícia municipal e pela mais ostensiva que é a polícia nacional na frente de numerosos edifícios públicos. A inquietação, com efeito, corresponde ao tipo de presença desta categoria de habitantes. Está por toda a parte e em nenhuma parte exactamente como vivem aqui e em algures, ao mesmo tempo. Quanto à escolaridade, não se preocupa com a procura de um estabelecimento preservado e dum diploma por causa do acesso que é suposto garantir a um emprego qualificado. Não é o passaporte que conta mas mais a procura das melhores trajectórias que permite a selectividade do meio.
Falar do “entre si selectivo” a propósito da gentrificação pode parecer um contra-senso se considerarmos que os pioneiros deste processo foram, pelo contrário, as classes médias que não temiam as fricções com as classes populares ao virem habitar o centro das cidades, as suas partes degradadas, para saborear o pitoresco. Tal foi o sentido primeiro da palavra gentrificação, desde o momento em que a palavra foi inventada por Ruth Glass, em 1963[2]. Um dos seus melhores analistas, Neil Smith, descreve como é que um gentry urbano — composto de classes médias e superiores — tinha assumido, nesse tempo, investir em certos velhos bairros operários de Londres porque apreciavam o ambiente urbano. O fenómeno continuou a ser bastante marginal até aos anos 80, associado ao lado boémio de uma fracção intelectual e de artistas das classes abastadas (o bairro de Greenwich). Depois do estatuto de curiosidade, ou mesmo de anomalia local, a gentrificação passou ao de valor central. Tornou-se “a” maneira de ser na cidade, um princípio de produção do espaço urbano. Sobretudo desde os anos 90, quando ela apareceu aos municípios e aos promotores como o meio para valorizar o produto de que dispunham: a cidade, esta cidade, que abandonava as classes médias porque estava associada a uma densidade excessiva, aos danos de todas as espécies. Mas o que demonstravam os gentrificados era o facto de que a cidade continuava a ser mesmo assim a cidade, ou seja, um lugar único de concentração das oportunidades, de encontros, de alianças, de prazer, que ela era também, e por isso mesmo, um espectáculo, o espectáculo mais procurado do mundo e, por conseguinte, necessariamente o mais caro possível se soubessem vendê-lo. Mas para efectivamente vender a cidade, era necessário libertá-la dos seus “defeitos”, de lhe reduzir a densidade, fazer de modo que esta voltasse a ser bonita, reduzir-lhe o barulho, a circulação, os maus cheiros, os maus encontros. A gentrificação é este processo que permite gozar das vantagens da cidade sem ter de temer os seus inconvenientes. Gera um produto que lhe corresponde, mas que tem um preço, financeiro, próprio para atrair aqueles que têm os meios para o poderem pagar e para fazer desaparecer de cena, discretamente, os que não o podem pagar. No final deste processo, onde, pelo menos, este parece ter seriamente avançado, vê-se bem, efectivamente, o tipo de entre si selectivo que produz a gentrificação. Estão por toda a parte os hiper-quadros da mundialização, as profissões intelectuais superiores que povoam os seus espaços renovados. É lógico que os que compram o bem o mais caro no mundo sejam as pessoas mais ricas, é certo, mas igualmente as mais adaptadas a este produto porque é feito para elas. A prova desta estreita correspondência entre um produto e os seus compradores, pode ver-se no modo de reconhecimento mútuo que a gentrificação estabelece entre os seus beneficiários. Faz mesmo muito que pensar o espectáculo que oferecem os vencedores de um jogo de tele-realidade quanto eles dão mostras de parecerem ingenuamente deleitados e orgulhosos por se reencontrarem juntos e felizes por se terem salvado do grande jogo da sociedade nacional, por serem membros eleitos da sociedade mundial.
Paris constitui o laboratório da gentrificação das grandes cidades francesas como Nova Iorque o foi para as grandes cidades do mundo. Os primeiros responsáveis da gentrificação dos bairros centrais de Paris — o X.º, XI.º, o IX.º — ou mesmo dos bairros mais periféricos como certas partes do XX.º e do XII.º — queriam, como os que promoveram o bairro de Greenwich nos anos 60, trabalhar na sua defesa, sem dúvida, para fazer respeitar as suas marcas históricas, ou mesmo o seu carácter popular, através das associações de bairro. Mas é difícil defender os artesões do bairro… e, ao mesmo tempo, recusar o barulho dos comerciantes e industriais que lhes trazem as matérias-primas e lhes levam os seus produtos acabados. É impossível valorizar um bairro sem estar a atrair aqueles que podem oferecer a si mesmos os alojamentos livres e facilmente provocar, de imediato, um aumento rápido dos preços de mercado. Tanto quanto os amantes de alojamentos situados nos bairros “populares” não faltam numa capital que emprega cada vez mais gente das profissões intelectuais superiores, as quais, sabe-se efectivamente, não têm em relação ao povo os tiques da burguesia de outrora. Mas o seu apetite imobiliário traduz-se numa partida forçada dos trabalhadores, de empregados e de profissões intermédias que trabalham na capital. Os pequenos comércios diminuem em proveito da restauração rápida ou de luxo (mercearias finas…), de empresas de lazer (salas de desporto) e de cultura, ou seja, o que convém ao modo de vida dos famosos bobos, estes ecologistas rosas cujo voto faz perder as câmaras municipais para direita depois que deram o tom numa capital que perdeu os seus comerciantes. A presença crescente nas grandes cidades desta população de hiper-quadros de altos salários preocupa a direita e, por conseguinte, Le Figaro denuncia: “Uma transformação da capital num museu muito limpinho com uma grande zona pedestre, interdito à plebe e aos suburbanos”. O mesmo jornalista — Thierry Portes — vai mesmo ao ponto de lançar um grito de inquietação sobre o futuro das camadas populares tão inesperado quanto politicamente interessado: “Quem não percebe, escreve, a angustiante queixa de um povo de empregados, de trabalhadores, de artistas e de intermitentes, cansados de uma cidade onde os preços do imobiliário disparam? Um dia destes, entre estes novos suburbanos e as profissões intelectuais que trabalham na melhoria do seu nível de vida, o eléctrico sobre as alamedas externas inscreverá uma fronteira simbólica”[3].
A relação dos habitantes dos centros com a mobilidade contrasta totalmente com a agitação pendular das periferias urbanas[4]. Vivem perto do seu emprego, podem frequentemente ir a pé e elogiam esta vantagem da sua situação. Isto tanto quanto não há uma simples vantagem que seja quantitativa — ganho de tempo, ou mesmo de dinheiro —, porque esta proximidade entre o emprego e o trabalho faz com que os dois membros do casal possam em igualdade fazer as suas carreiras profissionais, facilitando tudo isto uma verdadeira mutação na relação entre o homem e a mulher. A vida num centro gentrificado permite assim o que a instalação na periferia urbana só muito raramente permite. Na periferia urbana, se o homem exerce uma profissão de quadro, a mulher tem em geral um estatuto de empregada a tempo parcial a fim de dispor de tempo livre para se ocupar das crianças. É ela que assegura a presença mais regular em detrimento da sua ambição profissional. Para os gentrificados, esta desigualdade entre o homem e a mulher desaparece. Ambos podem investir em igualdade na sua carreira pessoal e profissional sem estarem a temer pela educação dos seus filhos, tanto quanto a acumulação de dois salários de hiper-quadros lhes permite facilmente recorrer a um serviço de guarda de crianças no domicílio. O centro gentrificado é um lugar onde se pode construir uma carreira, educar os seus filhos… e simultaneamente manter contactos sociais e culturais, ao contrário da periferia urbana que provoca a renúncia comum a uma vida social intensa. Esta motivação dos gentrificados foi bem observada em Amesterdão, onde a gentrificação resulta da migração de famílias que deixam os suburbs no momento em que a preocupação de acompanhar a escolarização das crianças corre o risco de provocar a renúncia da mulher a uma carreira profissional. Estes gentrificados receberam, de resto, a denominação de “YUPPS” (Young Urban Profesional Parents), uma maneira efectivamente de sublinhar que a supressão do constrangimento das longas deslocações provoca uma reconstrução dos papéis masculinos e femininos no sentido de uma divisão igual das responsabilidades parentais e de ambições de carreira[5].
Os gentrificados evitam a mobilidade vinculativa da periferia urbana, e sobretudo a perda de tempos que daí resulta. Reequilibram a relação entre o homem e a mulher, entre a vida familiar e a vida social consequentemente. Mas não se fecham com isso no quadro urbano e têm os seus encantos à maneira das periferias urbanas que partem à procura de um pedaço de natureza perdida e se encontram fixados e imobilizados na sua pequena moradia, o seu jardim cercado, com uma vista sobre uma colina ameaçada pelas construções que lhes são impostas pelos seus vizinhos. Opõem a esta procura de um lugar “natural”, a de um lugar orientado para o mundo, permitindo-lhes viver o global à escala local. Esperam de um tal lugar que este participe nesta erosão das fronteiras nacionais, culturais, que lhes permita escapar aos constrangimentos da vida local. Neste sentido, a gentrificação fornece um território onde uma pessoa dotada “de um estado de espírito global” se sentir-se-á legitima. Como se reconhece este estado de espírito global? Os sinais não faltam. Mas o mais significativo consiste, sem dúvida, nesta propensão dos hiper-quadros e de outras profissões intelectuais superiores a medirem o seu salário pelo dos seus equivalentes nos outros países, mas nunca pelo que ganham as outras profissões no seu próprio país. Materialmente, em que é que se pode distinguir um território de vocação “global” do outro? Na presença de tudo que facilita um estilo de vida onde emergem os cafés e os restaurantes do mundo inteiro, lojas e galerias de arte. Ou seja, um conjunto de sinais de prestígio que os promotores aprenderam a manipular de maneira a poder conferir a certos lugares esta marca “do global” que atrairá os candidatos a esta comunidade mundial. Produto imaginário, esta comunidade mundial não constitui menos a marca de identidade da gentrificação de todas as cidades do mundo, a prova da sua relação constitutiva com a globalização[6].
[1] Catherine Bidou-Zachariasen (dir.), Retours en ville, Paris, Descartes et Cie, 2003. Esta compilação é praticamente a única obra digna deste nome publicado em França sobre a questão da gentrificação que parece mobilizar, pelo momento, somente os jornalistas. Comparado às toneladas de livros, a investigações e artigos consagrados a este assunto nos países anglo-saxónicos, pode perguntar-se se a nossa preocupação com os bairros da política dita da cidade não nos teria tornado cegos em relação ao que se passa noutro lugar e que determina pelo menos tanto o destino da cidade.
[2] Neil Smith, “La gentrification comme stratégie urbaine globale”, p. 160.
[3] Thierry Portes, Le Figaro, de 29 de Outubro de 2003, p. 10-13.
[4] Trajecto casa/trabalho.
[5] Lea Karsten, “Family Gentrifiers: Challenging the City as a Place Simultanously to build a Career and to raise Children”, Urban Studies, vol. 40, n.º 12, Novembro de 2003.
[6] Para um desenvolvimento desta análise, ver Matthew W. Rofe, “‘I want to be Global’. Theoring the Gentrifying class as an Emergent Elite Global Community”, Urban Studies, vol. 40, n.º 12, Novembro de 2003.
